Red alert

“… and the situation starts to escalate…
… as bilateral tensions now exacerbate…
… diplomatic ties were broken off tonight…
… red alert proclaimed this morning nationwide…”

(In Between | Sylvan)

o último voo

Experimento abrir as asas, lentamente. A esquerda, em especial, a mais machucada das duas. Estico-a com cuidado, visualizo cada articulação, testo uma a uma. Repito o movimento e descubro: está inteira. Pensava-a morta ou agonizante. Percorro os dedos por toda a sua extensão: sinto dor em alguns pontos e a umidade espessa de sangue. A asa direita parece não requerer maiores cuidados; sinto-a mais leve, apesar de uma pulsação atordoada.

Tenho os olhos fechados, mas sou capaz de ver (ou imaginar?) as minhas velhas asas, as saliências por onde brotam nas costas. Ainda lembro o misto de espanto e tristeza quando descobri esses pequenos brotos em mim e percebi a condenação. O corpo, sinto-o inerte, exausto. A mente, em desalinho; sentimentos confusos que são como agulhas finas e longas provocam pequenos choques que estremecem as asas. Constato o fluir incessante da vida que grita dentro de mim. Não sei bem como cheguei até aqui depois do confronto. Um repouso no meio do nada que é a noite; o vazio que suspende a saudade. Entreabro os olhos e vejo a luz que desponta no horizonte. Fere. E com a visão, tomo consciência da sensação de desconforto do rosto contra a rocha ainda fria do hálito da madrugada. Estou só e a pele escassamente coberta deixa penetrar o frio por veias e artérias.

O canto agudo de um albatroz solitário, esse irmão de alma, transpassa o coração como uma flecha; chama-me de volta ao tempo, fala-me do meu destino. Viro-me com cuidado, tentando proteger os pulsos fragilizados. Com esforço, consigo sentar e encaro a vastidão do mar que se torna céu em algum ponto além. Rastejo até a beirada e vislumbro o abismo, bem perto de mim. É preciso continuar o voo; sei que não posso descansar por muito tempo. Levanto-me, abro as asas por completo. Ensaio movimentos. Ergo a cabeça, fecho os olhos; inspiro e expiro umas quantas vezes até ter a certeza de que os pulmões ainda sabem como respirar. E num ímpeto, lanço-me ao espaço, na explosão do grito, na vertigem do novo dia, sem saber ao certo se conseguirei sustentar-me.

Texto e foto | Ana Gilbert

Fotografar palavras #1823

“Fim

“No dia que fecharem
os teus olhos,
virão os amigos
as palavras doces

a escuridão
terra fria

No dia que fecharem
os teus olhos,
choros inundarão rios
fogos te consomem

teus
sonhos se extinguem

os olhos são vida
e morre a vida
no dia que fecharem
os teus olhos.”

Texto | Jorge Gomes Pereira
Foto | Ana Gilbert

Diálogos narrativos

Colaboração com Paulo Kellerman

“E então senti uma dor tão visceral, tão imensa, tão desconcertante, que a única coisa que consegui fazer para lhe fugir foi esmurrar o meu reflexo no espelho, uma e outra vez, com ambas as mãos, com toda a força que possuía, tentando desesperadamente que a dor física suplantasse por um segundo (bastaria um segundo) a outra dor que se apoderara de mim, tentando desesperadamente que a dor física me distraísse da dor da perda e da impotência, da dor do desespero, da dor do ódio. Fui esmurrando o meu reflexo no espelho, fui esmurrando-me.”

Almas Desligadas | com Paulo Kellerman

Entressonho

Texto Ana Gilbert

Acordo. Sem vontade. Quero apenas ficar na cama um pouco mais. Não sei o que pensar, não consigo pensar, não quero pensar. Quero apenas dormir. Quero tanto. Mas algo em mim não deixa que me entregue à fuga do esquecimento. Senso de obrigação? Ou um resto de força? Espio devagarinho para fora de mim. Tento, pelo menos. Espreguiço-me, um espreguiçar mecânico, sem prazer. Continuo do lado de dentro. Levanto. Não sei qual roupa vestir para trabalhar e isso torna-se paralisante. Fico a olhar as roupas, à espera, talvez, de que uma se ofereça para que a vista. Mas, claro, isso não acontece. Fico durante um tempo a olhar o vazio. Não tenho fome, talvez uma ponta de enjoo; desânimo é o que tenho e me entrego a ele. O mundo gira na velocidade do meu desânimo: lento, os sons distorcidos por uma rotação alterada. Eterna. Afinal, termino de vestir a roupa que mecanicamente apanhei no armário e agora já não há tempo para mais. Ignoro o espelho: desisto de conferir as olheiras que sei que tenho, o vazio do olhar, a pergunta; não quero ver a roupa um pouco amarfanhada, falta-me paciência para esses pequenos detalhes. Ou cuidados comigo. É tarde e saio apressada, tentando me ajustar à velocidade do mundo.

Ao chegar à rua, caminho entressonhada, num recitar melancólico de tarefas a cumprir. Ao virar a esquina, o impacto da brisa do mar, fria, sobre a pele, quente, traz contra a minha vontade lembranças de outros tempos adormecidos, quem sabe soterrados, onde tudo era possível, ali, junto a outro mar. Mar da infância, mar de dentro, mar das minhas histórias. O tempo linear congela; movo-me no tempo abissal dos afetos.

Encontro-me novamente junto àquele mar, distante, quando ainda podia sonhar e fazer planos. O cheiro de maresia invade as narinas; sinto o gosto de sol, o sal a queimar-me a pele jovem, ainda infantil. Paro de lutar contra as lembranças e entrego-me às sensações familiares. Mas logo o roçar do tecido torna-se insuportável, lançando-me de volta à realidade escaldante deste dia de verão. Contudo, as cicatrizes do corpo haviam sido tocadas, despertando o incômodo da alma e o que há muito decidi esquecer. Afundo novamente; é mais forte do que eu.

Como foi que aconteceu? Não consigo lembrar com clareza. Por mais que revire as lembranças, não consigo juntá-las, não consigo sentir. Um toque, um sussurro, uma sombra. Uma ameaça. Um hálito conhecido, um rasgar de tecido, uma dor. Depois, ninguém. Apenas a minha mão a sentir a textura dos grãos de areia, a imaginar-lhes a cor; e os meus olhos, fechados, a encherem-se de vermelho. Imagens enevoadas, dispersas, fantasmagóricas. Quanto mais penso nisso, mais embaçados e confusos ficam meus contornos. A clareza esvai-se em solidão e sinto-me afundar em areia movediça.

Tento me agarrar a algo para não ser tragada: penso em fragmentos de cartas, pedaços de ilusão, cheiros de amores antigos, mortes envoltas em delicados papéis de seda azul, guardadas a sete chaves em pequenos baús. Inútil. A única coisa que me sustentaria seria um fio, esse fio que se rompeu naquele preciso momento, tornando-me dura, distante, determinada a esquecer o inominável.

Recolhi-me, anestesiei-me, armei-me; há muito deixei de ser inteira. Não permito que ninguém me penetre; ou me saiba. Perdi o rumo; perdi-me. Não consigo desistir de vez. Resta seguir.

Afundada nesse estupor, percebo que cheguei ao trabalho. Com um resto de vida.

***

Texto e foto| Ana Gilbert

varanda

“Não havia pedaço da velha varanda fora do lugar. O musgo bebia as manhãs. Em frente à grade férrea, a pedra segurava o vento. As portas esverdeavam. Atrás delas, Maria respirava.
Abaixo o degrau rochoso coberto pelo tempo, uma erva daninha tomava posse. Crescia, crescia como se tivesse nascido apenas para isso. Cada dia uma nova folha, um caminho a se abrir no meio da pedreira. Subia pela escada ao encontro de Maria.
Velha, de olhos vivos enxergava pouco. Abria-se para dentro. Só saía de manhã. Gostava de ouvir o sol. O vermelho sangue e o laranja chegavam quietos. Depois descascavam. O amarelo brilhante ofuscava de vez a noite. Mas era ruidoso e Maria voltava para a casa de portas verde oliva.
Por muito tempo, não gostou de pensar em origens. As suas eram as dos outros. Passou a viver ali, quando as crianças dos patrões nasceram. No dia em que fez 15 anos, o pai dos meninos foi embora.
Bordou a toalha de linho, que hoje amarela esquecida, enquanto a patroa tecia outro filho. Era sempre o marco. Delimitava terras alheias.
Talvez, havia amor nisso.
Agora, alguém nascia por ela. Primeiro debaixo da pedra. Respirava forte, a erva daninha. Rachou o topo da escada e pela varanda veio à luz. Crescia para Maria, somente para ela. Cada dia mais perto, a velha a percebeu quando foi ouvir o sol. A erva se aninhou no arco de seu pé. Ao toque da pele calejada, amaciou-se entre os dedos. Subiu as pernas. Tomou as suas cavidades. 
Maria não se movia. Já não era uma. Imaginava-se flor por toda parte. O corpo talhado.
A varanda silvestre mergulhava no último amanhecer. As portas oliva rangiam. A pedra não segurava mais o vento. E a mulher, cega dos dois olhos, nasceu de vez.”
***
***
Projeto | Paulo Kellerman
Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Ana Gilbert
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“Suspensa, toco o vento, pressinto o vazio do espaço, disponho a trajetória da queda livre imaginada, mas livre de quê, se tenho medo da morte… e mais ainda de viver.”

 

Fotografar palavras

Projeto | Paulo Kellerman

Texto | Ana Gilbert
Foto | Chico Vilaça

Abissal

Sofrimento da água

“… a morte da água é mais sonhadora que a morte da terra: o sofrimento da água é infinito.”

Palavras | Gaston Bachelard (As águas e os sonhos)

Auto-retrato 42

“O que fazer se a morte é um eterno estado de consciência, restrito a observar em silêncio essa escuridão?”

Palavras | Haruki Murakami (Sono)

da palavra à imagem, da imagem à palavra

Perdida
no vazio das coisas
no azul dos ladrilhos

em meio ao ruído
abafado da música
desconexo das pessoas.

Palavras | Ana Gilbert

Unhas

“Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem.”

Texto: Clarice Lispector (A legião estrangeira, Os desastres de Sofia)

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Vi medo nos teus olhos e prometi ficar contigo. Foste levada, assim, meio às pressas, com a camisola vestida, o robe a cobrir as pernas e a proteger o peito do frio. Dias frios, aqueles, mas naquela tarde, no pátio, o vento era cálido, o sol, ameno. Estavas cansada; fechaste os olhos, como a receber aquela útima brisa, aquele último raio de sol, a última vez que saías ao ar livre, e foste inclinando a cabeça, depois o corpo todo. Segurei teu rosto com a mão para te colocar de volta ereta, mas te deixaste ficar, cabeça apoiada na mão em concha, aliviando o cansaço de anos. Deixei, e assim seguimos até a ambulância.

Procissão

“Caminhamos pelas ruas tranquilas da minha infância.

O caixão avança devagarinho, atrás a multidão geme silenciosamente. Um silêncio feito de murmúrios e rumores, de chilreares de pássaros invisíveis e da cantoria fantasmagórica dos sinos, de arrastares de pés e estalos de bengala. Há, também, lágrimas que se ouvem. Há tristezas que pairam, que convidam à desistência, à rendição; ou talvez sejam apenas nuvens a passar, apressadas e opressivas.”

Texto: Paulo Kellerman (Um relógio a tiquetaquear, Os mundos separados que partilhamos)