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“Suspensa, toco o vento, pressinto o vazio do espaço, disponho a trajetória da queda livre imaginada, mas livre de quê, se tenho medo da morte… e mais ainda de viver.”

 

Fotografar palavras

Projeto | Paulo Kellerman

Texto | Ana Gilbert
Foto | Chico Vilaça

Bicho

Bicho

Dizem que à noite o bicho vem
E vem.
Abre sua larga garganta e me expulsa do sono
Faz-me rondar pela noite insone,
palpitar angústia aguda
Encharca a cama com cheiro de morte
E os meus olhos vivos
enxergam finitude
Dizem que à noite o bicho vem
E vem.
Mas
às vezes
apenas se deita ao meu lado
e chora
por ser tão bicho assim.

Palavras: Lorena Richter

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Vi medo nos teus olhos e prometi ficar contigo. Foste levada, assim, meio às pressas, com a camisola vestida, o robe a cobrir as pernas e a proteger o peito do frio. Dias frios, aqueles, mas naquela tarde, no pátio, o vento era cálido, o sol, ameno. Estavas cansada; fechaste os olhos, como a receber aquela útima brisa, aquele último raio de sol, a última vez que saías ao ar livre, e foste inclinando a cabeça, depois o corpo todo. Segurei teu rosto com a mão para te colocar de volta ereta, mas te deixaste ficar, cabeça apoiada na mão em concha, aliviando o cansaço de anos. Deixei, e assim seguimos até a ambulância.