
Os teus olhos entraram pela fresta da manhã.

Os teus olhos entraram pela fresta da manhã.

Qualquer artefato é um prolongamento da vontade de fazer casa, do desejo de transformar o mundo para poder habitar.
Emanuele Coccia (Filosofia da casa, 2024)

não podemos nos descuidar.

A luz entra, finalmente, pelas janelas, como fagulhas nos olhos de quem quer muito dizer coisas terríveis, amargas, verdadeiras, mas tem medo do fogo. O fogo também tem medo do fogo, como não. Orienta-me aí uma Fénix, exclama-lhe o pensamento, depois de ter dito, um dia, que nada há mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas. Mas enfim, não há Fénix nem leão de Nemeia.
A nuca sabe sempre melhor, sabe mais do que os sapos que lhe nasceram nos olhos, pela manhã, quando se levantou só por milagre. Isto é sobre a luz a entrar pelas janelas mas também podia ser sobre o pecado que é desaparecer sem bandeira e, como se não bastasse, sem música de fundo.
Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)

Esta casa mais ou menos habitável
um prego entre paredes
onde existem sombras chinesas que
são ora uma escarpa
ora um amolador
-um beco sem saída.
O que eu quero dizer é que não há nada
mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas.
Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)




Hoje, no FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5748, a bonita parceria com a Goreti Cabecinhas.
Hoje não queria abrir os olhos com medo de te perder outra vez… mas tu ficaste. E ficas. Ficas sempre em cada instante entre o sono e o dia, entre o teu coração e o meu, onde a saudade encontra forma, aconchego e colo.
…
Today I didn’t want to open my eyes afraid I might lose you once again… but you stayed. And you stay. You always stay in every moment between sleep and day, between your heart and mine, where longing finds form, warmth and shelter.
Texto | Text: Goreti Cabecinhas
Fotografia | Photography: Ana Gilbert
FOTOGRAFAR PALAVRAS, nosso projeto lindo, criado e coordenado pelo amigo Paulo Kellerman, sempre a desafiar-nos, sempre a juntar pessoas e belezas.
E as nossas exposições continuam até novembro, no m|i|mo, em Leiria, Portugal.
Visitem!







A prática do autorretrato não busca responder à pergunta ‘quem sou eu?’, mas impedir que ela tenha uma resposta definitiva.




fotografias: Ana Gilbert
poemas: Jorge VAz Dias
edição limitada e numerada
encomendas (Brasil e Portugal): DM
(prontinhos para entrega)



…ou os pensamentos da matéria
The secret life of things or the thoughts of matter
(series)

Hoje, na publicação # 5683 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a parceria é com a querida Sandra Francisco
Tu não sabes o que é a dor
Por mais que a cicatriz me dilacere
De cima a baixo
Eu também não
Quis fazer de mim o teu colo
Entrelaçar-me no teu coração
Aninhar-te entre quimeras
E beijar-te os impossíveis
Tão cedo
Tão perto
Tão aqui
Tão fundo
Tu não devias saber o que é a dor
Quero acordar-te devagarinho
Dizer-te que foi só um pesadelo
Levar-te para longe
Ao menos, deixa-me ser eu
A calar-te os gemidos
A varrer-te os dias trágicos
No sal das lágrimas
Quando os sentidos te espancarem
Rasgamo-nos juntos
Retalhos dum só
…..
You do not know what pain is
However deeply the scar tears me open
From top to bottom
Neither do I
I wished to become your shelter
To entwine myself within your heart
To cradle you among chimeras
And kiss your impossibilities
So soon
So close
So here
So deep
You should never have to know what pain is
I want to wake you gently
Tell you it was only a nightmare
Carry you far away
At least let me be the one
To quiet your cries
To sweep away your tragic days
In the salt of tears
When your senses beat you down
We are torn, together
Shreds of one
Texto | Text: Sandra Francisco
Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Fotografar palavras, este projeto trabalhosamente simples, criado e coordenado pelo amigo Paulo Kellerman e recriado diariamente por todos nós, faz 10 anos. Há muito o que celebrar!

com Jorge VAz Dias

O tempo continuava suspenso, assim como os meus pensamentos. Uma forma de morte, talvez: nem percepção do tempo nem consciência da realidade. A mente completamente vazia.
…..
Time remained suspended, and so did my thoughts. Perhaps a form of death: no awareness of time, no consciousness of reality. The mind utterly empty.

Fala
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
Orides Fontela