Em branco

O conto Areia (Lado A e Lado B), de Paulo Kellerman, é hipnótico. Provocou-me um grande impacto quando o li pela primeira vez; voltei a ele diversas vezes na tentativa de apreender tudo o que era dito pelas palavras e para além delas. Um dia, descobri-me num diálogo imaginário com o texto, a desenhar imagens e frases. Dessa conversa surgiu Em branco, um conto que dá voz à personagem feminina, à narrativa não escrita, e que recria a história a partir de seu olhar.

Em branco poderia se chamar Areia (Lado C), o que, se por um lado, quebraria a ideia original de apresentar duas perspectivas de uma mesma história, como os dois lados de um disco de vinil, por outro, sugeriria mais uma das inúmeras facetas de um cristal, num infinito desdobrar de imagens. Areia faz parte do livro Os Mundos Separados que Partilhamos, publicado em 2007 pela Deriva Editores, e mantém intactos seu impacto e força.

***

Areia
Lado A

1.
Caminhamos lentamente, de mãos dadas, os pés descalços a arrastarem-se na areia; falas devagarinho, dizendo pouco, agradada com o som da tua voz, talvez agradada com o meu silêncio; por vezes, ris alto; e apertas a minha mão, com força. Não sei por que motivo insististe em trazer-me a esta praia fria e cinzenta, não sei que quererás mostrar-me, dizer-me. Talvez queiras, apenas, estar comigo: sozinhos num pedaço de mundo isolado e silencioso, parado no tempo.
Penso noutros passeios noutras praias com outras mulheres; penso em como tudo se repete, apesar de tudo mudar. Gostaria de te falar disto, de discutir este paradoxo da vida contigo; mas tu falas com entusiasmo da primeira vez que estiveste nesta praia, quando eras adolescente, revives um pedacinho do teu passado, partilhando-o comigo. Por isso, não te interrompo e escuto-te com atenção enquanto continuo a reflectir vagamente, sem objectivo, sem pressa.
2.
Vejo um vulto escuro e imóvel, lá longe, e aborreço-me por não termos a praia só para nós. Mas tu avanças, indiferente e decidida, arrastando-me contigo, prendendo-me a ti. Agora, já se distinguem as formas de um homem, sentado numa rocha, olhando o mar; sozinho. Pergunto-me por que motivo estará este homem numa praia deserta, num local onde certamente a sua solidão, a solidão intrínseca à existência humana, será mais incisiva, mais insuportável; e depois envergonho-me, quando recordo as minhas próprias deambulações solitárias, olhando o mar e sentindo o silêncio. Não conheço este homem mas identifico-me com ele, imagino o que poderá estar a sentir.
Já estamos muito próximos; e o desconhecido olha-te com intensidade e paixão, como se te conhecesse, como se te esperasse. Estranho, sinto algum incómodo, uma sombra de receio. Continuas o teu caminho, imperturbável; a tua mão aperta a minha com mais força, a tua voz parece-me mais hesitante, um pouco insegura. E depois, falas-lhe: como estás? Escutamos os seus murmúrios embaraçados, a que respondes com uma expressão de circunstância, enfadada e displicente: estás com bom aspecto, gostei de te encontrar. E prosseguimos o nosso trajecto. Sinto-me perturbado com este estranho encontro, que ocorreu mesmo perante mim mas que decorreu como se eu não estivesse presente. Pergunto, hesitante, quem era o desconhecido; mas tu não respondes, finges que não ouviste. Depois, muito tempo depois, recomeças a tagarelar, a rir. Já esqueceste ou tentas esquecer? Percebo como te conheço mal; e não me importo, prefiro não me importar.
3.
Digo, distraído: há uma lenda antiga que conta que cada grão de areia que existe nas praias de todo o mundo é o testemunho final de um amor infeliz. Sorrio e explico: sempre que duas pessoas recusam continuar a amarem-se, o amor que as unia condensa-se num grãozinho de areia, simbolizando, por um lado, a insignificância e irrelevância desse amor (é apenas mais um mísero grão, entre biliões) e, por outro, a sua perpetuidade e resistência (a areia existe para sempre, é indestrutível).
Dizes, um pouco distraída, naquele teu tom indiferente e agastado que, por vezes, me irrita: então, ajudei um pouquinho no crescimento desta praia. E ris, uma gargalhada tão explosiva que não pode ser totalmente artificiosa. Concentro-me no som do teu riso; e quase consigo acreditar que estás a brincar.
4.
Agora, tocas-me de um modo diferente, mais explícito; convidas-me a tomar a iniciativa. E eu tomo: beijo-te, apertando-te contra mim, abraçando-te; sinto o teu corpo vibrar, excitado e exigente. Estamos no chão, deitados; já tenho a minha boca no teu seio, a minha mão na tua coxa; distraio-me vagamente com o murmurar do mar, o sopro do vento, o desconforto da areia. Penso distraidamente noutras praias, noutros seios que não cheguei a beijar, penso em todos os seios que desejei e não tive; sinto este momento como uma oportunidade única, redentora; e duplico a intensidade do beijo, incutindo-lhe todo o meu desespero, toda a minha fé. Correspondes, apertando-me o sexo, acariciando-o; mas não fazes qualquer esforço para me despir as calças, o que me surpreende e contraria um pouco; mas gemes, libertas aquele som aflitivo e libertador de quem abdicou momentaneamente da consciência, da vontade, da responsabilidade; percebo que estou a rir, talvez de prazer, talvez de embaraço, talvez de desespero. Quase consigo abandonar-me, esquecer o mundo e abdicar de mim, da consciência de mim; quase consigo ignorar que, na verdade, estamos apenas a fazer sexo, nada mais; daqui pouco virão os orgasmos e, logo depois, a normalidade; tudo voltará a ser o que era, tudo isto será passado, apenas uma memória incerta e nostálgica. Concentro-me no sabor do teu mamilo e tento não pensar, ignorar os pensamentos. Tento saborear o momento, apenas.
5.
A primeira pancada atinge-me nas costas. Sinto uma dor aguda, mesclada de surpresa e pânico; retiro lentamente o rosto do teu seio e respiro fundo; tento erguer-me, olhar, compreender. Tu gritas, apenas uma vez, um longo rugido alimentado de ódio e incredulidade. Intuo que fui atingido por alguma coisa, por alguém, e viro-me, tentando perceber. Lembro-me do homem com quem nos cruzámos e pergunto-me quem será. É então que chega a segunda pancada, mais suave mas igualmente inesperada e surpreendente. Atinge-me no pescoço, ouço um estalo, sinto a dor. E logo depois: cansaço, indiferença, vazio, desistência; vontade de nada.
Sinto-me resvalar para o interior, confortável e acolhedor, seguro, de um mundo sem cor nem desejo nem prazer nem riso nem vontade nem tempo; e muito devagarinho, vou intuindo que mundo é este a que acabo de chegar, vou percebendo o que está a acontecer. E não me indigno, não me surpreendo, não me revolto; deixo-me ir, apenas: deslizando.
6.
Aconchego-me na areia, sentindo-me parte dela, apenas mais um grão; e espero.

Lado B

1.
Escolho uma rocha e sento-me. Permaneço assim durante muito tempo, esquecido do tempo, a olhar o mar e o céu, a olhar o nada, a olhar para dentro de mim; e a pensar em ti: à tua espera.
Por vezes, fumo; sinto frio; olho em redor, à procura; sigo o percurso das gaivotas, invejo-as; perscruto o mar em busca de barcos, que nunca passam; estudo as metamorfoses das nuvens; escuto o ruído – o suspiro, o arroto – das ondas; imagino sereias, sorrindo-me; mas, principalmente, recordo: o dia em que caminhámos por esta praia, de mãos dadas, de corações dados, em silêncio; e depois, todos os outros dias que se seguiram. Os passeios, os abraços, os suspiros, os beijos, os toques, os sorrisos, os silêncios. Todos os momentos, um a um: evoco-os, revivo-os, saboreio-os, aprisiono-os. Recordo com a intensidade de quem sabe que o passado não se repetirá, de quem sabe que lhe resta continuar a viver do passado, no passado. Tudo o que vivemos, sentimos, partilhámos está, agora, encerrado num pequeno compartimento do meu cérebro, apenas existe para mim, na minha memória. Como se tivesses morrido, e o que restasse de ti fosse, apenas, uma caixinha com as tuas cinzas.
Mas não morreste. Deixaste-me no passado e seguiste em frente, rumo ao futuro. Sem mim.
2.
Sei que virás um destes dias; mas não estarás só. Trouxeste-me a esta praia e amaste-me; agora, trarás outro, amarás outro. Alguém que terás seduzido, que estará apaixonado por ti, que pensará em ti como sendo o seu futuro. Uma nova versão de mim, um outro eu.
Caminharão lentamente, de mãos dadas, os pés descalços a arrastarem-se na areia; quando me vires, sentirás algum incómodo, alguma contrariedade; mas, depois, sorrirás. Sem largar a mão do teu novo amante, perguntarás como estou e escutarás os meus murmúrios embaraçados; não disfarçarás o enfado; dirás que estou com bom aspecto, que gostaste de me encontrar. E continuarás o teu percurso, arrastando o meu sucessor; não lhe falarás de mim, como nunca me falaste dos que me antecederam. Limitar-te-ás a caminhar pela praia deserta, imaginando-a deserta, indiferente ao passado, ao futuro. Muito tempo depois, dir-lhe-ás, como me disseste: esta é a minha praia; e enquanto despes as roupas: esta é a minha cama. Permanecerei sentado na rocha, incapaz de me mover, de reagir, de chorar, a sofrer, com pena de mim; e lá longe, na outra ponta da praia, vocês: a foderem.
3.
Aconteceu hoje, finalmente. E tudo decorreu como imaginei. Fiquei a olhar para o teu sorriso embaraçado, tentando compreender por que motivo te amara tanto, te amava tanto. Depois, quando já te afastavas, dei por mim a perguntar o que terias tu de tão especial, de tão único, para me seduzir tão profundamente, tão doentiamente; porquê tu? Espreitei-te, reparando que o teu vestido branco agredia violentamente este universo de cinzentos e castanhos, de cores mortas; a luz desafiando a escuridão, a morte; como se apenas tu fosses vida, apenas tu importasses. Olhei o mar com a intensidade dos desesperados, dos loucos, dos idiotas: à procura de uma resposta, de uma fuga, de uma anestesia, de uma morte. Depois, sem coragem para me continuar a martirizar, levantei-me e caminhei alguns passos, lentos e contrariados: afastando-me de ti, do passado, da minha vida. Mas parei subitamente, interrompido por um longínquo riso, voluptuoso e orgíaco, um riso de deleite, de arrogância, um riso de homem, de homem que fode. O riso dele. Não me movi, à espera; sem saber o que esperava; recordando os meus próprios risos.
4.
Foram os risos dele que me arrastaram até aqui. Agora, olho-vos sem curiosidade nem excitação, sem paixão nem inveja. Simplesmente, olho: e poderia ser eu, já fui eu, a rebolar na areia seca, sentindo o peso do teu corpo, o cheiro do teu sexo, a força da tua língua. De certo modo, olho-me. E não sei o que acontecerá. Talvez acabe por me cansar e me afaste, regresse à minha vida, à minha dor. Ou poderei acabar por fechar os olhos e masturbar-me, com fúria e desespero, ouvindo os teus gemidos, fazendo amor com os teus gemidos; poderei, também, aproximar-me, devagar, e espancar-vos com aquele pedaço de madeira que o mar arrastou até à praia, até mim; matar-vos silenciosamente, sem fúria nem ódio; arrastar-vos para este mundo sem cor nem desejo nem prazer nem riso nem vontade nem tempo em que estou aprisionado, para onde tu me empurraste, onde me abandonaste.
Ergo-me, lentamente e contrariado. Agora, sei que preciso de fazer algo, de agir; apenas assim conseguirei libertar-me do passado, de ti, de mim; libertar-me desta vida sem vida, desta morte não assumida, deste mundo suspenso; e viver: coleccionar outros momentos, aprisionar-me a um outro passado; substituir-te.
Ele ri, tu gemes: sozinhos no vosso mundo. Pego este pedaço de madeira que o mar me trouxe e penso: talvez o mar me traga a vida, mais um pedaço de vida, quando sempre pensei que poderia ser a minha fuga para a morte definitiva, o meu aliado na desistência (mas tem-me faltado a coragem). Acaricio-o, como se fosse uma parte do meu corpo, uma parte reencontrada do meu corpo. Uma parte do meu corpo que, descubro-o agora, poderá ser útil.
Aproximo-me e entro no vosso mundo; ergo o pedaço de madeira e por um momento consigo fugir do meu mundo, deste mundo onde agoniam os que já não vivem mas ainda não morreram, os que se esquecem de viver, de ir vivendo, os que desistiram de viver; o mundo dos despojados, a quem roubaram o futuro, condenando-os ao passado. Um mundo transitório onde aguardam os homens e as mulheres que foram felizes mas não voltarão a sê-lo, onde aguardam os homens e as mulheres que já nada esperam, o mundo transitório dos que não vão para lado nenhum, que não têm para onde ir.
5.
Aconchego-me na areia, sentindo-me parte dela, apenas mais um grão; e espero.

(Paulo Kellerman)

***

Em branco

1.
Aqui estou. Novamente nesta praia. Não sei o que busco, o que sinto diante do mar, do movimento infindável das ondas. Talvez alívio, talvez dor. Vim a esta praia com todos os homens que passaram pela minha vida. E foram muitos. Agora é a tua vez; sei que não serás o último. Sou apenas uma estação de passagem para os homens; ou serei eu que não me detenho em nenhum deles. Agarro a tua mão como se agarrasse um último fiapo de vida. Vida que escorre como a água do mar na areia; vida sem cor e sem luz que se tornou a minha prisão.
O vento arrepia a pele por baixo do vestido. Branco. Sempre branco, para tentar exorcizar a morte que me traga lentamente, para ter a certeza de que estou limpa do sangue que escorre de mim. O vento arranha as memórias tatuadas no corpo; percorre cada uma delas como tempestade. Sinto prazer e dor. Concentro-me na textura da areia sob os pés. Áspera.
2.
Estou contigo, mais um entre tantos iguais. Excito-me, antecipando o sexo que sei que faremos. Excitas-me com o teu silêncio atento, o teu ar inalcançável, o teu cheiro. Falo devagar, frivolidades, talvez para abafar a voracidade que me consome. A voracidade que dói no corpo e na alma, que cava um vazio em mim, que impede que me conecte a qualquer pessoa, apesar de tentar uma e outra vez; a voracidade que me persegue no inventário das memórias (inventadas?) como um bicho que corrói as entranhas. Entusiasmo-me, ao contar-te sobre esta praia, a minha praia. És como um espelho no qual vejo desfilar a mim mesma, não sei se num passado distante ou recente, não importa, ou se no presente, este hoje, agora; um espelho que me mostra o lugar onde estou, mas que é, precisamente, o lugar onde não posso estar.
Não sabes, mas carrego uma lâmina sob a pele. Fria, cortante,  protetora. Afasta-te de mim; afasta-me de ti, de todos, de mim. Sangro. E quase não sinto. Faltam-me pedaços, o que faz de mim um ser estranho, cheio de ausências; ausências que tento em vão preencher com homens, com sexo. Sou como um animal acuado que só se sente momentaneamente livre no gozo. Gosto do sexo afoito, aflito que faço nesta praia; gosto da sensação de poder ser vista quando faço sexo. A umidade do ar; o cheiro a maresia se confunde com os nossos cheiros, as nossas umidades, os nossos hálitos feitos de água e ar.
3.
De repente, vejo-o. Sabia que um dia o encontraria aqui, ele e todos os outros. Enfeitiçado e despedaçado, à minha espera, à nossa espera. Faço um jogo perigoso e excitante que um dia acabará mal, eu sei. Mas quando, com quem? E decido arriscar uma vez mais. Aperto a tua mão para enfrentar o encontro. Olho-o nos olhos e leio o seu desespero, a sua paixão doentia, a minha doença. Cumprimento-o com fómulas prontas, aparentemente distante e insensível. E ele responde com sussurros atropelados, quase inaudíveis. Percebo que não entendes, vislumbro a sombra que atravessou o teu olhar, adivinho a pergunta que te fizeste sobre a identidade do homem. Verbalizas a pergunta. E eu finjo não ouvir, finjo indiferença, disfarço a inquietação que me desestabiliza. Continuamos a caminhar; o tempo escoa, lento. Recomeço a falar; rio; um riso estranho, desconexo, que acontece dentro e fora de mim. Falas algo sobre amores e areia, términos e eternidade. Uma lenda, acho. Mas não consigo ordenar o pensamento; respondo qualquer coisa e rio. Ainda mais.
4.
Depois, o que faço é tocar-te, seduzir-te, incitar-te. Tomo a iniciativa e tu aceitas o meu convite. Beijas-me com força e eu correspondo com toques ávidos e gemidos, numa espécie de representação afetada e repetida incontáveis vezes com outros homens, nesta praia, nesta areia. Por um momento, ainda penso no encontro que acaba de acontecer. Imagino-o a sofrer, a pensar em nós, a ouvir o nosso prazer. Excito-me com este pensamento; e depois, esqueço-o. Já não sinto o desconforto do vento frio. Esfrego o meu corpo no teu; o vestido, agora, pouco esconde, e as memórias se confundem. Acaricio o teu sexo sob o tecido, provoco-te com isso; ris exaltado ou incomodado, não sei; sinto a tua boca e as tuas mãos a percorrerem o meu corpo, a tua língua a arrepiar a pele, e desconecto-me de uma parte de mim, da minha dor, de ti; sou apenas um corpo excitado. Sou.
5.
Algo corta o ar e me faz abrir os olhos no exato momento em que ele te golpeia as costas com um pedaço de madeira. Grito, desesperada, oscilando entre o ódio e o prazer, tentando entender aquilo que já sei. Vejo a agonia nos seus olhos, o pânico nos teus; a pergunta sem resposta; e já um segundo golpe desce sobre ti, agora no pescoço. Um estalo, o afrouxamento do corpo, e o tempo se detém. Finalmente, aconteceu. A morte escapou de dentro de mim e se espalhou pela areia. Amedrontada, torno a fechar os olhos, à espera.
6.
O branco não foi capaz de conter o sangue que escorre de mim e que, lentamente, vai tatuando memórias na areia. Resta o espelho partido.

(Ana Gilbert)

***

 

2 respostas para “Em branco”

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