O merecimento é um limoeiro

A luz entra, finalmente, pelas janelas, como fagulhas nos olhos de quem quer muito dizer coisas terríveis, amargas, verdadeiras, mas tem medo do fogo. O fogo também tem medo do fogo, como não. Orienta-me aí uma Fénix, exclama-lhe o pensamento, depois de ter dito, um dia, que nada há mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas. Mas enfim, não há Fénix nem leão de Nemeia.

A nuca sabe sempre melhor, sabe mais do que os sapos que lhe nasceram nos olhos, pela manhã, quando se levantou só por milagre. Isto é sobre a luz a entrar pelas janelas mas também podia ser sobre o pecado que é desaparecer sem bandeira e, como se não bastasse, sem música de fundo.

Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)

Elementar

Esta casa mais ou menos habitável
um prego entre paredes
onde existem sombras chinesas que
são ora uma escarpa
ora um amolador

-um beco sem saída.

    O que eu quero dizer é que não há nada
    mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas.

    Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)

    FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5748

    Hoje, no FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5748, a bonita parceria com a Goreti Cabecinhas.

    Hoje não queria abrir os olhos com medo de te perder outra vez… mas tu ficaste. E ficas. Ficas sempre em cada instante entre o sono e o dia, entre o teu coração e o meu, onde a saudade encontra forma, aconchego e colo.

    …

    Today I didn’t want to open my eyes afraid I might lose you once again… but you stayed. And you stay. You always stay in every moment between sleep and day, between your heart and mine, where longing finds form, warmth and shelter.

    Texto | Text: Goreti Cabecinhas
    Fotografia | Photography: Ana Gilbert

    FOTOGRAFAR PALAVRAS, nosso projeto lindo, criado e coordenado pelo amigo Paulo Kellerman, sempre a desafiar-nos, sempre a juntar pessoas e belezas.

    E as nossas exposições continuam até novembro, no m|i|mo, em Leiria, Portugal.
    Visitem!

    Autorretratos


    The practice of self-portraiture does not seek to answer the question ‘who am I?’, but rather to prevent it from ever having a definitive answer.

    A prática do autorretrato não busca responder à pergunta ‘quem sou eu?’, mas impedir que ela tenha uma resposta definitiva.

    FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5683

    Hoje, na publicação # 5683 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a parceria é com a querida Sandra Francisco

    Tu não sabes o que é a dor

    Por mais que a cicatriz me dilacere
    De cima a baixo
    Eu também não

    Quis fazer de mim o teu colo
    Entrelaçar-me no teu coração
    Aninhar-te entre quimeras
    E beijar-te os impossíveis

    Tão cedo
    Tão perto
    Tão aqui
    Tão fundo

    Tu não devias saber o que é a dor

    Quero acordar-te devagarinho
    Dizer-te que foi só um pesadelo
    Levar-te para longe

    Ao menos, deixa-me ser eu
    A calar-te os gemidos
    A varrer-te os dias trágicos

    No sal das lágrimas
    Quando os sentidos te espancarem
    Rasgamo-nos juntos
    Retalhos dum só

    …..

    You do not know what pain is

    However deeply the scar tears me open
    From top to bottom
    Neither do I

    I wished to become your shelter
    To entwine myself within your heart
    To cradle you among chimeras
    And kiss your impossibilities

    So soon
    So close
    So here
    So deep

    You should never have to know what pain is

    I want to wake you gently
    Tell you it was only a nightmare
    Carry you far away

    At least let me be the one
    To quiet your cries
    To sweep away your tragic days

    In the salt of tears
    When your senses beat you down
    We are torn, together
    Shreds of one

    Texto | Text: Sandra Francisco
    Fotografia | Photography: Ana Gilbert

    Fotografar palavras, este projeto trabalhosamente simples, criado e coordenado pelo amigo Paulo Kellerman e recriado diariamente por todos nós, faz 10 anos. Há muito o que celebrar!

    Vazio

    O tempo continuava suspenso, assim como os meus pensamentos. Uma forma de morte, talvez: nem percepção do tempo nem consciência da realidade. A mente completamente vazia.

    …..

    Time remained suspended, and so did my thoughts. Perhaps a form of death: no awareness of time, no consciousness of reality. The mind utterly empty.

    Paulo Kellerman | Portable link

    Fala

    Fala

    Tudo
    será difícil de dizer:
    a palavra real
    nunca é suave.

    Tudo será duro:
    luz impiedosa
    excessiva vivência
    consciência demais do ser.

    Tudo será
    capaz de ferir. Será
    agressivamente real.
    Tão real que nos despedaça.

    Não há piedade nos signos
    e nem no amor: o ser
    é excessivamente lúcido
    e a palavra é densa e nos fere.

    (Toda palavra é crueldade.)

    Orides Fontela

    Tempo

    Time falls gently on us. And sometimes it feels like we can hold it between our fingers.

    O tempo cai suavemente sobre nós. E por vezes, parece que conseguimos segurá-lo entre os dedos.

    Paulo Kellerman | Portable link