O merecimento é um limoeiro

A luz entra, finalmente, pelas janelas, como fagulhas nos olhos de quem quer muito dizer coisas terríveis, amargas, verdadeiras, mas tem medo do fogo. O fogo também tem medo do fogo, como não. Orienta-me aí uma Fénix, exclama-lhe o pensamento, depois de ter dito, um dia, que nada há mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas. Mas enfim, não há Fénix nem leão de Nemeia.

A nuca sabe sempre melhor, sabe mais do que os sapos que lhe nasceram nos olhos, pela manhã, quando se levantou só por milagre. Isto é sobre a luz a entrar pelas janelas mas também podia ser sobre o pecado que é desaparecer sem bandeira e, como se não bastasse, sem música de fundo.

Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)

Elementar

Esta casa mais ou menos habitável
um prego entre paredes
onde existem sombras chinesas que
são ora uma escarpa
ora um amolador

-um beco sem saída.

    O que eu quero dizer é que não há nada
    mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas.

    Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)

    LATITUDES

    LATITUDES, este encontro afinado entre texto e imagem, entre hemisférios, entre países, entre estações, entre mulheres e seus afetos.

    Cristina Vicente e Ana Gilbert

    FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5683

    Hoje, na publicação # 5683 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a parceria é com a querida Sandra Francisco

    Tu não sabes o que é a dor

    Por mais que a cicatriz me dilacere
    De cima a baixo
    Eu também não

    Quis fazer de mim o teu colo
    Entrelaçar-me no teu coração
    Aninhar-te entre quimeras
    E beijar-te os impossíveis

    Tão cedo
    Tão perto
    Tão aqui
    Tão fundo

    Tu não devias saber o que é a dor

    Quero acordar-te devagarinho
    Dizer-te que foi só um pesadelo
    Levar-te para longe

    Ao menos, deixa-me ser eu
    A calar-te os gemidos
    A varrer-te os dias trágicos

    No sal das lágrimas
    Quando os sentidos te espancarem
    Rasgamo-nos juntos
    Retalhos dum só

    …..

    You do not know what pain is

    However deeply the scar tears me open
    From top to bottom
    Neither do I

    I wished to become your shelter
    To entwine myself within your heart
    To cradle you among chimeras
    And kiss your impossibilities

    So soon
    So close
    So here
    So deep

    You should never have to know what pain is

    I want to wake you gently
    Tell you it was only a nightmare
    Carry you far away

    At least let me be the one
    To quiet your cries
    To sweep away your tragic days

    In the salt of tears
    When your senses beat you down
    We are torn, together
    Shreds of one

    Texto | Text: Sandra Francisco
    Fotografia | Photography: Ana Gilbert

    Fotografar palavras, este projeto trabalhosamente simples, criado e coordenado pelo amigo Paulo Kellerman e recriado diariamente por todos nós, faz 10 anos. Há muito o que celebrar!

    Tempo

    Time falls gently on us. And sometimes it feels like we can hold it between our fingers.

    O tempo cai suavemente sobre nós. E por vezes, parece que conseguimos segurá-lo entre os dedos.

    Paulo Kellerman | Portable link

    9 anos de sutilezas…

    SUTILEZAS DO OLHAR | 9

    Nove anos do blog.
    Por vezes, pergunto-me se um blog ainda faz sentido. Nesses momentos, é como se fosse apenas uma voz perdida no vazio de um tempo de excessos que me é estranho. Contudo, a resposta que encontro dentro de mim ainda é um sim.

    Um sim ao tempo lento da contemplação que parece tão obsoleta. Sim ao amor pelas palavras e pelas imagens. Pelas palavras-imagens. Um sim às pessoas; à crença inabalável de que é e será sempre a relação que nos sustentará a humanidade.

    Obrigada às pessoas que por aqui passam e deixam um tanto de si: olhares, comentários, curtidas, silêncios, respiração. Humanidade. Sem vocês, seria mais difícil.

    “ Um corpo que não é visto desaparece?”
    Georges Didi-Huberman

    …..

    Nine years of the blog.
    Sometimes, I wonder whether a blog still makes sense. In those moments, it feels as though it were merely a voice lost in the void of an age of excesses that feels foreign to me. Yet the answer I find within myself is still yes.

    Yes to the slow pace of contemplation, which seems so obsolete. Yes to a love of words and images. Of word-images. Yes to people; to the unshakable belief that it is, and always will be, human connection that sustains our humanity.

    Thank you to those who pass through here and leave a little of themselves behind: their gaze, their comments, their likes, their silences, their breath. Humanity. Without you, it would be harder.

    “Does a body that is not seen disappear?”
    Georges Didi-Huberman

    Na noturna claridade
    me esqueci
    que nunca havias nascido.

    Mia Couto [poemas escolhidos]

    A tosquia do peixe

    Rede social: onde o peixe é capturado sem perceber que está a ser capturado porque sempre achou que pertencer a um cardume o protegia. Glu glu glu. O peixe devia aprender com a ovelha: fazer parte do rebanho é apenas uma garantia de que será tosquiada; várias vezes. Méééé. 

    Shearing the Fish

    Social network: where the fish is caught without realizing it is being caught, because it always believed that belonging to a school would protect it. Glu glu glu. The fish should learn from the sheep: being part of the flock is merely a guarantee that it will be shorn — repeatedly. Baaaa.

    Paulo Kellerman

    Pessoas como casas

    People as houses

    E se fossem os sentimentos a escolherem as pessoas, tal como as pessoas escolhem as casas onde querem viver?
    E se as pessoas fossem, afinal, simples casas onde os sentimentos podem habitar?

    What if feelings chose people, just as people choose the houses they want to live in?
    What if people were, after all, simply houses where feelings could dwell?

    Paulo Kellerman

    Portable Link, projeto com Paulo Kellerman. Um diálogo entre literatura e fotografia, entre imagem e palavra.

    Your absence has made you more real, more authentic. Can you understand?

    A tua ausência tornou-te mais real, mais autêntica. Percebes isto?

    Text(o): Paulo Kellerman

    Portable link

    Que o ciúme não te adelgace

    Crescer nos acentos perpétuas cobras d’água e logo a seguir
    para que o ciúme não te adelgace
    Pela cauda desengomo-te virgulados alguns actos
    entre uma mornura de focinhos islandeses
    {rafeiras arfadas}
    e o inteira me prumares recatada.

    Tibar-nos, como se tiba a latina linguagem, julgo branco e impossível.

    Texto da Ana Sofia Elias e foto minha

    [do nosso baú imaginado de imagens e palavras ardentes]