Catarse galáctica

Abeirou-se de mim e chorou. Era um homem. Olhou nos olhos, em silêncio, explodiu em catarse galáctica. Os carros pararam. Os semáforos enlouqueceram e as máquinas, essas, invadiram a mente humana e passaram a definir os nossos movimentos. Passámos a beber combustível e a defecar dióxido de carbono. O sorriso passou a um conjunto de luzes intermitentes, substituindo o vulgo lábio. Passámos a pesar menos. Emagrecemos as emoções e o ritmo. O ritmo também se emagrece. Passou a ser vestigial. Os ouvidos deram lugar a microfones que, de hora a hora, debitavam ordens de comando em busca do uníssono. O uníssono das máquinas. As mãos passaram a ser impressoras, imprimindo a cada cinco minutos o desempenho de cada um. O nariz rebelou-se e foi imediatamente fechado. O conceito de flor desapareceu. E o homem, esse, parou de chorar.

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

Fotografar palavras #2704

Não há abraço que me doa mais do que o silencioso que me amordaça as palavras. Um vilão obscuro das minhas noites. Conheci-o em tempos. Apaixonou-se por mim. Mas eu não correspondo. Visita-me de noite. Peço que não o faça. Ele resiste. Tem um pacto com a noite. A noite tem um preço. O preço de a dormir sem a sentir. Não o consigo pagar. A dívida acumula-se. A minha incapacidade de saldar a dívida tem sido a maior declaração de amor daquele abraço. O abraço silencioso que me amordaça as palavras.

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

Fotografar palavras #2633

“14 dias a conta gotas. Cada dia é uma gota. 24 horas a cair e a desaparecer. Gosto de fingir que não entendo a sua finitude, a sua não importância, explicando-a desta forma: 24 horas a cair e a desaparecer. Afinal, o que é uma gota num oceano? É um oceano mais uma gota. Simples.

Lá fora, o frio e as feridas em sangue, em patas que já não suportam o peso. Amor sem retorno que já não se queixa de dor. Cá dentro, a lareira, dois gatos e a falsa sensação de calor. Do outro lado da rua, a insegurança. O tempo em modo decrescente. Fora dos limites geográficos do meu ninho, a ideia vaga de um oxigénio rarefeito em bolha de marfim. Impossível de respirar. O marfim é uma pedra. A pedra não tem pulmões. Nem cérebro. Nem coração. Tem apenas um corpo frio e duro. Um corpo sem pulmões não mexe. Move-se apenas com a ação conjugada de forças, mas não dança.

24 horas a cair e a desaparecer. Os meus dias em forma de gota. A ideia bonita dos dias transformados num imenso azul. É nisso que me detenho enquanto violento as insónias, quase diárias. Talvez assim custe menos ignorar a trágica ideia da gravidade. Recordo a ironia da maçã na vida de Newton. Poderia ter sido uma laranja, mas não foi. Uma melancia certamente seria uma falácia científica. Não levaria a lado nenhum. As melancias crescem na terra. As abóboras também. Ambas flores de uma terra que engole e deglute, mais tarde, corpos que não são pedras. Muito menos pedras de marfim. Essas ficam inalteráveis. Corpos quentes e moles. Corpos providos de pulmões que respiram. Uma idiossincrasia humana, enquanto a sorte o ditar. Questiono-me se os pensamentos também podem cair e desaparecer. A Elis Regina e o Nick Cave no gira-discos e um estômago alérgico a noticiários, dizem-me que sim.”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

Fotografar palavras #2564

“A minha casa existe em partes de luz e sombra, de ausência e dor. Existe à beira do mundo, das coisas, assim, em pedaços. Como uma flecha que se divide ao ser lançada ao espaço, num gesto autônomo que acontece por si.
Escrevo em busca da casa inteira, das imagens que levantarão as paredes, que completarão a costura, que anteciparão a quebra.”
 
 
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Ana Gilbert
Foto | Francisco Válga

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(obrigada, Francisco, por aceitares o desafio. Obrigada, Paulo, pela acolhida)

reverberação

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reverberação

Ao escutar o som amplificado do violino, a primeira reação é de contrariedade: a melancolia do instrumento é corrompida pelo amplificador barato. Irritada, volto ao café, quero aproveitar os últimos minutos antes de começar o dia de trabalho; porém, é mais forte do que eu e me pego a imaginar que o som já terá chegado à sala (reverbera dentro de mim) e que me distrairá das histórias, das pessoas (não quero que se aninhe em algum canto escondido). Um vidro e uma parede me separam (protegem?) da cena. Folheio o livro sem foco, percorro as telas do celular sem interesse, a passar por caricaturas que são vidas, a escoar a minha própria vida. Sinto incômodo. Olho de relance e só agora noto a presença da partitura, o pé a marcar o compasso do texto. A vida entra em modo pause. Espicho o pescoço. Pela primeira vez busco ver o músico e descubro que são dois rapazes a tocar; a mala aberta no piso coberta com o pano cor de vida para receber os trocados que nem sei se dão para alguma coisa.
Tento ler seus olhos: estão lacrados, ou talvez, apenas concentrados naquelas pequenas marcas negras sobre o fundo branco. Partitura. Partido. Partes. Imagino-lhes a vida: estudantes de música, quase com certeza. Devem ser de outra cidade e vieram cursar a faculdade; alugam um quarto numa casa antiga com outros estudantes iguais a eles. Ou quase. O arco desliza, em câmera lenta; vez por outra, sons de buzinas estilhaçam o ar, impacientes. Uma criança de uns três anos se aproxima com uma nota. Quer entregá-la na mão de um dos músicos (a relação se faz de mãos que pedem e nem sempre recebem? que doam e nem sempre são acolhidas?); ainda não percebe as diagonais, as perpendiculares, os trajetos dos desencontros. A mãe indica a mala e ela deposita feliz aquilo que ainda não entende. O livro esquecido, o celular na bolsa, presto atenção à música, um Vivaldi mal executado, um inverno neste verão escaldante e empoeirado, mas que de súbito toca alguma corda em mim e provoca uma ternura por esses seres anônimos, perdidos numa cidade abandonada, a tentar espalhar alguns sorrisos distorcidos pela tecnologia, a tentar ganhar algum dinheiro distorcido pela caridade. E eu olho, penso se tenho dinheiro trocado (deveria dar alguma coisa em retribuição ao que eles provocaram em mim?). Olho as árvores em volta, a rua movimentada, os motores rasgando o asfalto, o estado de sobrevivência, e penso se estou a viver, de verdade. A tecla pause é desligada e a vida continua seu movimento autônomo. A ternura escorre, a comunhão durou pouco; também eu sou feita de desencontros. Uma pergunta grita dentro de mim: o que não fizeste por nós?

Texto e fotos | Ana Gilbert

Diálogos narrativos

Colaboração com Paulo Kellerman

“E então senti uma dor tão visceral, tão imensa, tão desconcertante, que a única coisa que consegui fazer para lhe fugir foi esmurrar o meu reflexo no espelho, uma e outra vez, com ambas as mãos, com toda a força que possuía, tentando desesperadamente que a dor física suplantasse por um segundo (bastaria um segundo) a outra dor que se apoderara de mim, tentando desesperadamente que a dor física me distraísse da dor da perda e da impotência, da dor do desespero, da dor do ódio. Fui esmurrando o meu reflexo no espelho, fui esmurrando-me.”

Almas Desligadas | com Paulo Kellerman

Abissal

Sofrimento da água

“… a morte da água é mais sonhadora que a morte da terra: o sofrimento da água é infinito.”

Palavras | Gaston Bachelard (As águas e os sonhos)

Soluços entrecortados chegam aos meus ouvidos, cansados, do esforço de tentar entender entre sussurros as perguntas para as minhas respostas.

Unhas

“Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem.”

Texto: Clarice Lispector (A legião estrangeira, Os desastres de Sofia)