
com Jorge VAz Dias

com Jorge VAz Dias

Fala
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
Orides Fontela
PELE ADENTRO fala de encontro, aproximação, sedução, realização, afastamento.
Viagem que guia o(a) leitor(a) das coisas do mundo ao centro da intimidade e, depois, de volta a ele, num processo de eterno retorno em que a alma acompanha as formas do corpo e a magnitude da descoberta.
Texto e imagem dialogam, numa dança sinuosa de afetos que atravessam, tensionam e conectam.
Alimento e falta. Acima de tudo, pulsação.
Que se sente na pele.
Fotografias: Ana Gilbert
Poemas: Jorge VAz Dias
Design gráfico do querido Licínio Florêncio
A competência na Impressão a cargo da Arte Ampliada
A delicadeza e o cuidado, exemplar a exemplar, da encadernação artesanal da Eliana Yukawa e Yume Ateliê & Design
edição numerada
encomendas (Brasil e Portugal)

oscilafulge
única
centrando
na oscilação a
fuga
que a transporta
Orides Fontela


quem deixou sobre o coração um feixe de luz cega nunca
Valter Hugo Mãe (publicação da mortalidade)

Quinta-feira é um dia transparente como asa de inseto na luz.
Clarice Lispector (Água viva)
Vem à quinta-feira.
Filipa Leal

no cibercafé e-amantes
aberto vinte e quatro horas
um homem alista-se
defronte do ecră todas as noites
para morrer
não se lembra da última vez
que dormiu ou sonhou
talvez se lembre de ter sonhado
com a própria morte
às vezes a vida é um pedaço
de uma terra imaginária
onde não é preciso passaporte
para se ser livre
o sonho de uma fuga possível
para onde cintila
o abraço líquido das luzes.
Hélder Magalhães (Nunca estiveste aqui)


I wake up and wonder
How many times I have already kissed you.
It is the first thought of the day,
And I dedicate myself to it for a few minutes.
I count kisses.
And you lay by my side.
I could kiss you,
But I do not do it because I prefer to keep thinking
About kissing you.
And this says so much about me.
Poem by Paulo Kellerman


Como se te perdesse, assim te quero.
Hilda Hilst

Beijar-te as costas
Com a pele. As horas
São segundos.
O teu suspiro a minha
Respiração. A espera
É o ponto de partida.
És o tempo em suspenso.
[o belo poema de Jorge VAz Dias]

Me queimo em sonhos, tocando estrelas.
Hilda Hilst (De amor tenho vivido)

procuro-te nas sombras
desenho-te de olhos fechados
sinto a brisa que me envolve
quase como um abraço.
Andreia Peixoto (Inquietação)

Triturei os últimos dias
dispu-los numa linha
e inalei-os como cocaína
A felicidade pode ser endógena
Os dias,
substâncias químicas:
uma droga.
E eu encontrei um bom dealer.
Ana Sofia Elias (Uca, 2024)
[ensaio com a Ana Sofia Elias]

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Mia Couto [poemas escolhidos]

Na noturna claridade
me esqueci
que nunca havias nascido.
Mia Couto [poemas escolhidos]

Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces
Mia Couto [poemas escolhidos]

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.
Mia Couto [poemas escolhidos]

Uma gota de noite oxida-me a boca.
Al Berto (O anjo mudo)