9 anos de sutilezas…

SUTILEZAS DO OLHAR | 9

Nove anos do blog.
Por vezes, pergunto-me se um blog ainda faz sentido. Nesses momentos, é como se fosse apenas uma voz perdida no vazio de um tempo de excessos que me é estranho. Contudo, a resposta que encontro dentro de mim ainda é um sim.

Um sim ao tempo lento da contemplação que parece tão obsoleta. Sim ao amor pelas palavras e pelas imagens. Pelas palavras-imagens. Um sim às pessoas; à crença inabalável de que é e será sempre a relação que nos sustentará a humanidade.

Obrigada às pessoas que por aqui passam e deixam um tanto de si: olhares, comentários, curtidas, silêncios, respiração. Humanidade. Sem vocês, seria mais difícil.

“ Um corpo que não é visto desaparece?”
Georges Didi-Huberman

…..

Nine years of the blog.
Sometimes, I wonder whether a blog still makes sense. In those moments, it feels as though it were merely a voice lost in the void of an age of excesses that feels foreign to me. Yet the answer I find within myself is still yes.

Yes to the slow pace of contemplation, which seems so obsolete. Yes to a love of words and images. Of word-images. Yes to people; to the unshakable belief that it is, and always will be, human connection that sustains our humanity.

Thank you to those who pass through here and leave a little of themselves behind: their gaze, their comments, their likes, their silences, their breath. Humanity. Without you, it would be harder.

Does a body that is not seen disappear?
Georges Didi-Huberman

multiplicidade

As fotografias de uma vida são um tempo segmentado em várias pessoas ou é a mesma pessoa segmentada em vários tempos?

Are the photographs of a life time segmented into many people, or the same person segmented across many moments in time? [my translation]

Antonio Tabucchi (Para Isabel: uma mandala)

Quinta-feira

Quinta-feira é um dia transparente como asa de inseto na luz.

Clarice Lispector (Água viva)

Vem à quinta-feira.

Filipa Leal

XII

I wake up and wonder
How many times I have already kissed you.

It is the first thought of the day,
And I dedicate myself to it for a few minutes.

I count kisses.

And you lay by my side.
I could kiss you,
But I do not do it because I prefer to keep thinking
About kissing you.

And this says so much about me.

Poem by Paulo Kellerman

FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5559

Hoje, no FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5559, a parceria no texto é com a Vera Fernandes

O processo de criar para o projeto é sempre prazeroso. Receber o texto anônimo, ler nas entrelinhas o estilo da autora (ou autor). Adivinhar-lhe o gesto da escrita. E deixar a imaginação solta para que as imagens surjam, num primeiro momento, aleatórias. E, lentamente, acompanhá-las a ganhar forma, a pedir materialização. Até que uma (por vezes, mais de uma) se coagule em fotografia. Por fim, a publicação, quando as artistas se encontram na sintonia de suas criações.

Fotografar Palavras, 10 anos de publicações diárias, 10 anos a produzir essa magia, graças ao querido Paulo Kellerman, que tanto entende de encontros bonitos.

Fui só mais uma playlist — tocada, guardada e riscada.
Adicionada à tua biblioteca: de prazeres juvenis.
Carentes de autocontrolo.
Indisciplinados, pouco razoáveis.
E no calor do momento — tudo foi eterno.
Até ser só mais uma obra inacabada!
E se tudo, de repente, fosse apenas uma nota (des)afinada?
Abençoada queda — fora de tom.

I was just another playlist — played, shelved, and scratched.
Filed into your library: of youthful pleasures.
Starved of self-restraint.
Undisciplined, scarcely reasonable.
And in the heat of the moment — everything was eternal.
Until it was just another unfinished piece!
And what if everything, suddenly, were nothing but an (un)tuned note?
A blessed fall — out of key.

Texto | Text: Vera Fernandes
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Dançar

Pensei que dançar era sonhar com as mãos
Entre os dedos
Com lágrimas, suor e sangue
Mas dançar é morrer e renascer, é morrer e renascer, é morrer e renascer
É a cada embate levantar-se do chão e voltar a dançar
A cada embate levantar-se do chão e voltar a dançar
As mãos esse tentáculo sensitivo que não nos deixam afogar
Tantos os que nos querem afogados, cancelados
Os medíocres
Mas acabamos sempre por vir à tona
Em espirais dançantes
Eternas, de eterno retorno, de eternidade
E enquanto dançamos, alargamos os horizontes daqueles que se deixam transportar e sonhar
E irritamos e entristecemos as almas daqueles que já morreram
Mas nada nem ninguém nos retira a liberdade de dançar uma e outra vez sempre e até sempre
Por isso a dança é um ofício da Eternidade
Viva, Poderosa, Orgânica e Mágica
Dessa eternidade que nos livra
Da intolerável opressão do sucessivo
Do mesquinho
A dança é uma ave que quando privada de liberdade
Prefere Morrer
Mas hoje e sempre continuaremos a dançar em espirais
Voo astrais
Serpentes emplumadas
Polvos telúricos
Ouroboros
E entre seres mágicos
Como os bailarinos e (com) todos aqueles que dizem sempre que sim a este sonho de Dançar, com D de gente com Dádiva, com as mãos bem abertas e de olhos fechados para o abismo de uma eternidade esplendorosa

Joana von Mayer Trindade (Dançar com D de Gente com Dádiva, in Onde Está O Relâmpago Que Vos Lamberá As Vossas Labaredas, de Hugo Calhim Cristóvão & Joana von Mayer Trindade – Nuisis ZoBoP)