Teoria das cordas

“Não era isso que eu queria dizer,
queria dizer que na alma
(tu é que falaste da alma),
no fundo da alma e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio
a memória, a minha voz acordada,
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
um vazio no vazio, vagamente ciente
de si, não haver resposta
nem segredo.”

Palavras | Manuel António Pina (O coração pronto para o roubo)

Florbela

“Pediu perdão: «Meu Deus, porque sois tão bom? Tenho muita pena de vos ter ofendido, ajudai-me a não tornar a pecar.» Um pedido humanamente impossível, é certo. Talvez, por isso, a necessidade de o repetir em tantos momentos da sua vida.”

Excerto de FLORBELA, romance de Sandrine Cordeiro

Uma edição Minimalista

Minimalista no Brasil

Um sonho, uma ideia, um grupo de amigos. Criatividade e cooperação. Talentos. Desafios.

Assim surgiu a Minimalista, uma editora independente e informal. Somos doze escritores e três profissionais do design e das artes plásticas de Portugal e do Brasil. Juntos, estamos realizando o sonho. Contribuímos com o que sabemos e gostamos de fazer para levar adiante uma proposta ousada.

Na contramão da crise e do desalento em que vivemos, a Minimalista encara o desafio e avança com vigor.  É com grande alegria e orgulho que recebo no Brasil a nossa primeira publicação: o romance Aviões de papel, do Minimalista Paulo Kellerman, um livro que inquieta com a beleza.

A segunda publicação já está a caminho: o romance Florbela, da Minimalista Sandrine Cordeiro.  Mais detalhes, em breve.

Encomendas pelo email: minimalista.editora@gmail.com

(distribuição no Brasil)

Water

“The river is within us, the sea is all about us.”

T. S. Eliot (The dry salvages, Four quartets)

Fotografar palavras #2426

“Tenho tido um sonho. Já dura há dois anos.Um pensamento estranho. Isolamento. No meu sonho, pensamento vou até uma ilha. Vou carregada de peso, em mim. Chego quase por magia. Ou por magia. Num barco pequeno. Sei exatamente para onde tenho de ir. Mas não quero ir. Arriscar. Mentalmente sei exatamente o caminho. Mas nunca ali estive. Abandono o barco a custo. Salto. Água até aos joelhos. Molho as calças. Sinto ainda mais peso. Caminho na areia. Pesadamente. Com pressa mas sem resultado. Há peso nos ombros, como um casaco de peles. Caminho até uma espécie de casa. É só uma cabana. Simples. Há coisas a esvoaçar. São panos brancos. Subo uma rampa de madeira comida pelo sol. Sei que tenho de entrar. Foi algo que prometi. Entro mas não há porta. Há uma cama grande. Tem um tecido branco como colcha ou lençol. Ao lado um banco. Uma espécie de mocho. Em cima duas velas virgens. Um caixa de fósforos velha. Acendo-as. Agora é de noite. Mas era tão de dia. Talvez. Dispo-me. Parece-me passar uma hora. Nada saí do corpo. Penso tomar banho no mar. Mas o medo da falta de pé. Acobardo-me. Tenho medo de arriscar. Deito-me na cama. Em frente há um chuveiro, no meio do nada, ao fundo do quarto. Ou cabana. Levanto-me concentrada. Tomo banho. Água gelada. Choro. Volto à cama. Cheira bem. Não há toalhas. Cola-se o tecido branco ao corpo. Obrigo os olhos a ver-me. Nua. Não quero ver. Fecho os olhos o mais rápido que consigo. Ardem. Acordo. Não sei se dormi. O sol ilumina o quarto. A cabana. As velas quase intactas. Apagaram-se a meio do sonho. Fixo o olhar nelas. Acordo. Queria voltar lá. Não posso, tenho de esperar todo o dia, até dormir. Toda a monotonia de um dia inútil. Já na noite tenho de esperar o sono. Já no sono espero a tristeza. Já triste sonho. Com sorte volto à ilha. À cabana. À conclusão de tudo isto.”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Andreia Monteiro
Fotos| Ana Gilbert

“A memória regressa ao que na casa – e no corpo – viveu e morreu.”

Palavras | Al Berto (O anjo mudo)

Publicação # 500

A Minimalista é notícia | Sapo Mag / Lusa

28 Julho 2020

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Um pouco mais de Aviões de papel de Paulo Kellerman

aqui: (vídeo)

“Dizem que quem ouve vozes dentro da cabeça é doido, mas se calhar os doidos são aqueles que não ouvem vozes, aqueles que acreditam que a sanidade reside na solidão e na individualidade do pensamento.”

e aqui: (vídeo)

“Recordamos tantas primeiras coisas. Mas não a primeira vez que olhámos, que cheirámos, que tocámos; que sorrimos. Como podemos esquecer o primeiro sorriso?”