Quinta-feira

Quinta-feira é um dia transparente como asa de inseto na luz.

Clarice Lispector (Água viva)

Vem à quinta-feira.

Filipa Leal

Abraço líquido

no cibercafé e-amantes
aberto vinte e quatro horas
um homem alista-se
defronte do ecră todas as noites
para morrer
não se lembra da última vez
que dormiu ou sonhou
talvez se lembre de ter sonhado
com a própria morte
às vezes a vida é um pedaço
de uma terra imaginária
onde não é preciso passaporte
para se ser livre
o sonho de uma fuga possível
para onde cintila
o abraço líquido das luzes.

Hélder Magalhães (Nunca estiveste aqui)

XII

I wake up and wonder
How many times I have already kissed you.

It is the first thought of the day,
And I dedicate myself to it for a few minutes.

I count kisses.

And you lay by my side.
I could kiss you,
But I do not do it because I prefer to keep thinking
About kissing you.

And this says so much about me.

Poem by Paulo Kellerman

Beijar-te

Beijar-te as costas
Com a pele. As horas
São segundos.
O teu suspiro a minha
Respiração. A espera
É o ponto de partida.
És o tempo em suspenso.

[o belo poema de Jorge VAz Dias]

procuro-te

procuro-te nas sombras
desenho-te de olhos fechados
sinto a brisa que me envolve
quase como um abraço.

Andreia Peixoto (Inquietação)

Contrabandista

Triturei os últimos dias
dispu-los numa linha
e inalei-os como cocaína

A felicidade pode ser endógena

Os dias,
substâncias químicas:
uma droga.

E eu encontrei um bom dealer.

Ana Sofia Elias (Uca, 2024)

[ensaio com a Ana Sofia Elias]

O meu nome

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Mia Couto [poemas escolhidos]

Na noturna claridade
me esqueci
que nunca havias nascido.

Mia Couto [poemas escolhidos]

Desencontro (1)

Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces

Mia Couto [poemas escolhidos]

A demora

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto [poemas escolhidos]

Uca

UCA, o livro de Ana Sofia Elias, é viagem demorada, sem volta.
Lisérgica.
Uca é desajuste.
É dor partilhada, sonho segredado, fantasia projetada.
Uca é pausa, lugar de descanso inquieto, de entrega temerosa. E prazerosa.
Uca é desafio da fala, é dança cantada.
Dança das palavras, por vezes, descompassada.
É grito mudo.
Ensurdecedor.
É beleza delicada e pulsante.
É toque sutil. Por vezes, soco no estômago.
Desdobra-nos pelo caminho e já não conseguimos refazer o origami que um dia fomos.

Uca é Ana.
E esta Ana que escreve espelha a Ana que escreveu.

Anas em voo livre.

***

Escantilhão

Quando eu nasci
Deus entregou-me um escantilhão e, desde esse dia, tenho sido uma recortadora de vida
Sigo entretida
a passá-la por um escantilhão
e a ser escantilhada por ela

Esse tal Deus que não tem nome – mas desceu para me visitar –
deu-me olhos de lince
e fome de me deslumbrar

    Os olhos de lince servem para
    caçar as coisas delicadas
    que gostam de brincar às escondidas
    com os meros mortais
    para quem elas passam despercebidas
    e desiguais

    O Deus anónimo
    também me deu mãos de violino
    para fabricar delicadezas a partir da cidade que me rodeia
    e o que me rodeia é esta sala que faz parte desta casa
    que habita neste bairro
    que um dia, tal como eu, também nasceu desta cidade

    Mas este poema não é sobre o meu nascimento
    É sobre a minha chegada
    Hoje eu sou aquela que chega a ela própria que aterra em si

    Hoje
    eu sou aquela que carrega os intestinos nos olhos
    е a garganta nas mãos

    Faço a digestão de todos as montras do mundo
    através dos olhos
    E respiro o mundo dos coisas e das cidades pelos pulmões das mãos.

    O delicado é
    o meu fado.

    Ana Sofia Elias (Uca, 2024)