
Olhar para ti, nem que fosse de longe, seria reconhecer-te
Sem nunca te ter conhecido
Olhar para ti, nem que fosse de longe, seria embarcar no cais certo
Na hora errada
Ana Paula Jardim

Olhar para ti, nem que fosse de longe, seria reconhecer-te
Sem nunca te ter conhecido
Olhar para ti, nem que fosse de longe, seria embarcar no cais certo
Na hora errada
Ana Paula Jardim

Os teus olhos entraram pela fresta da manhã.

Qualquer artefato é um prolongamento da vontade de fazer casa, do desejo de transformar o mundo para poder habitar.
Emanuele Coccia (Filosofia da casa, 2024)

uma palavra não é uma flor
uma flor é seu perfume e seu emblema
Geraldo Carneiro


Todas as pessoas estão num mundo, numa série de mundos.
Susan Sontag (in Contar uma história)
[obrigada, Jorge VAz Dias]


fotografias: Ana Sofia Elias

Os amantes de Lisboa passeiam de mãos dadas pelas ruas
Beijam-se contra as paredes e nas esquinas da cidade
Sofregamente
São jovens e belos com a brisa das manhãs
Soltam bandos de pequenos pardais inquietos
Que moram dentro dos seus corpos perfeitos
E debaixo das suas línguas
Enquanto se despem
A céu aberto
Têm cabelos resplandecentes e luminosos
Claros
Dedos compridos de artista que se entrelaçam
Demoradamente
Escrevem-se um no outro como uma suíte de Bach
Sem prelúdio
Têm vozes profundas que vibram como música
Gemem muito alto
Como cordas vocais
Barrocas.
Ana Paula Jardim

Saía pela manhã, logo após o nascer do sol, e caminhava pelas ruas ao acaso, sem pressa nem destino definido. Falava alto, falava sozinho. Dizia nomes. Um após outro, repetia em voz alta os nomes dos mortos. Para que as ruas não os esquecessem. Para que as ruas não os esquecessem.
…
He would go out in the morning, just after sunrise, and wander through the streets at random, unhurried, with no particular destination. He spoke aloud, spoke to himself. He uttered names. One after another, he repeated the names of the dead aloud. So that the streets would not forget them. So that the streets would not forget them.

não podemos nos descuidar.
Por vezes, o medo é maior do que tudo e estilhaça os pedaços do dia,
é a chance que tem de inventar novos desenhos.


Reencontrar a poesia nas palavras,
recuperar o brilho das palavras profanadas
e reimaginar
LULA 13 ❤️


Reencontrar a poesia nas palavras,
recolher os cacos das palavras profanadas
e reimaginar
LULA 13 ❤️


Reencontrar a poesia nas palavras,
encontrar sentido no farelo das palavras profanadas
e reimaginar
Lula 13 ❤️










A luz entra, finalmente, pelas janelas, como fagulhas nos olhos de quem quer muito dizer coisas terríveis, amargas, verdadeiras, mas tem medo do fogo. O fogo também tem medo do fogo, como não. Orienta-me aí uma Fénix, exclama-lhe o pensamento, depois de ter dito, um dia, que nada há mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas. Mas enfim, não há Fénix nem leão de Nemeia.
A nuca sabe sempre melhor, sabe mais do que os sapos que lhe nasceram nos olhos, pela manhã, quando se levantou só por milagre. Isto é sobre a luz a entrar pelas janelas mas também podia ser sobre o pecado que é desaparecer sem bandeira e, como se não bastasse, sem música de fundo.
Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)

Esta casa mais ou menos habitável
um prego entre paredes
onde existem sombras chinesas que
são ora uma escarpa
ora um amolador
-um beco sem saída.
O que eu quero dizer é que não há nada
mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas.
Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)


Estamos todos aqui
No meio do caminho dessa vida
Vinda antes de nós
Estamos todos a sós
Adriana Calcanhoto