Do desencanto

Das coisas fascinantes do Projeto Fotografar palavras do escritor Paulo Kellerman: receber um texto para fotografar e, quando da publicação, descobrir que ele já compõe uma narrativa com outra foto e que a minha foto se alinha e complementa essa narrativa com surpreendente harmonia de elementos.

[dum lugar íntimo do desencanto]
todos os nossos passos decolam em direção ao caos
eu até parece que danço — mas condenso, só
eu até parece que passo — mas espaço, só


Texto | calí boreaz
Foto de partida: Nita Ferreira
Foto de chegada: Ana Gilbert

Texto | Ana Gilbert

Junto palavras como cacos, pedaços de mim que se perderam no tempo, que esvoaçam levados pela brisa, que se perpetuam nos ecos do mundo.

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“A barca vai longe
O rio é turvo
Os peixes são muitos
O rio para
O rio escuta
Lodo e lama

O remo firma
O barco corre
De costas

Pequeno passarinho
Pousa em minha janela
E olha
E mira
Rechaço

Não traz folha de oliveira
Nem terra
Traz água, amigo
Traz mar

E voa”

Fotografar palavras

Projeto | Paulo Kellerman
Palavras | Lorena Kim Richter

Primeiro azul do ano…

Primeiro azul 2019

“As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
 
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.”

Palavras | Carlos Drummond de Andrade

A casa

a casa bl

I

Tentava escrever

com a minha mão direita,
com a minha mão esquerda, alma corpo inteiro

[a casa, os movimentos da casa, a casa]

o osso aparente
a vértebra em silêncio,

a côdea dura do lume apagado. Tentava escrever o resíduo
a dobra da cal

descosida da sombra, a sépia

como se em silêncio o vestígio da casa
pudesse acontecer
enquanto

escrevia. E escrevia

escrevia a janela, a luz, a pedra, a brisa
o sopro da cinza vaga do livro

[era azul poema, o livro]

a mesa aberta às sobras do norte, a poalha
transparente

o sopro agitado
[nesse lume obediente]

que sabe como arder na manhã áspera

devagar. Escrevia

II

e enquanto tentava escrever
acontecia

a casa.

…………

de | esboço para | a casa

Palavras: Breve Leonardo

Auto-retrato 42

“O que fazer se a morte é um eterno estado de consciência, restrito a observar em silêncio essa escuridão?”

Palavras | Haruki Murakami (Sono)

da palavra à imagem, da imagem à palavra

Perdida
no vazio das coisas
no azul dos ladrilhos

em meio ao ruído
abafado da música
desconexo das pessoas.

Palavras | Ana Gilbert

Memória do corpo

“Como fazes quando precisas tocar as tuas próprias memórias? Tocar-lhes mesmo, com a ponta dos dedos?”

Palavras| Paulo Kellerman

da palavra à imagem, da imagem à palavra

quero tocar-me.
a minha pele
onde guardo as memórias,
(quais?)
nela, o que sei de mim
toco-me.
mas a pele é inalcançável,
etérea,
presença feita de luz
toco-me.
mas é superfície fria contra a pele quente
(sinto)
invento lembranças marcas feridas
e flores
toco-me.
no lugar onde não posso estar
(presença fugidia)
para, quem sabe,
existir em mim.

Palavras| Ana Gilbert

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[…]
na alma
nem todo vento
sopra na igualdade
na calma
nem todo tempo
se repete de verdade
ou isso só acontece
aqui dentro de mim?

Palavras | Lino Mukurruza (Almas em tácitas)