

quem deixou sobre o coração um feixe de luz cega nunca
Valter Hugo Mãe (publicação da mortalidade)


quem deixou sobre o coração um feixe de luz cega nunca
Valter Hugo Mãe (publicação da mortalidade)

Quinta-feira é um dia transparente como asa de inseto na luz.
Clarice Lispector (Água viva)
Vem à quinta-feira.
Filipa Leal

no cibercafé e-amantes
aberto vinte e quatro horas
um homem alista-se
defronte do ecră todas as noites
para morrer
não se lembra da última vez
que dormiu ou sonhou
talvez se lembre de ter sonhado
com a própria morte
às vezes a vida é um pedaço
de uma terra imaginária
onde não é preciso passaporte
para se ser livre
o sonho de uma fuga possível
para onde cintila
o abraço líquido das luzes.
Hélder Magalhães (Nunca estiveste aqui)


I wake up and wonder
How many times I have already kissed you.
It is the first thought of the day,
And I dedicate myself to it for a few minutes.
I count kisses.
And you lay by my side.
I could kiss you,
But I do not do it because I prefer to keep thinking
About kissing you.
And this says so much about me.
Poem by Paulo Kellerman


Como se te perdesse, assim te quero.
Hilda Hilst

Beijar-te as costas
Com a pele. As horas
São segundos.
O teu suspiro a minha
Respiração. A espera
É o ponto de partida.
És o tempo em suspenso.
[o belo poema de Jorge VAz Dias]

Me queimo em sonhos, tocando estrelas.
Hilda Hilst (De amor tenho vivido)

procuro-te nas sombras
desenho-te de olhos fechados
sinto a brisa que me envolve
quase como um abraço.
Andreia Peixoto (Inquietação)

Triturei os últimos dias
dispu-los numa linha
e inalei-os como cocaína
A felicidade pode ser endógena
Os dias,
substâncias químicas:
uma droga.
E eu encontrei um bom dealer.
Ana Sofia Elias (Uca, 2024)
[ensaio com a Ana Sofia Elias]

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Mia Couto [poemas escolhidos]

Na noturna claridade
me esqueci
que nunca havias nascido.
Mia Couto [poemas escolhidos]

Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces
Mia Couto [poemas escolhidos]

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.
Mia Couto [poemas escolhidos]

Uma gota de noite oxida-me a boca.
Al Berto (O anjo mudo)

com Jorge VAz Dias

Around us fear, descending
Darkness of fear above
And in my heart how deep unending
Ache of love
James Joyce (Poems and shorter writings)

no espelho | de relance | a cor do sonho | de ontem
Paulo Leminski