O merecimento é um limoeiro

A luz entra, finalmente, pelas janelas, como fagulhas nos olhos de quem quer muito dizer coisas terríveis, amargas, verdadeiras, mas tem medo do fogo. O fogo também tem medo do fogo, como não. Orienta-me aí uma Fénix, exclama-lhe o pensamento, depois de ter dito, um dia, que nada há mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas. Mas enfim, não há Fénix nem leão de Nemeia.

A nuca sabe sempre melhor, sabe mais do que os sapos que lhe nasceram nos olhos, pela manhã, quando se levantou só por milagre. Isto é sobre a luz a entrar pelas janelas mas também podia ser sobre o pecado que é desaparecer sem bandeira e, como se não bastasse, sem música de fundo.

Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)

Elementar

Esta casa mais ou menos habitável
um prego entre paredes
onde existem sombras chinesas que
são ora uma escarpa
ora um amolador

-um beco sem saída.

    O que eu quero dizer é que não há nada
    mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas.

    Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)

    Ainda sobre Pele Adentro

    Foi a partir de uma perda que a poesia ganhou outro lugar na vida de Jorge Dias.

    O encontro com um dos últimos poemas manuscritos da mãe, escrito quando a doença já lhe limitava os movimentos, levou-o a olhar de outra forma para as palavras e para a possibilidade de estas sobreviverem a quem as escreve. É dessa relação com a poesia, mas também com a intimidade, o desejo, a memória e a efemeridade, que nasce Pele Adentro, o primeiro livro de Jorge Dias enquanto Livre no Vento das Palavras, projecto que tem vindo a desenvolver no Instagram.

    A obra, de edição limitada e numerada, é apresentada sexta-feira, 2 de Outubro, às 18 horas, na Livraria Arquivo, em Leiria, num encontro que contará também com Paulo Kellerman e Read The Cat [Cátia Ribeiro].

    Os poemas não foram escritos com a intenção inicial de formar um livro. Foram surgindo ao longo do tempo, num processo que o autor descreve como “um fenómeno do acaso, previsto pelas estrelas”.

    Alguns já existiam, outros nasceram em diálogo com o trabalho fotográfico de Ana Gilbert. Só mais tarde se percebeu que havia ali uma identidade comum.

    Entrar “pele adentro”, explica Jorge Dias, é entrar no próprio desejo. “Espelha a intimidade, a cumplicidade e a complexidade das emoções”, afirma, esclarecendo que o “adentro” não se reduz ao corpo. É uma procura de algo mais profundo “iunto à alma (se ela existe)”.

    A morte da mãe foi determinante nesse caminho. O poema que encontrou, escrito apesar das limitações físicas provocadas pela doença, fez cair a distância que mantinha em relação à poesia. “Essa experiência rasgou qualquer vergonha que eu teria da poesia ou distância que tinha dela como poeta”, conta. “A vida passou a fazer mais sentido para mim, com poesia.”

    É também nessa ideia de permanência através da palavra que Pele Adentro encontra uma das suas linhas fundamentais. Escrever pode ser uma forma de fazer sobreviver uma voz e uma memória. “Não conheço maior milagre na nossa existência”, diz o autor.

    Ana Gilbert: o diálogo entre palavras e imagens

    Se a poesia é o ponto de partida, a fotografia de Ana Gilbert não surge como simples ilustração. As duas linguagens encontram-se, dialogam e, por vezes, afastam-se deliberadamente da leitura mais óbvia dos poemas.

    A fotógrafa, brasileira, já acompanhava o trabalho de Jorge antes de os dois se conhecerem pessoalmente. A corporeidade e a presença recorrente da intimidade nos seus poemas, os encontros e desencontros, as descobertas e a intensidade das relações, despertaram-lhe a atenção.

    A colaboração começou antes de existir a ideia de um livro. Ana fotografou alguns poemas de Jorge e, noutras ocasiões, foi o poeta quem escreveu a partir das suas imagens. Dessa afinidade entre texto e fotografia nasceu primeiro uma amizade e, depois, o desafio de construir Pele Adentro.

    O processo não procurou uma correspondência literal entre palavra e imagem. “Texto e imagem são substâncias diferentes que não se amalgamam” explica Ana. A intenção foi criar narrativas fotográficas que dialogassem com os poemas e os abrissem a outras leituras.

    Por isso, alguns textos mais explícitos encontram fotografias quase abstractas.

    Na construção do livro, poemas e imagens foram seleccionados e reorganizados até encontrarem um ritmo próprio. Ana recorreu a pequenos rectângulos de papel para experimentar diferentes combinações, até perceber uma narrativa: encontro, aproximação, sedução, realização, afastamento e a promessa de voltar a acontecer.

    O resultado é também uma tentativa de retirar a poesia da volatilidade das redes sociais e transformá-la num objecto para tocar, cheirar e guardar. Para Ana, o livro físico permite uma experiência sensorial e uma “suspensão do tempo” que contrasta com a rapidez do universo digital. Entre páginas, fotografias e poemas, Pele Adentro aproxima assim a efemeridade da vida da possibilidade de permanecer. “No livro físico, convivem efemeridade e eternidade”, resume a fotógrafa.

    No Jornal de Leiria, no dia 01 de outubro de 2026.

    Texto: Paula Lagoa | Fotografia: Ricardo Graça

    Seguir

    É preciso continuar, é preciso não se dissolver na tristeza, é preciso não esquecer a beleza.
    Não esquecer.
    Nāo.

    FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5748

    Hoje, no FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5748, a bonita parceria com a Goreti Cabecinhas.

    Hoje não queria abrir os olhos com medo de te perder outra vez… mas tu ficaste. E ficas. Ficas sempre em cada instante entre o sono e o dia, entre o teu coração e o meu, onde a saudade encontra forma, aconchego e colo.

    …

    Today I didn’t want to open my eyes afraid I might lose you once again… but you stayed. And you stay. You always stay in every moment between sleep and day, between your heart and mine, where longing finds form, warmth and shelter.

    Texto | Text: Goreti Cabecinhas
    Fotografia | Photography: Ana Gilbert

    FOTOGRAFAR PALAVRAS, nosso projeto lindo, criado e coordenado pelo amigo Paulo Kellerman, sempre a desafiar-nos, sempre a juntar pessoas e belezas.

    E as nossas exposições continuam até novembro, no m|i|mo, em Leiria, Portugal.
    Visitem!

    Autorretratos


    The practice of self-portraiture does not seek to answer the question ‘who am I?’, but rather to prevent it from ever having a definitive answer.

    A prática do autorretrato não busca responder à pergunta ‘quem sou eu?’, mas impedir que ela tenha uma resposta definitiva.

    rio

    um rio esvai-se
    ao fogo do gesto
    que inflamo

    Mia Couto [poemas escolhidos]

    PELE ADENTRO

    PELE ADENTRO

    Fotografias: Ana Gilbert
    Poemas: Jorge VAz Dias

    Apresentação: 2 de outubro, 18h, na Arquivo livraria, Leiria, Portugal

    Convidados especiais:
    Paulo Kellerman
    Cátia Ribeiro

    Design gráfico Licinio Florêncio
    Impressão: Arte Ampliada
    Encadernação artesanal: Eliana Yukawa e Yume Ateliê

    edição limitada e numerada
    encomendas (Brasil e Portugal): DM

    pedi que viesses esperei que viesses
    mas a alegria que inventei era só um
    modo de ir embora

    Valter Hugo Mãe (publicação da mortalidade)

    Demora

    Espero-te antes de haver vida
    e és tu quem faz nascer os dias.

    Quando chegas
    já não sou senão saudade
    e as flores
    tombam-me dos braços
    para dar cor ao chão em que te ergues.

    Mia Couto [poemas escolhidos]