Entressonho

Texto Ana Gilbert

Acordo. Sem vontade. Quero apenas ficar na cama um pouco mais. Não sei o que pensar, não consigo pensar, não quero pensar. Quero apenas dormir. Quero tanto. Mas algo em mim não deixa que me entregue à fuga do esquecimento. Senso de obrigação? Ou um resto de força? Espio devagarinho para fora de mim. Tento, pelo menos. Espreguiço-me, um espreguiçar mecânico, sem prazer. Continuo do lado de dentro. Levanto. Não sei qual roupa vestir para trabalhar e isso torna-se paralisante. Fico a olhar as roupas, à espera, talvez, de que uma se ofereça para que a vista. Mas, claro, isso não acontece. Fico durante um tempo a olhar o vazio. Não tenho fome, talvez uma ponta de enjoo; desânimo é o que tenho e me entrego a ele. O mundo gira na velocidade do meu desânimo: lento, os sons distorcidos por uma rotação alterada. Eterna. Afinal, termino de vestir a roupa que mecanicamente apanhei no armário e agora já não há tempo para mais. Ignoro o espelho: desisto de conferir as olheiras que sei que tenho, o vazio do olhar, a pergunta; não quero ver a roupa um pouco amarfanhada, falta-me paciência para esses pequenos detalhes. Ou cuidados comigo. É tarde e saio apressada, tentando me ajustar à velocidade do mundo.

Ao chegar à rua, caminho entressonhada, num recitar melancólico de tarefas a cumprir. Ao virar a esquina, o impacto da brisa do mar, fria, sobre a pele, quente, traz contra a minha vontade lembranças de outros tempos adormecidos, quem sabe soterrados, onde tudo era possível, ali, junto a outro mar. Mar da infância, mar de dentro, mar das minhas histórias. O tempo linear congela; movo-me no tempo abissal dos afetos.

Encontro-me novamente junto àquele mar, distante, quando ainda podia sonhar e fazer planos. O cheiro de maresia invade as narinas; sinto o gosto de sol, o sal a queimar-me a pele jovem, ainda infantil. Paro de lutar contra as lembranças e entrego-me às sensações familiares. Mas logo o roçar do tecido torna-se insuportável, lançando-me de volta à realidade escaldante deste dia de verão. Contudo, as cicatrizes do corpo haviam sido tocadas, despertando o incômodo da alma e o que há muito decidi esquecer. Afundo novamente; é mais forte do que eu.

Como foi que aconteceu? Não consigo lembrar com clareza. Por mais que revire as lembranças, não consigo juntá-las, não consigo sentir. Um toque, um sussurro, uma sombra. Uma ameaça. Um hálito conhecido, um rasgar de tecido, uma dor. Depois, ninguém. Apenas a minha mão a sentir a textura dos grãos de areia, a imaginar-lhes a cor; e os meus olhos, fechados, a encherem-se de vermelho. Imagens enevoadas, dispersas, fantasmagóricas. Quanto mais penso nisso, mais embaçados e confusos ficam meus contornos. A clareza esvai-se em solidão e sinto-me afundar em areia movediça.

Tento me agarrar a algo para não ser tragada: penso em fragmentos de cartas, pedaços de ilusão, cheiros de amores antigos, mortes envoltas em delicados papéis de seda azul, guardadas a sete chaves em pequenos baús. Inútil. A única coisa que me sustentaria seria um fio, esse fio que se rompeu naquele preciso momento, tornando-me dura, distante, determinada a esquecer o inominável.

Recolhi-me, anestesiei-me, armei-me; há muito deixei de ser inteira. Não permito que ninguém me penetre; ou me saiba. Perdi o rumo; perdi-me. Não consigo desistir de vez. Resta seguir.

Afundada nesse estupor, percebo que cheguei ao trabalho. Com um resto de vida.

***

Texto e foto| Ana Gilbert

Fotografar palavras # 1621

Adormecia 3

“Adormecia, sempre, na esperança de que ao acordar o mundo aguardasse para ser tocado pela primeira vez. O estado mais puro de tudo. A perceção da inocência da espera que não sabe o que esperar. Respostas isentas de ensaios libertadas pelo que se fez sentir. Talvez, o único momento em que a verdade não saberia ser mentira…Adormecia a procurar no sonho a certeza da vida. A fuga de uma existência confundida na dos outros. E os outros confundidos no que são, retalhados pelo que querem ser, denunciam-se nas palavras privadas dos gestos que as fazem valer. Será que é por sermos tantos num só que vivemos impossibilitados de conhecer o nosso rosto? Aguentaríamos ver quem pensamos ocultar? 

Adormecia sem saber quem encontraria pela manhã. Sem saber qual a memória que lhe iria reger a mente ou quantas batidas lhe permitiria o coração. A imprevisibilidade que desperta o instinto e redescobre as emoções, transformando-nos em seres impossíveis de controlar. A surpresa de irmos onde nunca sequer deixámos encaminhar-se o pensamento. A compreensão do que sempre foi arrevesado. Vazio que aumenta assim que se consegue completar. 

Adormecia… Sossego da alma na calma do corpo…”

Fotografar palavras

Projeto | Paulo Kellerman

Texto | Catarina Vale

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Enquanto a música estiver tocando, você deve continuar a dançar. Entende o que quero dizer? Dançar, continuar dançando. Não deve pensar no motivo e nem no sentido disso, pois eles praticamente não existem.
(…)
Dance. Sem pensar em nada, o melhor que puder. Você precisa fazer isso.

Texto | Haruki Murakami (Dance, dance, dance)

Auto-retrato 127

A luz entra pela fresta da manhã e ilumina os cantos escuros da casa, assim como os teus olhos acordam os meus sentidos na penumbra do corpo.

Roménia – crônica

Roménia

Talvez os comboios do Paulo Kellerman sejam como vasos alquímicos, formas vazias que recebem e são preenchidas com o que é material mas também invisível e impalpável: “os risos e os choros e os sonhos e os desejos e os segredos e as expectativas e os medos e as fantasias” de todos nós… em nós…
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“Sabes o que mais me impressionou? A enorme quantidade de vagões de comboio abandonados em linhas secundárias, nas proximidades das pequenas estações por onde ia passando. Pareceu-me mesmo impressionante. Olhava as carruagens, dezenas delas, de diversas cores, de diversas formas e modelos e funções, de diversos tempos; ordenadas em longas filas, como se pudessem ser usadas uma vez mais; como se alguém as tivesse deixado ali provisoriamente, com a expectativa de lhes dar utilidade no dia seguinte, na semana seguinte; mas os dias passam, as semanas passam. E como tantas vezes acontece, o tempo passa e nada traz; apenas mais tempo. Impressionou-me aquela visão de abandono, de decadência. Olhava e perguntava-me: o que esperam que aconteça a todos estes vagões? Que desapareçam por si próprios, que se dissolvam no ar? Que morram devagar? Quanto tempo demora um comboio a morrer? Sabes aquilo que dizem das árvores, que morrem de pé? Se calhar é parecido com os comboios, devem morrer inteiros e sobre os carris; de pé. No fundo, talvez os estejam a deixar morrer com dignidade. Talvez fosse mais triste se os desmantelassem e reciclassem as peças, se fizessem panelas ou martelos com o metal. Percebi que há uma certa dignidade em deixá-los assim: comboios que nunca mais irão marchar, sobre linhas férreas que nunca mais serão percorridas. Uma espécie de homenagem, não? E desse modo, a memória da passagem de todas as pessoas que ocuparam aqueles comboios, os risos e os choros e os sonhos e os desejos e os segredos e as expectativas e os medos e as fantasias de todos aqueles que momentaneamente viveram naqueles vagões, permanece preservada e intacta. Como num museu. Um museu erguido sob o sol e as estrelas, onde chove e o vento sopra, onde bichinhos desconhecidos encontram refúgio, onde ervas daninhas nascem e crescem e se multiplicam; um museu vivo onde se guarda essa fatia tão frágil e impalpável de vida a que se chama memória. Mas sabes o que mais pensei? Em metáforas. Não será a memória individual de cada pessoa formada por comboios abandonados ao relento? O que nos faz seguir em frente, afinal? O que nos faz viver? Pode ser um desejo, um sonho, uma ambição, uma necessidade; depois, realiza-se o desejo, cumpre-se o sonho, satisfaz-se a ambição, preenche-se a necessidade. Avançámos mas aquilo que nos fez avançar ficou lá para trás, transformado em memória. Transformado em comboio abandonado, porque só nos interessa o comboio que a cada momento nos transporta. Só nos interessa o desejo e o sonho e a ambição e a necessidade do momento. Pelo caminho, deixamos esquecidos todos os comboios que já não nos servem, abandonados e gastos. Simples memórias. E lá seguimos em busca da próxima estação, julgando-nos livres mas presos aos carris que nos condicionam e apontam a única direcção possível. E esquecidos de que somos os nossos próprios museus.”
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Paulo Kellerman (Crônica para o Jornal de Leiria.)