Vazio

“e as palavras que ninguém quis
silenciaram a festa do meu corpo”

(Alice Vieira)

Paraty em Foco 2021

Foto: Pegadas

PARATY EM FOCO – Festival Internacional de Fotografia, edição 2021.

É sempre uma honra e uma enorme satisfação ter uma foto minha entre as 30 selecionadas para a mostra de autorretratos, SELFIE EM FOCO.

De 27 a 31 de outubro de 2021 | Paraty, Rio de Janeiro, Brasil

Mãos secas

Fotografar palavras #3057

E assim, de repente, apercebeu-se de que não era só o seu coração que estava seco, mas também a sua voz e as suas mãos.
Pelas palavras que não mais foram ditas e as letras que, presas nas suas mãos imóveis, se refugiaram na timidez de quem nada sente.

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Maria João Faísca
Fotos | Ana Gilbert

Conversas Literárias: Clarice Lispector | Água Viva

O evento CONVERSAS LITERÁRIAS: CLARICE LISPECTOR | Água Viva – desdobramentos aconteceu hoje, 01 de outubro de 2021, com a participação de Sigrid Haikel, Maria Lúcia Lorêdo Jorge, Aurea C. Torres e eu.

Conversas Literárias é o núcleo de literatura do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro (IJRJ /AJB), e o evento aconteceu no âmbito das CONVERSAS JUNGUIANAS.

A renda do evento será revertida para a Casa das Palmeiras – Nise da Silveira.

O vídeo e o texto abaixo são a minha contribuição para o evento.

Comecei a participar do grupo Conversas Literárias há pouco tempo. Quando entrei, o livro Água Viva, de Clarice Lispector, avançava para o seu final. Porém, ele já reverberava dentro mim: vinha fotografando suas frases, usando, por vezes, a vertente do autorretrato como forma de expressão. Assim, quando surgiu a ideia de apresentarmos os nossos desdobramentos do livro, compreendi que só poderia trazer a vivência da leitura através destas imagens-palavras.

Falar de Água Viva é falar do entrelaçamento entre palavra e imagem, relação essa que me é tão cara como terapeuta e artista. Em um texto que escapa à definição de romance, no sentido de uma história mais estruturada, com personagens e ações mais claramente delimitadas, Clarice dá vazão a um fluxo de consciência de extrema beleza e profundidade. Convida-nos ao mergulho e avisa-nos dos perigos. O perigo das palavras e suas sombras. Da tensão que existe entre as palavras e as imagens que delas emanam. O fascínio exercido por essa zona limítrofe, a superfície da água, que demarca a fronteira entre a vigília e o sono, entre as instâncias da psique (consciência e inconsciente).

E nós aceitamos o convite. Sabedoras do que nos espera. Nunca preparadas. Acompanhamos a personagem/narradora, um eu feminino, que escreve a um tu masculino, um tu que é também cada uma de nós, leitoras. Percorremos trilhas de qualidade aquática, fragmentadas e poéticas, marcadas pelo tempo lento da alternância entre movimento e quietude. Experimentamos, em nós, o assombro do instante-já de que fala a narradora, a vivência de algo que escapa à racionalidade e se manifesta como fluxo. Experienciamos a relação com o espaço que nos circunda. Um espaço que é, ao mesmo tempo, externo e interno. Cheio e vazio. Um espaço que se descortina estranho e ampliado quando vislumbrado na superfície refletora da água ou do espelho. Múltiplos espelhos, múltiplas imagens: de nós e do mundo que habitamos e que nos habita. Instantes-já da relação eu-tu, coagulados como fotografias. Cenas e, com elas, a profundidade das palavras que nos leva ao seu outro lado: à sua sombra, ao seu avesso. À realidade enviesada. Da água morna e convidativa à queimadura dolorosa da água-viva.

Contudo, ela, a personagem (e a própria Clarice, talvez), precisa respirar; a intensidade pode ser demasiadamente cansativa e é preciso repousar. Deste modo, a experiência pura desse fluxo de vida oferece-nos, a cada tanto, uma pausa, um olhar para o que há de mais banal no cotidiano, uma respiração mais longa, um relaxar de músculos que nos prepara para o mergulho seguinte. Para o milagre seguinte. Para o que há “detrás do pensamento”.

A personagem/narradora é pintora e quer escrever como pinta: com o corpo todo. Quer escrever com as palavras que estão justamente aí, atrás do pensamento, como quem fotografa o instante, instante esse que é como o silêncio que está no silêncio das coisas e não pode ser ouvido, a não ser com o corpo inteiro; como uma realidade que se cria a partir da escuridão e do sonho. A partir da imaginação.

É assim que li Água Viva, com o corpo todo. E da imaginação surgiram pinturas. Pinturas feitas com luz. Fotografias. Água, ar, planta, corpo. A alternância entre a sensação de dissolução que o texto, por vezes, suscita e a aventura arriscada de fixar a delicadeza do encontro eu-outro, eu-mundo.

O que vai ser apresentado a seguir é um vídeo feito com estas imagens-palavras; uma tentativa de capturar o incapturável: a respiração que rege a ordem do mundo, do meu mundo. O ritmo da pulsação. A liberdade de vida e morte. O seu mistério. Efemeridade e eternidade em mim.

Conversas Literárias

Conversa sobre o livro Água Viva de Clarice Lispector

O evento contará com a participação das integrantes do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro (IJRJ):

Sigrid Haikel, Maria Lúcia Lorêdo, Áurea Torres e Ana Gilbert

Dia 01 de Outubro de 2021| Sexta-feira, de 14h às 16h.

Valor simbólico de R$ 25,00 que será revertido para Casas das Palmeiras – Nise da Silveira

Informações e inscrições aqui ou no site do IJRJ

O último voo

Tenho os olhos fechados, mas sou capaz de ver (ou imaginar?) as minhas velhas asas, as saliências por onde brotam nas costas. Ainda lembro o misto de espanto e tristeza quando descobri esses pequenos brotos em mim e percebi a condenação.

Excerto do meu conto, O último voo (Selo Off Flip, 2021)

Fotografar palavras #2980

“Soprando rajadas fortes e intensas de pensamentos. Ofuscando o olhar com belezas imensas, pré concebidas, um tanto excêntricas, incapacitando a audição com demasiado ruídos ensurdecedores, parei no tempo. Incapacitei-me à vida, sem viver. Reescrevi uma história sem saber escrever, enumerei os dias longos, as manhãs mais compridas e todas as tardes de pôr do sol, sem saber contar. Dialoguei com estranhos, sem vez alguma ter conhecido a linguagem deles. E como se no vazio eu tivesse estado, simplesmente adormecida, um sopro de pensamento mudou de novo o meu rumo, o rumo da minha mente.”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Joana Gonçalves
Foto | Ana Gilbert

Sobrevivo, mas é insensatez.”

Lya Luft (O lado fatal, Siciliano, 1991)

Doem-me as asas

“As asas doíam-lhe, como se tivessem sido enterradas à força na carne. Eram vermelho-fogo. Lindas e brilhantes. Verdadeiras. Só a verdade dói.” (Mónia Camacho)

DOEM-ME AS ASAS

Uma das qualidades que me encanta na escrita da Mónia Camacho é a sua capacidade de criar ‘espaços’ entre as palavras que se percebem de forma sutil, indiciária. Esses espaços se abrem ao leitor e permitem que ele se espalhe; que os explore e percorra, criando suas próprias paisagens, vislumbrando outros mundos possíveis. E no romance Doem-me as Asas não é diferente: esta qualidade está presente de forma marcante, em especial nas frases curtas que a Mónia tão bem cria e faz uso. Frases que dizem muito mais do que se pode ler nas palavras impressas.

Ao avançar na leitura do romance, vou aos poucos registrando diferentes camadas que guiam o meu olhar. Camadas que se entrelaçam, sobrepõem ou seguem paralelas. Uma primeira camada é a do enredo propriamente dito, e que me leva a mergulhar na história que carrega um tom de ficção científica, ou de fantástico. Mas, principalmente, uma história que fala do sentir humano e que vai além dos rótulos.

Em simultâneo, percebo uma segunda camada que traz uma angústia subliminar porque toca de forma incisiva no que me parece ser um ‘futuro atual’. Apesar do texto ter sido escrito muito antes da pandemia do novo coronavírus e se referir a um futuro impreciso, ele traduz percepções que me ocorrem diante do nosso cenário hoje: término de um mundo conhecido, esgotamento de um excesso de racionalidade que se conecta à perda de certos valores humanos, relação íntima entre capitalismo, desastre ambiental e produção de ideias e imagens demasiado contundentes, tais como refugiado, imunidade, cisão do mundo.

Diante dessas reflexões sobre a nossa existência, deparo-me com a terceira camada: a de uma viagem interna em que a personagem feminina, Glória, vai em busca de conexão, de (re)encontro consigo mesma, guiada por uma imagem produzida por uma instância autônoma, fora da sua consciência. E é essa busca por compreender a imagem que a torna uma presença fundamental na (re)construção de uma outra forma de mundo, ou de consciência.

Há, ainda, uma quarta camada, a camada das referências (afetivas, talvez) não apenas literárias, mas artísticas de modo geral. Como pequenas marcações que me guiam no percurso da leitura e que trazem questionamentos sobre a arte e a escrita, sobre o papel e a importância da imaginação e da criatividade como sustentáculos da vida psíquica.

Os textos da Mónia traduzem a sua curiosidade pelo humano. O romance avança pela trajetória da nossa condição de seres individuais e coletivos e da responsabilidade pela forma como nos relacionamos com a alteridade; desdobra os desejos de luz e sombra, de vida e morte que nos habitam. Lembra-nos de que somos feitos de matéria opaca e transcendência. De efemeridade e eternidade.

Uma publicação Minimalista

[intervenção em fotografia]

Ferida

É provável que te sintas ferida, mas é nessa ferida que entra a luz”.

Excerto de ÁGUA COM AÇÚCAR, romance de Ana Miguel Socorro

Uma publicação Minimalista