A glimpse

a nude glimpse of my lone soul

Words by Anne Carson (Glass, Irony & God)

A Respiração do Tempo | Ilustração

A Maraia é uma jovem e talentosa artista; um ser humano sensível e profundo. Captou com precisão e condensou em imagem o que as/os leitora(e)s descobrirão nas palavras.
É um privilégio ter a Maraia como ilustradora da nossa Minimalista.

[a respiração do tempo é a nona publicação da Minimalista Editora]

Casa da infância…

n.º 30

Regresso uma e outra vez à casa da minha infância. Os cheiros, os esconderijos, os lugares de cada coisa e de cada um mantêm-se, ainda, inalterados.
Evito o caminho para o interior. Subo a escada e recordo a textura do cimento fresco. Degrau a degrau, subo e penso nas inúmeras vezes que os pisei, que os meus os terão pisado. Sei as reentrâncias, os desníveis, as imperfeições. Dos degraus. Dos meus. As minhas.
Cá em cima é mais fácil respirar. Ainda assim, desvio o olhar da porta do sótão: preta, ferrugenta, retorcida. Encerra demasiada ruína, como se um cemitério de nós próprios habitasse sobre os espaços em que vivemos.
Aguardo o escurecer e contemplo o horizonte: o parque florestal, o pinhal ao fundo… e, naquele momento em que o silêncio se instala, o som do nosso mar sobrepõe-se a todas as camadas dos meus sentidos.
Elevo o olhar e procuro no escuro a segurança de tantas noites ali passadas. Encontro o norte… brilho ténue, guia de viagens difusas memória dentro. Uma âncora no firmamento, como se todo o universo nele se sustivesse, como se todo o meu viver nesta casa nele se suportasse.
Sento-me. Inspiro. Deito-me no chão rugoso e frio, sinto o desconforto no corpo e nas memórias que trago comigo. Abro os olhos para a imensidão e, por fim, entro.”

Fotografar palavras, projeto criado pelo Paulo Kellerman em 2016. Projeto criado por nós, diariamente.

Texto da Vilma Duarte, foto minha.

Ecos

“other echoes inhabit the garden. shall we follow?”

Palavras | T.S. Eliot

O TEMPO (Somos Nós)

O TEMPO (Somos Nós)

Ópera na Prisão | Traction – SAMP

Libretista: Paulo Kellerman

“Porque vamos? Porque ficamos? Porque esperamos?”

Porta e viagem. Tempo e memória. Espera.

Trabalho, muito trabalho; esforço conjunto. O resultado: um espetáculo multimídia, complexo e denso, como o tema, envolvendo músicos profissionais e jovens detentos, atuações presenciais e remotas. O tema é o tempo, em seus desdobramentos de espera e viagem. O contexto onde esse tema se desenrola é a prisão: a externa, palpável, do domínio da justiça (o Estabelecimento Prisional de Leiria, Portugal), onde jovens estão à espera. E também a(s) interna(s): a das escolhas, a das ilusões, a da inconsciência, a dos valores coletivos. As portas que se nos apresentam no decorrer da vida.

“Estou farto de portas fechadas”, diz o coro.

Mas como abrir as portas? Como perceber que estamos a atravessar portas, ou a fechá-las? Como suportar ver as possibilidades e os limites? As seduções, os enganos, as necessidades, as insatisfações?

Tendo o mito de Ulisses e Penélope como fio condutor, a ópera nos guia por entre símbolos e metáforas e nos oferece a oportunidade de refletir sobre a forma como existimos no mundo, sobre a nossa relação com o tempo (ser humano é existir no tempo e no espaço), sobre a perspectiva de diferenciação entre indivíduo e coletividade. Sobre as nossas certezas protetoras. Sobre as nossas fraquezas. O espetáculo nos desestabiliza e emociona. E também nos faz sorrir em seus momentos de leveza.

O coro repete:

“Abre os olhos.” | “Estás preso e nem sabes.”

As tentações para não ver são muitas. O trabalho de consciência é constante. Exige esforço, exige escuta; é solitário. Ser cego pode ser, aparentemente, mais fácil. A lembrança de onde estamos nos faz pensar em voos, em fuga (em algum momento, fugimos todos), em regresso. Para enfrentar.

O amor surge como a luz da consciência, que não nos deixa esquecer quem somos;  como a conexão com a alma, essa instância profunda do humano, capaz de nos libertar da prisão do tempo. 

“Somos nós que fazemos o tempo. Nós é que somos a consciência do tempo.”

[assisti à estreia do espetáculo, no dia 4 de junho, no Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens. E, para mim, o espaço foi consciência.]

5 anos de sutilezas…

Este foi um ano especial, apesar das sombras da pandemia: além da produção fotográfica, o meu livro de contos pela Minimalista materializou-se. Ambos me ajudaram a continuar criativa acima de tudo. Ajudaram-me a respirar.

Um enorme agradecimento a todos os que acompanham este processo; aos que voltam por sentirem que há algo aqui que faz sentido. Aos que passam de forma breve, por curiosidade ou acaso.

“O clique acontece por dentro e o dedo aciona o disparador.
Não sei o que fotografei.
(nunca sei. iludo-me)”

Opinião

Ao escrever sobre o livro, “A respiração do tempo”, detenho-me no título. O tempo como organismo vivo. Que respira.
Reparem que não há humanos sem tempo. O tempo é uma estrutura essencial. E este livro começa logo por evidenciar isso.
O livro, muito cedo, entra pelo desejo, na sua relação com a imaginação, ou com a fantasia. Mostrando como o êxtase precisa dessa centelha para existir.
E vai por ali fora, sempre poderoso. Mostra-nos não aquele humano perfeitinho, mas aquele que sofre e faz sofrer. Aquele que por vezes vive quase sem poder.
O prazer e a dor estão muito presentes na narrativa.
É um livro carregado de interioridade. Com a psique das personagens muito à mostra.
Não estamos perante personagens planas, sentimos a sua riqueza e toda a força das suas circunstâncias. Vou dar um pequeno exemplo:
“Uma mulher observa a cena e, como os cães, fareja a ameaça. Ela, uma dessas mulheres violadas por seu homem. Ela e o seu grito mudo.
Ao sinal invisível, os homens começam a disparar. Descarregam armas, como uma ejaculação colectiva, fruto de um gozo inominável.”
A água é também um elemento constante. Há uma qualquer relação entre o mar e a morte. Que vai sobrevindo.
É um livro que tem arrojo, risco por parte da sua autora. Exposição. Verdade.
Na linguagem tem a sua música. As suas escolhas. Uma pontuação própria. Um sentir da língua, em balanço, em movimento.
Tenho uma teoria: um livro interessante tem de partir de alguém interessante. E este livro é mais uma demonstração desta minha teoria. Quanto deste livro é esta autora? O que pensa? Como pensa? O que observa? O que encontra? Que detalhes? Que linguagem? Que relações estabelece entre tudo?
O livro beneficia de toda essa riqueza.
Por todas estas razões, e aquelas ainda por descobrir (porque cada leitor fará o seu livro), é uma boa ideia ler este “A respiração do tempo”.

Mónia Camacho

XXIV

XXIV

Finalmente entendi
Por que motivo algumas pessoas se suicidam.

Foi ontem:
Acordei abruptamente e soube que não conseguiria voltar a dormir.
Soube que tudo o que havia a fazer era deixar-me estar quieto.
Esperar.
Sentir o tempo passar
E remoer os pensamentos.
Os mesmos pensamentos de sempre,
Um após outro.
O desfile completo,
Previsível,
Imparável.

Remoê-los devagarinho uma vez mais.
E uma vez mais,
Chegar a lado nenhum.

Será que algum pensamento pode
Algum dia
Conduzir a algum lado?

O meu sonho maior é conseguir dormir
E durante o sono sonhar que estou acordado e livre de pensamentos.

Mas o desfile nunca pára.
E há momentos,
Como ontem,
Quando acordei abruptamente e percebi que não conseguiria voltar a dormir,
Há momentos
Em que fico um pouco desesperado.

Só um pouco.
Mas e se um dia ficar muito?

Foi então que telefonei para te dizer:
Finalmente entendi
Por que motivo algumas pessoas se suicidam.

É quando o pouco se transforma em muito.

Sim,
Eram quatro da manhã e estavas a dormir.
Mas a pergunta não me saía da cabeça,
Precisava de verbalizá-la:
E se um dia ficar muito desesperado?

Desligaste o telefone,
Voltaste a dormir.
O que sonhaste?

E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

[a poesia inquietante de Paulo Kellerman]

E quando acabarem as perguntas?

E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

de Paulo Kellerman


O Paulo tem a poesia no olhar, e tem a capacidade de criar inúmeras imagens com as palavras: imagens belas, todas, algumas terríveis em sua beleza. Gosto de como fala das relações humanas (e nos poemas não é diferente); de como o relacionar-se com o outro envolve o relacionar-se consigo mesmo. E do tom melancólico que os poemas carregam, mesmo que de forma muito sutil (junto com a sedução, a paixão, a curiosidade, a leveza). No livro, há uma busca interna profunda, desesperançada até, mas há também a vontade de seguir… porque não se pode abandonar a morte (das coisas, das relações, dos momentos, a nossa), porque isso seria abandonar a vida (com tudo o que ela provoca e permite). Vida e morte, sempre juntas; a angústia disso, a plenitude disso.

Ilustração: Maraia

Sempre eu

Importa que em tudo o que eu venha a ser, seja sempre eu.”

Mónia Camacho (Partes íntimas)