One art

“The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
 
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.
 
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
 
I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.
 
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.
 
—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.”

Words | Elizabeth Bishop

Em branco

O conto Areia (Lado A e Lado B), de Paulo Kellerman, é hipnótico. Provocou-me um grande impacto quando o li pela primeira vez; voltei a ele diversas vezes na tentativa de apreender tudo o que era dito pelas palavras e para além delas. Um dia, descobri-me num diálogo imaginário com o texto, a desenhar imagens e frases. Dessa conversa surgiu Em branco, um conto que dá voz à personagem feminina, à narrativa não escrita, e que recria a história a partir de seu olhar.

Em branco poderia se chamar Areia (Lado C), o que, se por um lado, quebraria a ideia original de apresentar duas perspectivas de uma mesma história, como os dois lados de um disco de vinil, por outro, sugeriria mais uma das inúmeras facetas de um cristal, num infinito desdobrar de imagens. Areia faz parte do livro Os Mundos Separados que Partilhamos, publicado em 2007 pela Deriva Editores, e mantém intactos seu impacto e força.

***

Areia
Lado A

1.
Caminhamos lentamente, de mãos dadas, os pés descalços a arrastarem-se na areia; falas devagarinho, dizendo pouco, agradada com o som da tua voz, talvez agradada com o meu silêncio; por vezes, ris alto; e apertas a minha mão, com força. Não sei por que motivo insististe em trazer-me a esta praia fria e cinzenta, não sei que quererás mostrar-me, dizer-me. Talvez queiras, apenas, estar comigo: sozinhos num pedaço de mundo isolado e silencioso, parado no tempo.
Penso noutros passeios noutras praias com outras mulheres; penso em como tudo se repete, apesar de tudo mudar. Gostaria de te falar disto, de discutir este paradoxo da vida contigo; mas tu falas com entusiasmo da primeira vez que estiveste nesta praia, quando eras adolescente, revives um pedacinho do teu passado, partilhando-o comigo. Por isso, não te interrompo e escuto-te com atenção enquanto continuo a reflectir vagamente, sem objectivo, sem pressa.
2.
Vejo um vulto escuro e imóvel, lá longe, e aborreço-me por não termos a praia só para nós. Mas tu avanças, indiferente e decidida, arrastando-me contigo, prendendo-me a ti. Agora, já se distinguem as formas de um homem, sentado numa rocha, olhando o mar; sozinho. Pergunto-me por que motivo estará este homem numa praia deserta, num local onde certamente a sua solidão, a solidão intrínseca à existência humana, será mais incisiva, mais insuportável; e depois envergonho-me, quando recordo as minhas próprias deambulações solitárias, olhando o mar e sentindo o silêncio. Não conheço este homem mas identifico-me com ele, imagino o que poderá estar a sentir.
Já estamos muito próximos; e o desconhecido olha-te com intensidade e paixão, como se te conhecesse, como se te esperasse. Estranho, sinto algum incómodo, uma sombra de receio. Continuas o teu caminho, imperturbável; a tua mão aperta a minha com mais força, a tua voz parece-me mais hesitante, um pouco insegura. E depois, falas-lhe: como estás? Escutamos os seus murmúrios embaraçados, a que respondes com uma expressão de circunstância, enfadada e displicente: estás com bom aspecto, gostei de te encontrar. E prosseguimos o nosso trajecto. Sinto-me perturbado com este estranho encontro, que ocorreu mesmo perante mim mas que decorreu como se eu não estivesse presente. Pergunto, hesitante, quem era o desconhecido; mas tu não respondes, finges que não ouviste. Depois, muito tempo depois, recomeças a tagarelar, a rir. Já esqueceste ou tentas esquecer? Percebo como te conheço mal; e não me importo, prefiro não me importar.
3.
Digo, distraído: há uma lenda antiga que conta que cada grão de areia que existe nas praias de todo o mundo é o testemunho final de um amor infeliz. Sorrio e explico: sempre que duas pessoas recusam continuar a amarem-se, o amor que as unia condensa-se num grãozinho de areia, simbolizando, por um lado, a insignificância e irrelevância desse amor (é apenas mais um mísero grão, entre biliões) e, por outro, a sua perpetuidade e resistência (a areia existe para sempre, é indestrutível).
Dizes, um pouco distraída, naquele teu tom indiferente e agastado que, por vezes, me irrita: então, ajudei um pouquinho no crescimento desta praia. E ris, uma gargalhada tão explosiva que não pode ser totalmente artificiosa. Concentro-me no som do teu riso; e quase consigo acreditar que estás a brincar.
4.
Agora, tocas-me de um modo diferente, mais explícito; convidas-me a tomar a iniciativa. E eu tomo: beijo-te, apertando-te contra mim, abraçando-te; sinto o teu corpo vibrar, excitado e exigente. Estamos no chão, deitados; já tenho a minha boca no teu seio, a minha mão na tua coxa; distraio-me vagamente com o murmurar do mar, o sopro do vento, o desconforto da areia. Penso distraidamente noutras praias, noutros seios que não cheguei a beijar, penso em todos os seios que desejei e não tive; sinto este momento como uma oportunidade única, redentora; e duplico a intensidade do beijo, incutindo-lhe todo o meu desespero, toda a minha fé. Correspondes, apertando-me o sexo, acariciando-o; mas não fazes qualquer esforço para me despir as calças, o que me surpreende e contraria um pouco; mas gemes, libertas aquele som aflitivo e libertador de quem abdicou momentaneamente da consciência, da vontade, da responsabilidade; percebo que estou a rir, talvez de prazer, talvez de embaraço, talvez de desespero. Quase consigo abandonar-me, esquecer o mundo e abdicar de mim, da consciência de mim; quase consigo ignorar que, na verdade, estamos apenas a fazer sexo, nada mais; daqui pouco virão os orgasmos e, logo depois, a normalidade; tudo voltará a ser o que era, tudo isto será passado, apenas uma memória incerta e nostálgica. Concentro-me no sabor do teu mamilo e tento não pensar, ignorar os pensamentos. Tento saborear o momento, apenas.
5.
A primeira pancada atinge-me nas costas. Sinto uma dor aguda, mesclada de surpresa e pânico; retiro lentamente o rosto do teu seio e respiro fundo; tento erguer-me, olhar, compreender. Tu gritas, apenas uma vez, um longo rugido alimentado de ódio e incredulidade. Intuo que fui atingido por alguma coisa, por alguém, e viro-me, tentando perceber. Lembro-me do homem com quem nos cruzámos e pergunto-me quem será. É então que chega a segunda pancada, mais suave mas igualmente inesperada e surpreendente. Atinge-me no pescoço, ouço um estalo, sinto a dor. E logo depois: cansaço, indiferença, vazio, desistência; vontade de nada.
Sinto-me resvalar para o interior, confortável e acolhedor, seguro, de um mundo sem cor nem desejo nem prazer nem riso nem vontade nem tempo; e muito devagarinho, vou intuindo que mundo é este a que acabo de chegar, vou percebendo o que está a acontecer. E não me indigno, não me surpreendo, não me revolto; deixo-me ir, apenas: deslizando.
6.
Aconchego-me na areia, sentindo-me parte dela, apenas mais um grão; e espero.

Lado B

1.
Escolho uma rocha e sento-me. Permaneço assim durante muito tempo, esquecido do tempo, a olhar o mar e o céu, a olhar o nada, a olhar para dentro de mim; e a pensar em ti: à tua espera.
Por vezes, fumo; sinto frio; olho em redor, à procura; sigo o percurso das gaivotas, invejo-as; perscruto o mar em busca de barcos, que nunca passam; estudo as metamorfoses das nuvens; escuto o ruído – o suspiro, o arroto – das ondas; imagino sereias, sorrindo-me; mas, principalmente, recordo: o dia em que caminhámos por esta praia, de mãos dadas, de corações dados, em silêncio; e depois, todos os outros dias que se seguiram. Os passeios, os abraços, os suspiros, os beijos, os toques, os sorrisos, os silêncios. Todos os momentos, um a um: evoco-os, revivo-os, saboreio-os, aprisiono-os. Recordo com a intensidade de quem sabe que o passado não se repetirá, de quem sabe que lhe resta continuar a viver do passado, no passado. Tudo o que vivemos, sentimos, partilhámos está, agora, encerrado num pequeno compartimento do meu cérebro, apenas existe para mim, na minha memória. Como se tivesses morrido, e o que restasse de ti fosse, apenas, uma caixinha com as tuas cinzas.
Mas não morreste. Deixaste-me no passado e seguiste em frente, rumo ao futuro. Sem mim.
2.
Sei que virás um destes dias; mas não estarás só. Trouxeste-me a esta praia e amaste-me; agora, trarás outro, amarás outro. Alguém que terás seduzido, que estará apaixonado por ti, que pensará em ti como sendo o seu futuro. Uma nova versão de mim, um outro eu.
Caminharão lentamente, de mãos dadas, os pés descalços a arrastarem-se na areia; quando me vires, sentirás algum incómodo, alguma contrariedade; mas, depois, sorrirás. Sem largar a mão do teu novo amante, perguntarás como estou e escutarás os meus murmúrios embaraçados; não disfarçarás o enfado; dirás que estou com bom aspecto, que gostaste de me encontrar. E continuarás o teu percurso, arrastando o meu sucessor; não lhe falarás de mim, como nunca me falaste dos que me antecederam. Limitar-te-ás a caminhar pela praia deserta, imaginando-a deserta, indiferente ao passado, ao futuro. Muito tempo depois, dir-lhe-ás, como me disseste: esta é a minha praia; e enquanto despes as roupas: esta é a minha cama. Permanecerei sentado na rocha, incapaz de me mover, de reagir, de chorar, a sofrer, com pena de mim; e lá longe, na outra ponta da praia, vocês: a foderem.
3.
Aconteceu hoje, finalmente. E tudo decorreu como imaginei. Fiquei a olhar para o teu sorriso embaraçado, tentando compreender por que motivo te amara tanto, te amava tanto. Depois, quando já te afastavas, dei por mim a perguntar o que terias tu de tão especial, de tão único, para me seduzir tão profundamente, tão doentiamente; porquê tu? Espreitei-te, reparando que o teu vestido branco agredia violentamente este universo de cinzentos e castanhos, de cores mortas; a luz desafiando a escuridão, a morte; como se apenas tu fosses vida, apenas tu importasses. Olhei o mar com a intensidade dos desesperados, dos loucos, dos idiotas: à procura de uma resposta, de uma fuga, de uma anestesia, de uma morte. Depois, sem coragem para me continuar a martirizar, levantei-me e caminhei alguns passos, lentos e contrariados: afastando-me de ti, do passado, da minha vida. Mas parei subitamente, interrompido por um longínquo riso, voluptuoso e orgíaco, um riso de deleite, de arrogância, um riso de homem, de homem que fode. O riso dele. Não me movi, à espera; sem saber o que esperava; recordando os meus próprios risos.
4.
Foram os risos dele que me arrastaram até aqui. Agora, olho-vos sem curiosidade nem excitação, sem paixão nem inveja. Simplesmente, olho: e poderia ser eu, já fui eu, a rebolar na areia seca, sentindo o peso do teu corpo, o cheiro do teu sexo, a força da tua língua. De certo modo, olho-me. E não sei o que acontecerá. Talvez acabe por me cansar e me afaste, regresse à minha vida, à minha dor. Ou poderei acabar por fechar os olhos e masturbar-me, com fúria e desespero, ouvindo os teus gemidos, fazendo amor com os teus gemidos; poderei, também, aproximar-me, devagar, e espancar-vos com aquele pedaço de madeira que o mar arrastou até à praia, até mim; matar-vos silenciosamente, sem fúria nem ódio; arrastar-vos para este mundo sem cor nem desejo nem prazer nem riso nem vontade nem tempo em que estou aprisionado, para onde tu me empurraste, onde me abandonaste.
Ergo-me, lentamente e contrariado. Agora, sei que preciso de fazer algo, de agir; apenas assim conseguirei libertar-me do passado, de ti, de mim; libertar-me desta vida sem vida, desta morte não assumida, deste mundo suspenso; e viver: coleccionar outros momentos, aprisionar-me a um outro passado; substituir-te.
Ele ri, tu gemes: sozinhos no vosso mundo. Pego este pedaço de madeira que o mar me trouxe e penso: talvez o mar me traga a vida, mais um pedaço de vida, quando sempre pensei que poderia ser a minha fuga para a morte definitiva, o meu aliado na desistência (mas tem-me faltado a coragem). Acaricio-o, como se fosse uma parte do meu corpo, uma parte reencontrada do meu corpo. Uma parte do meu corpo que, descubro-o agora, poderá ser útil.
Aproximo-me e entro no vosso mundo; ergo o pedaço de madeira e por um momento consigo fugir do meu mundo, deste mundo onde agoniam os que já não vivem mas ainda não morreram, os que se esquecem de viver, de ir vivendo, os que desistiram de viver; o mundo dos despojados, a quem roubaram o futuro, condenando-os ao passado. Um mundo transitório onde aguardam os homens e as mulheres que foram felizes mas não voltarão a sê-lo, onde aguardam os homens e as mulheres que já nada esperam, o mundo transitório dos que não vão para lado nenhum, que não têm para onde ir.
5.
Aconchego-me na areia, sentindo-me parte dela, apenas mais um grão; e espero.

(Paulo Kellerman)

***

Em branco

1.
Aqui estou. Novamente nesta praia. Não sei o que busco, o que sinto diante do mar, do movimento infindável das ondas. Talvez alívio, talvez dor. Vim a esta praia com todos os homens que passaram pela minha vida. E foram muitos. Agora é a tua vez; sei que não serás o último. Sou apenas uma estação de passagem para os homens; ou serei eu que não me detenho em nenhum deles. Agarro a tua mão como se agarrasse um último fiapo de vida. Vida que escorre como a água do mar na areia; vida sem cor e sem luz que se tornou a minha prisão.
O vento arrepia a pele por baixo do vestido. Branco. Sempre branco, para tentar exorcizar a morte que me traga lentamente, para ter a certeza de que estou limpa do sangue que escorre de mim. O vento arranha as memórias tatuadas no corpo; percorre cada uma delas como tempestade. Sinto prazer e dor. Concentro-me na textura da areia sob os pés. Áspera.
2.
Estou contigo, mais um entre tantos iguais. Excito-me, antecipando o sexo que sei que faremos. Excitas-me com o teu silêncio atento, o teu ar inalcançável, o teu cheiro. Falo devagar, frivolidades, talvez para abafar a voracidade que me consome. A voracidade que dói no corpo e na alma, que cava um vazio em mim, que impede que me conecte a qualquer pessoa, apesar de tentar uma e outra vez; a voracidade que me persegue no inventário das memórias (inventadas?) como um bicho que corrói as entranhas. Entusiasmo-me, ao contar-te sobre esta praia, a minha praia. És como um espelho no qual vejo desfilar a mim mesma, não sei se num passado distante ou recente, não importa, ou se no presente, este hoje, agora; um espelho que me mostra o lugar onde estou, mas que é, precisamente, o lugar onde não posso estar.
Não sabes, mas carrego uma lâmina sob a pele. Fria, cortante,  protetora. Afasta-te de mim; afasta-me de ti, de todos, de mim. Sangro. E quase não sinto. Faltam-me pedaços, o que faz de mim um ser estranho, cheio de ausências; ausências que tento em vão preencher com homens, com sexo. Sou como um animal acuado que só se sente momentaneamente livre no gozo. Gosto do sexo afoito, aflito que faço nesta praia; gosto da sensação de poder ser vista quando faço sexo. A umidade do ar; o cheiro a maresia se confunde com os nossos cheiros, as nossas umidades, os nossos hálitos feitos de água e ar.
3.
De repente, vejo-o. Sabia que um dia o encontraria aqui, ele e todos os outros. Enfeitiçado e despedaçado, à minha espera, à nossa espera. Faço um jogo perigoso e excitante que um dia acabará mal, eu sei. Mas quando, com quem? E decido arriscar uma vez mais. Aperto a tua mão para enfrentar o encontro. Olho-o nos olhos e leio o seu desespero, a sua paixão doentia, a minha doença. Cumprimento-o com fómulas prontas, aparentemente distante e insensível. E ele responde com sussurros atropelados, quase inaudíveis. Percebo que não entendes, vislumbro a sombra que atravessou o teu olhar, adivinho a pergunta que te fizeste sobre a identidade do homem. Verbalizas a pergunta. E eu finjo não ouvir, finjo indiferença, disfarço a inquietação que me desestabiliza. Continuamos a caminhar; o tempo escoa, lento. Recomeço a falar; rio; um riso estranho, desconexo, que acontece dentro e fora de mim. Falas algo sobre amores e areia, términos e eternidade. Uma lenda, acho. Mas não consigo ordenar o pensamento; respondo qualquer coisa e rio. Ainda mais.
4.
Depois, o que faço é tocar-te, seduzir-te, incitar-te. Tomo a iniciativa e tu aceitas o meu convite. Beijas-me com força e eu correspondo com toques ávidos e gemidos, numa espécie de representação afetada e repetida incontáveis vezes com outros homens, nesta praia, nesta areia. Por um momento, ainda penso no encontro que acaba de acontecer. Imagino-o a sofrer, a pensar em nós, a ouvir o nosso prazer. Excito-me com este pensamento; e depois, esqueço-o. Já não sinto o desconforto do vento frio. Esfrego o meu corpo no teu; o vestido, agora, pouco esconde, e as memórias se confundem. Acaricio o teu sexo sob o tecido, provoco-te com isso; ris exaltado ou incomodado, não sei; sinto a tua boca e as tuas mãos a percorrerem o meu corpo, a tua língua a arrepiar a pele, e desconecto-me de uma parte de mim, da minha dor, de ti; sou apenas um corpo excitado. Sou.
5.
Algo corta o ar e me faz abrir os olhos no exato momento em que ele te golpeia as costas com um pedaço de madeira. Grito, desesperada, oscilando entre o ódio e o prazer, tentando entender aquilo que já sei. Vejo a agonia nos seus olhos, o pânico nos teus; a pergunta sem resposta; e já um segundo golpe desce sobre ti, agora no pescoço. Um estalo, o afrouxamento do corpo, e o tempo se detém. Finalmente, aconteceu. A morte escapou de dentro de mim e se espalhou pela areia. Amedrontada, torno a fechar os olhos, à espera.
6.
O branco não foi capaz de conter o sangue que escorre de mim e que, lentamente, vai tatuando memórias na areia. Resta o espelho partido.

(Ana Gilbert)

***

 

Red alert

“… and the situation starts to escalate…
… as bilateral tensions now exacerbate…
… diplomatic ties were broken off tonight…
… red alert proclaimed this morning nationwide…”

(In Between | Sylvan)

o último voo

Experimento abrir as asas, lentamente. A esquerda, em especial, a mais machucada das duas. Estico-a com cuidado, visualizo cada articulação, testo uma a uma. Repito o movimento e descubro: está inteira. Pensava-a morta ou agonizante. Percorro os dedos por toda a sua extensão: sinto dor em alguns pontos e a umidade espessa de sangue. A asa direita parece não requerer maiores cuidados; sinto-a mais leve, apesar de uma pulsação atordoada.

Tenho os olhos fechados, mas sou capaz de ver (ou imaginar?) as minhas velhas asas, as saliências por onde brotam nas costas. Ainda lembro o misto de espanto e tristeza quando descobri esses pequenos brotos em mim e percebi a condenação. O corpo, sinto-o inerte, exausto. A mente, em desalinho; sentimentos confusos que são como agulhas finas e longas provocam pequenos choques que estremecem as asas. Constato o fluir incessante da vida que grita dentro de mim. Não sei bem como cheguei até aqui depois do confronto. Um repouso no meio do nada que é a noite; o vazio que suspende a saudade. Entreabro os olhos e vejo a luz que desponta no horizonte. Fere. E com a visão, tomo consciência da sensação de desconforto do rosto contra a rocha ainda fria do hálito da madrugada. Estou só e a pele escassamente coberta deixa penetrar o frio por veias e artérias.

O canto agudo de um albatroz solitário, esse irmão de alma, transpassa o coração como uma flecha; chama-me de volta ao tempo, fala-me do meu destino. Viro-me com cuidado, tentando proteger os pulsos fragilizados. Com esforço, consigo sentar e encaro a vastidão do mar que se torna céu em algum ponto além. Rastejo até a beirada e vislumbro o abismo, bem perto de mim. É preciso continuar o voo; sei que não posso descansar por muito tempo. Levanto-me, abro as asas por completo. Ensaio movimentos. Ergo a cabeça, fecho os olhos; inspiro e expiro umas quantas vezes até ter a certeza de que os pulmões ainda sabem como respirar. E num ímpeto, lanço-me ao espaço, na explosão do grito, na vertigem do novo dia, sem saber ao certo se conseguirei sustentar-me.

Texto e foto | Ana Gilbert

Fotografar palavras #1823

“Fim

“No dia que fecharem
os teus olhos,
virão os amigos
as palavras doces

a escuridão
terra fria

No dia que fecharem
os teus olhos,
choros inundarão rios
fogos te consomem

teus
sonhos se extinguem

os olhos são vida
e morre a vida
no dia que fecharem
os teus olhos.”

Texto | Jorge Gomes Pereira
Foto | Ana Gilbert

Diálogos narrativos

Colaboração com Paulo Kellerman

“E então senti uma dor tão visceral, tão imensa, tão desconcertante, que a única coisa que consegui fazer para lhe fugir foi esmurrar o meu reflexo no espelho, uma e outra vez, com ambas as mãos, com toda a força que possuía, tentando desesperadamente que a dor física suplantasse por um segundo (bastaria um segundo) a outra dor que se apoderara de mim, tentando desesperadamente que a dor física me distraísse da dor da perda e da impotência, da dor do desespero, da dor do ódio. Fui esmurrando o meu reflexo no espelho, fui esmurrando-me.”

Almas Desligadas | com Paulo Kellerman

Entressonho

Texto Ana Gilbert

Acordo. Sem vontade. Quero apenas ficar na cama um pouco mais. Não sei o que pensar, não consigo pensar, não quero pensar. Quero apenas dormir. Quero tanto. Mas algo em mim não deixa que me entregue à fuga do esquecimento. Senso de obrigação? Ou um resto de força? Espio devagarinho para fora de mim. Tento, pelo menos. Espreguiço-me, um espreguiçar mecânico, sem prazer. Continuo do lado de dentro. Levanto. Não sei qual roupa vestir para trabalhar e isso torna-se paralisante. Fico a olhar as roupas, à espera, talvez, de que uma se ofereça para que a vista. Mas, claro, isso não acontece. Fico durante um tempo a olhar o vazio. Não tenho fome, talvez uma ponta de enjoo; desânimo é o que tenho e me entrego a ele. O mundo gira na velocidade do meu desânimo: lento, os sons distorcidos por uma rotação alterada. Eterna. Afinal, termino de vestir a roupa que mecanicamente apanhei no armário e agora já não há tempo para mais. Ignoro o espelho: desisto de conferir as olheiras que sei que tenho, o vazio do olhar, a pergunta; não quero ver a roupa um pouco amarfanhada, falta-me paciência para esses pequenos detalhes. Ou cuidados comigo. É tarde e saio apressada, tentando me ajustar à velocidade do mundo.

Ao chegar à rua, caminho entressonhada, num recitar melancólico de tarefas a cumprir. Ao virar a esquina, o impacto da brisa do mar, fria, sobre a pele, quente, traz contra a minha vontade lembranças de outros tempos adormecidos, quem sabe soterrados, onde tudo era possível, ali, junto a outro mar. Mar da infância, mar de dentro, mar das minhas histórias. O tempo linear congela; movo-me no tempo abissal dos afetos.

Encontro-me novamente junto àquele mar, distante, quando ainda podia sonhar e fazer planos. O cheiro de maresia invade as narinas; sinto o gosto de sol, o sal a queimar-me a pele jovem, ainda infantil. Paro de lutar contra as lembranças e entrego-me às sensações familiares. Mas logo o roçar do tecido torna-se insuportável, lançando-me de volta à realidade escaldante deste dia de verão. Contudo, as cicatrizes do corpo haviam sido tocadas, despertando o incômodo da alma e o que há muito decidi esquecer. Afundo novamente; é mais forte do que eu.

Como foi que aconteceu? Não consigo lembrar com clareza. Por mais que revire as lembranças, não consigo juntá-las, não consigo sentir. Um toque, um sussurro, uma sombra. Uma ameaça. Um hálito conhecido, um rasgar de tecido, uma dor. Depois, ninguém. Apenas a minha mão a sentir a textura dos grãos de areia, a imaginar-lhes a cor; e os meus olhos, fechados, a encherem-se de vermelho. Imagens enevoadas, dispersas, fantasmagóricas. Quanto mais penso nisso, mais embaçados e confusos ficam meus contornos. A clareza esvai-se em solidão e sinto-me afundar em areia movediça.

Tento me agarrar a algo para não ser tragada: penso em fragmentos de cartas, pedaços de ilusão, cheiros de amores antigos, mortes envoltas em delicados papéis de seda azul, guardadas a sete chaves em pequenos baús. Inútil. A única coisa que me sustentaria seria um fio, esse fio que se rompeu naquele preciso momento, tornando-me dura, distante, determinada a esquecer o inominável.

Recolhi-me, anestesiei-me, armei-me; há muito deixei de ser inteira. Não permito que ninguém me penetre; ou me saiba. Perdi o rumo; perdi-me. Não consigo desistir de vez. Resta seguir.

Afundada nesse estupor, percebo que cheguei ao trabalho. Com um resto de vida.

***

Texto e foto| Ana Gilbert

varanda

“Não havia pedaço da velha varanda fora do lugar. O musgo bebia as manhãs. Em frente à grade férrea, a pedra segurava o vento. As portas esverdeavam. Atrás delas, Maria respirava.
Abaixo o degrau rochoso coberto pelo tempo, uma erva daninha tomava posse. Crescia, crescia como se tivesse nascido apenas para isso. Cada dia uma nova folha, um caminho a se abrir no meio da pedreira. Subia pela escada ao encontro de Maria.
Velha, de olhos vivos enxergava pouco. Abria-se para dentro. Só saía de manhã. Gostava de ouvir o sol. O vermelho sangue e o laranja chegavam quietos. Depois descascavam. O amarelo brilhante ofuscava de vez a noite. Mas era ruidoso e Maria voltava para a casa de portas verde oliva.
Por muito tempo, não gostou de pensar em origens. As suas eram as dos outros. Passou a viver ali, quando as crianças dos patrões nasceram. No dia em que fez 15 anos, o pai dos meninos foi embora.
Bordou a toalha de linho, que hoje amarela esquecida, enquanto a patroa tecia outro filho. Era sempre o marco. Delimitava terras alheias.
Talvez, havia amor nisso.
Agora, alguém nascia por ela. Primeiro debaixo da pedra. Respirava forte, a erva daninha. Rachou o topo da escada e pela varanda veio à luz. Crescia para Maria, somente para ela. Cada dia mais perto, a velha a percebeu quando foi ouvir o sol. A erva se aninhou no arco de seu pé. Ao toque da pele calejada, amaciou-se entre os dedos. Subiu as pernas. Tomou as suas cavidades. 
Maria não se movia. Já não era uma. Imaginava-se flor por toda parte. O corpo talhado.
A varanda silvestre mergulhava no último amanhecer. As portas oliva rangiam. A pedra não segurava mais o vento. E a mulher, cega dos dois olhos, nasceu de vez.”
***
***
Projeto | Paulo Kellerman
Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Ana Gilbert
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“Suspensa, toco o vento, pressinto o vazio do espaço, disponho a trajetória da queda livre imaginada, mas livre de quê, se tenho medo da morte… e mais ainda de viver.”

 

Fotografar palavras

Projeto | Paulo Kellerman

Texto | Ana Gilbert
Foto | Chico Vilaça

Abissal

Sofrimento da água

“… a morte da água é mais sonhadora que a morte da terra: o sofrimento da água é infinito.”

Palavras | Gaston Bachelard (As águas e os sonhos)

Auto-retrato 42

“O que fazer se a morte é um eterno estado de consciência, restrito a observar em silêncio essa escuridão?”

Palavras | Haruki Murakami (Sono)

da palavra à imagem, da imagem à palavra

Perdida
no vazio das coisas
no azul dos ladrilhos

em meio ao ruído
abafado da música
desconexo das pessoas.

Palavras | Ana Gilbert

Unhas

“Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem.”

Texto: Clarice Lispector (A legião estrangeira, Os desastres de Sofia)

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Vi medo nos teus olhos e prometi ficar contigo. Foste levada, assim, meio às pressas, com a camisola vestida, o robe a cobrir as pernas e a proteger o peito do frio. Dias frios, aqueles, mas naquela tarde, no pátio, o vento era cálido, o sol, ameno. Estavas cansada; fechaste os olhos, como a receber aquela útima brisa, aquele último raio de sol, a última vez que saías ao ar livre, e foste inclinando a cabeça, depois o corpo todo. Segurei teu rosto com a mão para te colocar de volta ereta, mas te deixaste ficar, cabeça apoiada na mão em concha, aliviando o cansaço de anos. Deixei, e assim seguimos até a ambulância.

Procissão

“Caminhamos pelas ruas tranquilas da minha infância.

O caixão avança devagarinho, atrás a multidão geme silenciosamente. Um silêncio feito de murmúrios e rumores, de chilreares de pássaros invisíveis e da cantoria fantasmagórica dos sinos, de arrastares de pés e estalos de bengala. Há, também, lágrimas que se ouvem. Há tristezas que pairam, que convidam à desistência, à rendição; ou talvez sejam apenas nuvens a passar, apressadas e opressivas.”

Texto: Paulo Kellerman (Um relógio a tiquetaquear, Os mundos separados que partilhamos)