Pele Adentro

PELE ADENTRO fala de encontro, aproximação, sedução, realização, afastamento.
Viagem que guia o(a) leitor(a) das coisas do mundo ao centro da intimidade e, depois, de volta a ele, num processo de eterno retorno em que a alma acompanha as formas do corpo e a magnitude da descoberta.
Texto e imagem dialogam, numa dança sinuosa de afetos que atravessam, tensionam e conectam.
Alimento e falta. Acima de tudo, pulsação.
Que se sente na pele.

Fotografias: Ana Gilbert
Poemas: Jorge VAz Dias

Design gráfico do querido Licínio Florêncio
A competência na Impressão a cargo da Arte Ampliada
A delicadeza e o cuidado, exemplar a exemplar, da encadernação artesanal da Eliana Yukawa e Yume Ateliê & Design

edição numerada
encomendas (Brasil e Portugal)

Oscila

oscilafulge
única
centrando
na oscilação a
fuga
que a transporta

Orides Fontela

Quinta-feira

Quinta-feira é um dia transparente como asa de inseto na luz.

Clarice Lispector (Água viva)

Vem à quinta-feira.

Filipa Leal

Abraço líquido

no cibercafé e-amantes
aberto vinte e quatro horas
um homem alista-se
defronte do ecră todas as noites
para morrer
não se lembra da última vez
que dormiu ou sonhou
talvez se lembre de ter sonhado
com a própria morte
às vezes a vida é um pedaço
de uma terra imaginária
onde não é preciso passaporte
para se ser livre
o sonho de uma fuga possível
para onde cintila
o abraço líquido das luzes.

Hélder Magalhães (Nunca estiveste aqui)

XII

I wake up and wonder
How many times I have already kissed you.

It is the first thought of the day,
And I dedicate myself to it for a few minutes.

I count kisses.

And you lay by my side.
I could kiss you,
But I do not do it because I prefer to keep thinking
About kissing you.

And this says so much about me.

Poem by Paulo Kellerman

Beijar-te

Beijar-te as costas
Com a pele. As horas
São segundos.
O teu suspiro a minha
Respiração. A espera
É o ponto de partida.
És o tempo em suspenso.

[o belo poema de Jorge VAz Dias]

procuro-te

procuro-te nas sombras
desenho-te de olhos fechados
sinto a brisa que me envolve
quase como um abraço.

Andreia Peixoto (Inquietação)

Contrabandista

Triturei os últimos dias
dispu-los numa linha
e inalei-os como cocaína

A felicidade pode ser endógena

Os dias,
substâncias químicas:
uma droga.

E eu encontrei um bom dealer.

Ana Sofia Elias (Uca, 2024)

[ensaio com a Ana Sofia Elias]

O meu nome

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Mia Couto [poemas escolhidos]

Na noturna claridade
me esqueci
que nunca havias nascido.

Mia Couto [poemas escolhidos]

Desencontro (1)

Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces

Mia Couto [poemas escolhidos]

A demora

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto [poemas escolhidos]