Fotografar palavras #1661

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“Querido Ausente, espero que te encontres bem. Hoje fui mais cedo para o ensaio, o que me impossibilitou de ver o nosso homem jovem a olhar, furtivamente, o rio. Em contrapartida, estive muito tempo na rua. Sempre gostei de ruas, e não são raras as vezes, que sinto serem elas, as ruas, a observarem-me, e não o contrário. As ruas são uma espécie de entidade que pertence ao ar livre. Nelas, ouve-se de tudo. Listas de compras de supermercado, o preço de pneus, considerações futebolísticas, doenças, para além dos habituais “é a vida!”, “são todos uns ladrões” ou ” amanhã vai chover “. No regresso a casa, ouvi um homem dizer a outro:” São sempre os portugueses que lixam os portugueses. Mais ninguém. “Há coisas curiosas, como, por exemplo, o poder que algumas palavras têm de me transportar para outro lugar, sem qualquer autorização. O comentário sentencioso daquele português levou-me para Kafka. Para a sua história O Médico Rural. E perguntei -me quais são as regras gramaticais – caso existam – que explicam que um ser universal deverá ser como o médico rural que sai, no Inverno, da sua casa, para atender doentes que não querem ser curados mas, unicamente, serem salvos. O médico daquela história é dilacerado pelos camponeses. Não sei como as ruas fazem, querido Ausente, se calhar tapam os ouvidos e os olhos. Ou então, riem-se. Ou talvez se alimentem dos beijos dos outros. Minhas queridas ruas que tanto custaram a conquistar. 
Beijos da tua rapariga simples”
 
Projeto | Paulo Kellerman
Texto: Susana Sá
Fotos: Ana Gilbert

Fotografar palavras # 1621

Adormecia 3

“Adormecia, sempre, na esperança de que ao acordar o mundo aguardasse para ser tocado pela primeira vez. O estado mais puro de tudo. A perceção da inocência da espera que não sabe o que esperar. Respostas isentas de ensaios libertadas pelo que se fez sentir. Talvez, o único momento em que a verdade não saberia ser mentira…Adormecia a procurar no sonho a certeza da vida. A fuga de uma existência confundida na dos outros. E os outros confundidos no que são, retalhados pelo que querem ser, denunciam-se nas palavras privadas dos gestos que as fazem valer. Será que é por sermos tantos num só que vivemos impossibilitados de conhecer o nosso rosto? Aguentaríamos ver quem pensamos ocultar? 

Adormecia sem saber quem encontraria pela manhã. Sem saber qual a memória que lhe iria reger a mente ou quantas batidas lhe permitiria o coração. A imprevisibilidade que desperta o instinto e redescobre as emoções, transformando-nos em seres impossíveis de controlar. A surpresa de irmos onde nunca sequer deixámos encaminhar-se o pensamento. A compreensão do que sempre foi arrevesado. Vazio que aumenta assim que se consegue completar. 

Adormecia… Sossego da alma na calma do corpo…”

Fotografar palavras

Projeto | Paulo Kellerman

Texto | Catarina Vale

varanda

“Não havia pedaço da velha varanda fora do lugar. O musgo bebia as manhãs. Em frente à grade férrea, a pedra segurava o vento. As portas esverdeavam. Atrás delas, Maria respirava.
Abaixo o degrau rochoso coberto pelo tempo, uma erva daninha tomava posse. Crescia, crescia como se tivesse nascido apenas para isso. Cada dia uma nova folha, um caminho a se abrir no meio da pedreira. Subia pela escada ao encontro de Maria.
Velha, de olhos vivos enxergava pouco. Abria-se para dentro. Só saía de manhã. Gostava de ouvir o sol. O vermelho sangue e o laranja chegavam quietos. Depois descascavam. O amarelo brilhante ofuscava de vez a noite. Mas era ruidoso e Maria voltava para a casa de portas verde oliva.
Por muito tempo, não gostou de pensar em origens. As suas eram as dos outros. Passou a viver ali, quando as crianças dos patrões nasceram. No dia em que fez 15 anos, o pai dos meninos foi embora.
Bordou a toalha de linho, que hoje amarela esquecida, enquanto a patroa tecia outro filho. Era sempre o marco. Delimitava terras alheias.
Talvez, havia amor nisso.
Agora, alguém nascia por ela. Primeiro debaixo da pedra. Respirava forte, a erva daninha. Rachou o topo da escada e pela varanda veio à luz. Crescia para Maria, somente para ela. Cada dia mais perto, a velha a percebeu quando foi ouvir o sol. A erva se aninhou no arco de seu pé. Ao toque da pele calejada, amaciou-se entre os dedos. Subiu as pernas. Tomou as suas cavidades. 
Maria não se movia. Já não era uma. Imaginava-se flor por toda parte. O corpo talhado.
A varanda silvestre mergulhava no último amanhecer. As portas oliva rangiam. A pedra não segurava mais o vento. E a mulher, cega dos dois olhos, nasceu de vez.”
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Projeto | Paulo Kellerman
Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Ana Gilbert

ave

Quando voou, percebeu o quanto cansada estava de andar. Dos passos que já não se faziam sentir, ruidosos nas voltas que davam anunciando chegadas adunadas em partidas. Cansada, dos lugares perfeitos ao olhar que apenas retinham o corpo. Da terra pisada por muitos fingindo apenas beijar os seus pés.
Talvez o céu guardasse um pedacinho só dela, onde o silêncio a fizesse despertar. Talvez uma nuvem onde repousasse o coração. Quando o coração repousa, desprovimo-nos de emoções. Os olhos ganham a cor da clareza encaixando peças nos puzzles que se recusam completar. Pedaços de vida que encaixotamos em saudade.
Talvez no céu existisse quem voasse como ela. Quem fizesse brotar nas mãos páginas que cevam o voo. Livros que se abrem, por desvelo, no capítulo que mais faz impelir. Asas de papel de estórias infinitas, reescritas por quem é, e sabe dar, felicidade.
Talvez, uma vez no céu, pudesse mudar as estrelas. Criar constelações que partilhassem o brilho com quem se quer encontrar. Por sermos reflexos de luz só somos visíveis a quem nos consegue iluminar. Um fundir de cores libertadas em sorrisos de genuínos sentimentos.
São aqueles que existem para além do sangue que percorre a carne, que saboreiam o azul  que envolve todos os outros. Talvez o céu pertença aos que voam pela sua essência de, somente, fazer voar…”

Fotografar palavras

Projeto | Paulo Kellerman

Texto | Catarina Vale