Ser

“Sou mais aquilo que em mim não é.”

Palavras | Clarice Lispector (A paixão segundo G. H.)

“Pareço ter perdido uma coisa não se sabe onde e quando.”

Palavras | Clarice Lispector (Um sopro de vida)

Dois anos de sutilezas…

Dois anos…

Obrigada a todos os que de alguma forma participaram deste percurso: aos que passaram rapidamente, aos que se demoraram, aos que conversaram, aos que me entregaram seus silêncios… porque o blog também se faz com os seus olhares…

Agora você vai ter que assumir as suas irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

(Manoel de Barros, Ensaios fotográficos)

 

 

Ponto

Texto | Ana Gilbert

Sou um ponto. Giro, giro, até perder-me. Retorno. Descubro, encontro. Perco. Perco sempre. E volto a encontrar (-me). Aqui.

(Foto e texto a partir da proposta de Inesa Markava, por ocasião da performance coreográfica na exposição “O mundo é redondo”, de Rachel Caiano.)

Texto | Ana Gilbert

Onde fica este lugar em mim quando me perco dele, simplesmente se desvanece ou continua a existir em segredo nesse nada, nesse mundo?

Best of

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Best of é o novo livro de Paulo Kellerman em parceria com a ilustradora Lisa Teles (Edição Escaravelho). São seis contos, seis gravuras, seis objetos. Palavras, texturas, traços, formas, cores. Materialidade que aguça os sentidos e a imaginação e provoca outras imagens, inúmeras, que se desdobram e convidam o leitor a continuar nelas (sim, porque os textos carreiam imagens), a explorá-las e a ir além.

O fio que une os textos e as imagens refere-se à busca de si, à consciência de si, ao susto da descoberta e à solidão intrínseca a esse processo. Os diálogos que acontecem entre o eu e o outro, um outro ao mesmo tempo externo e interno, revelam mundos separados, desencontros dolorosos, encontros às avessas, ânsia por intimidade e o medo dela. A angústia de ser quem se é convive com a busca pela liberdade de ser, de viver. As imagens e os textos nos fazem pensar em como nos percebemos ao sermos vistos por alguém, como nos mostramos, ou não, ao outro, como nos escondemos de nós; expectativas e decepções; anseios, vazios e obsessões; prazer. Tudo reunido e pensado num corpo, por vezes quase ausente (como se fosse possível), por vezes insuportavelmente presente.

Vazios (cheios de tanto!) que se disfarçam sob a forma de pensamentos, emoções, desejos, sonhos, fantasias; voláteis e impalpáveis como o ar, materiais e concretos como o ar. Silêncios que pesam e gritam para nós, sobre nós, que espantam-nos com as suas vozes assustadoramente familiares. Olhares que preenchem, que atravessam, que pedem, que tocam. Que veem.

Sabemos que texto e imagem compõem ‘substâncias’ diferentes, e não são mera reprodução um do outro. As belas ilustrações criam narrativas autônomas que, se por um lado oferecem novos sentidos aos textos, por outro, comportam, elas próprias, outros fios narrativos possíveis. Somos delicadamente capturados e surpreendemo-nos a perguntar, a imaginar, a olhar por cada uma dessas janelas.

Textos e imagens instigam, questionam, desassossegam. Enchem os olhos de poesia. E de algo mais.

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