
Existir na fenda do tempo.

Existir na fenda do tempo.



Hoje, no FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5585, a minha leitura em três atos do belo poema da Diana Erduíno.
Fotografar palavras, este espaço de arte, criado e coordenado pelo Paulo Kellerman, e que nos permite ser inúmeras ficções de nós, num processo de tradução inesgotável entre palavra-imagem-palavra.
Ela regressa lá.
Muitas vezes.
Todos os dias.
Aproxima-se da beira do poço. Olha-o com os mesmos olhos que o gato olha a sardinha: pretos, gordos, reluzentes, famintos.
Apetece-lhe saltar.
Muitas vezes.
Todos os dias.
Lençóis de alta linhagem para a receber. Brancos. Macios.
Quer sentir.
Muitas vezes.
Todos os dias.
Mas recua sempre, com a certeza de que parece fácil de mais.
Recua muitas vezes. Todos os dias.
Algum dia saltará.
…..
She returns there.
Often.
Every day.
She comes to the edge of the well. She looks at it with the same eyes a cat fixes on a sardine: black, round, gleaming, hungry.
She feels like jumping.
Often.
Every day.
Sheets of a noble kind to receive her. White. Soft.
She wants to feel.
Often.
Every day.
But she always steps back, certain it seems too easy.
She steps back often. Every day.
One day she will jump.
Texto | Text: Diana Erduino
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Como é que eu posso fazer de mim uma palavra?
Clarice Lispector


quem deixou sobre o coração um feixe de luz cega nunca
Valter Hugo Mãe (publicação da mortalidade)


A vida é assim, feita a golpes de pequenas solidões.
Roland Barthes (A câmara clara)


Nem sempre a aparente harmonia entre pessoas que vivem juntas significa intimidade.
The seeming harmony between those who share a life doesn’t always mean intimacy.
Text(o): Paulo Kellerman | Portable link

Alguém anda pela rua a fazer um questionário às pessoas que encontra. Apenas tem uma pergunta: és feliz?
Someone walks along the street conducting a survey among the people they meet. They have only one question: are you happy?
Text(o): Paulo Kellerman

Diz-me coisas que nunca ouvi.
Raul Brandão (Húmus)

Beijar-te as costas
Com a pele. As horas
São segundos.
O teu suspiro a minha
Respiração. A espera
É o ponto de partida.
És o tempo em suspenso.
[o belo poema de Jorge VAz Dias]

ou os pensamentos da matéria.





Sinto o sol no corpo. Por vezes é quanto basta: sentir o sol no corpo. Não chega a ser felicidade, mas quase.
I feel the sun on my body. Sometimes it is enough: to feel the sun on my body. It is not happiness, not quite, but almost.
Text(o): Paulo Kellerman | Portable link




Eu não sabia que o silêncio era uma espécie de paz.
Letrux (Brincadeiras à parte)