o último voo

Experimento abrir as asas, lentamente. A esquerda, em especial, a mais machucada das duas. Estico-a com cuidado, visualizo cada articulação, testo uma a uma. Repito o movimento e descubro: está inteira. Pensava-a morta ou agonizante. Percorro os dedos por toda a sua extensão: sinto dor em alguns pontos e a umidade espessa de sangue. A asa direita parece não requerer maiores cuidados; sinto-a mais leve, apesar de uma pulsação atordoada.

Tenho os olhos fechados, mas sou capaz de ver (ou imaginar?) as minhas velhas asas, as saliências por onde brotam nas costas. Ainda lembro o misto de espanto e tristeza quando descobri esses pequenos brotos em mim e percebi a condenação. O corpo, sinto-o inerte, exausto. A mente, em desalinho; sentimentos confusos que são como agulhas finas e longas provocam pequenos choques que estremecem as asas. Constato o fluir incessante da vida que grita dentro de mim. Não sei bem como cheguei até aqui depois do confronto. Um repouso no meio do nada que é a noite; o vazio que suspende a saudade. Entreabro os olhos e vejo a luz que desponta no horizonte. Fere. E com a visão, tomo consciência da sensação de desconforto do rosto contra a rocha ainda fria do hálito da madrugada. Estou só e a pele escassamente coberta deixa penetrar o frio por veias e artérias.

O canto agudo de um albatroz solitário, esse irmão de alma, transpassa o coração como uma flecha; chama-me de volta ao tempo, fala-me do meu destino. Viro-me com cuidado, tentando proteger os pulsos fragilizados. Com esforço, consigo sentar e encaro a vastidão do mar que se torna céu em algum ponto além. Rastejo até a beirada e vislumbro o abismo, bem perto de mim. É preciso continuar o voo; sei que não posso descansar por muito tempo. Levanto-me, abro as asas por completo. Ensaio movimentos. Ergo a cabeça, fecho os olhos; inspiro e expiro umas quantas vezes até ter a certeza de que os pulmões ainda sabem como respirar. E num ímpeto, lanço-me ao espaço, na explosão do grito, na vertigem do novo dia, sem saber ao certo se conseguirei sustentar-me.

Texto e foto | Ana Gilbert

Femininos pessoais | Autorretrato

Exposição Femininos pessoais | Autorretrato

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Exposição Femininos pessoais | Autorretrato

Exposição coletiva FEMININOS PESSOAIS | AUTORRETRATO
24 fotógrafas que utilizam o autorretrato como suporte de expressão.

Centro Cultural Justiça Federal | Rio de Janeiro
Abertura dia 19 de março de 2019, às 19 horas
Visitação 20 de março a 28 de abril de 2019 | terça a domingo, das 12 às 19 horas | Galerias do 2º andar

Curadoria Rococó Clean

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Nasci e moro no Rio de Janeiro, Brasil. Em paralelo às minhas atividades como psicóloga clínica e pesquisadora, desenvolvo trabalho autoral em fotografia. O gosto por essa forma de expressão artística surgiu a partir de estudos sobre o olhar, ligados à pesquisa acadêmica, como forma de testar novas perspectivas e de desafiar o risco sempre presente de cristalização e declínio da criatividade daí decorrente.

O interesse por imagens, palavras e imaginação, ferramentas do meu ofício, levou-me a trabalhar com o entrelaçamento entre fotografia e literatura. Corpo, dança (movimento) e fragmentos são temas que me são caros e neles me aprofundo em busca de desdobramentos narrativos.

As fotografias que fazem parte desta exposição integram ensaios de autorretratos. A escolha desse suporte de expressão tem como objetivo experimentar o corpo como ficção na sua relação com o mundo: a fluidez dos contornos do eu, a reverberação desses contornos no espaço, a possibilidade de contato com o outro. Corpo como ‘presença’ capaz de impactar outros corpos e os sentidos; corpo ficcionado que interpela e afeta.

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