Time

“Time keeps flowing like a river to the sea.”

(The Alan Parsons Project)

Fotografar palavras #2104

“deve existir um alfabeto ou código para dizer
da camada indefinível que me leva a ti
do espanto
do conjunto em busca da harmonia que não quer chegar a ser
para se manter vontade
uma qualquer mistura dos silêncios em luz      entrecortados a bocas
e o corpo em desejo desenhado a mar e céu

vamos para ali
dito assim      meio lei meio convite

podia bem ser o era uma vez 
das histórias com corações apressados 
o murmúrio do grito de guerra      em amor
que desperta e incita

vamos
dito assim      sem som      a fazer caminhos”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Isabel Pires
Foto| Ana Gilbert

miose

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“avisto a extensão de negro em que depositas
o teu coração em forma de palavras
e perco as minhas pupilas para o mar:
troco as barcas por barcos
visto os pássaros de asas gigantes
agito as águas
empresto sopros ao vento…
 
às vezes o ondeado das dobras da seda
negro em filamentos entremeados de luz
não deixa ver a inclinação do eixo que diz das tuas estrelas”

Palavras | Isabel Pires (a permanência da memória dos dias de sal)

A borra

“Prefiro as palavras obscuras que moram nos 
fundos de uma cozinha – tipo borra, latas, cisco 
Do que as palavras que moram nos sodalícios – 
tipo excelência, conspícuo, majestade. 
Também os meus alter egos são todos borra, 
ciscos, pobres-diabos 
Que poderiam morar nos fundos de uma cozinha – tipo Bola Sete, Mário Pega Sapo, Maria Pelego Preto etc. 
Todos bêbedos ou bocós. 
E todos condizentes com andrajos. 
Um dia alguém me sugeriu que adotasse um 
alter ego respeitável – tipo um príncipe, um 
almirante, um senador. 
Eu perguntei: 
Mas quem ficará com os meus abismos se os 
pobres-diabos não ficarem?”

Palavras | Manoel de Barros (Ensaios fotográficos)

Toque

“E, de seguida, senti os seus dedos tocarem-me ao de leve, enchendo de tinta negra os contornos da minha cabeça.”

Palavras | Al Berto (O anjo mudo)

“Não há nada mais temível do que o tempo que pára, ficamos iguais para sempre e essa é a maior desgraça.”

Palavras | Afonso Cruz (Para onde vão os guarda-chuvas)

“Nada do que somos nos pertence.”

Texto: Elsa Margarida Rodrigues

o último voo

Experimento abrir as asas, lentamente. A esquerda, em especial, a mais machucada das duas. Estico-a com cuidado, visualizo cada articulação, testo uma a uma. Repito o movimento e descubro: está inteira. Pensava-a morta ou agonizante. Percorro os dedos por toda a sua extensão: sinto dor em alguns pontos e a umidade espessa de sangue. A asa direita parece não requerer maiores cuidados; sinto-a mais leve, apesar de uma pulsação atordoada.

Tenho os olhos fechados, mas sou capaz de ver (ou imaginar?) as minhas velhas asas, as saliências por onde brotam nas costas. Ainda lembro o misto de espanto e tristeza quando descobri esses pequenos brotos em mim e percebi a condenação. O corpo, sinto-o inerte, exausto. A mente, em desalinho; sentimentos confusos que são como agulhas finas e longas provocam pequenos choques que estremecem as asas. Constato o fluir incessante da vida que grita dentro de mim. Não sei bem como cheguei até aqui depois do confronto. Um repouso no meio do nada que é a noite; o vazio que suspende a saudade. Entreabro os olhos e vejo a luz que desponta no horizonte. Fere. E com a visão, tomo consciência da sensação de desconforto do rosto contra a rocha ainda fria do hálito da madrugada. Estou só e a pele escassamente coberta deixa penetrar o frio por veias e artérias.

O canto agudo de um albatroz solitário, esse irmão de alma, transpassa o coração como uma flecha; chama-me de volta ao tempo, fala-me do meu destino. Viro-me com cuidado, tentando proteger os pulsos fragilizados. Com esforço, consigo sentar e encaro a vastidão do mar que se torna céu em algum ponto além. Rastejo até a beirada e vislumbro o abismo, bem perto de mim. É preciso continuar o voo; sei que não posso descansar por muito tempo. Levanto-me, abro as asas por completo. Ensaio movimentos. Ergo a cabeça, fecho os olhos; inspiro e expiro umas quantas vezes até ter a certeza de que os pulmões ainda sabem como respirar. E num ímpeto, lanço-me ao espaço, na explosão do grito, na vertigem do novo dia, sem saber ao certo se conseguirei sustentar-me.

Texto e foto | Ana Gilbert