no cibercafé e-amantes aberto vinte e quatro horas um homem alista-se defronte do ecră todas as noites para morrer não se lembra da última vez que dormiu ou sonhou talvez se lembre de ter sonhado com a própria morte às vezes a vida é um pedaço de uma terra imaginária onde não é preciso passaporte para se ser livre o sonho de uma fuga possível para onde cintila o abraço líquido das luzes.
O processo de criar para o projeto é sempre prazeroso. Receber o texto anônimo, ler nas entrelinhas o estilo da autora (ou autor). Adivinhar-lhe o gesto da escrita. E deixar a imaginação solta para que as imagens surjam, num primeiro momento, aleatórias. E, lentamente, acompanhá-las a ganhar forma, a pedir materialização. Até que uma (por vezes, mais de uma) se coagule em fotografia. Por fim, a publicação, quando as artistas se encontram na sintonia de suas criações.
Fotografar Palavras, 10 anos de publicações diárias, 10 anos a produzir essa magia, graças ao querido Paulo Kellerman, que tanto entende de encontros bonitos.
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Fui só mais uma playlist — tocada, guardada e riscada. Adicionada à tua biblioteca: de prazeres juvenis. Carentes de autocontrolo. Indisciplinados, pouco razoáveis. E no calor do momento — tudo foi eterno. Até ser só mais uma obra inacabada! E se tudo, de repente, fosse apenas uma nota (des)afinada? Abençoada queda — fora de tom.
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I was just another playlist — played, shelved, and scratched. Filed into your library: of youthful pleasures. Starved of self-restraint. Undisciplined, scarcely reasonable. And in the heat of the moment — everything was eternal. Until it was just another unfinished piece! And what if everything, suddenly, were nothing but an (un)tuned note? A blessed fall — out of key.
Texto | Text: Vera Fernandes Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Pensei que dançar era sonhar com as mãos Entre os dedos Com lágrimas, suor e sangue Mas dançar é morrer e renascer, é morrer e renascer, é morrer e renascer É a cada embate levantar-se do chão e voltar a dançar A cada embate levantar-se do chão e voltar a dançar As mãos esse tentáculo sensitivo que não nos deixam afogar Tantos os que nos querem afogados, cancelados Os medíocres Mas acabamos sempre por vir à tona Em espirais dançantes Eternas, de eterno retorno, de eternidade E enquanto dançamos, alargamos os horizontes daqueles que se deixam transportar e sonhar E irritamos e entristecemos as almas daqueles que já morreram Mas nada nem ninguém nos retira a liberdade de dançar uma e outra vez sempre e até sempre Por isso a dança é um ofício da Eternidade Viva, Poderosa, Orgânica e Mágica Dessa eternidade que nos livra Da intolerável opressão do sucessivo Do mesquinho A dança é uma ave que quando privada de liberdade Prefere Morrer Mas hoje e sempre continuaremos a dançar em espirais Voo astrais Serpentes emplumadas Polvos telúricos Ouroboros E entre seres mágicos Como os bailarinos e (com) todos aqueles que dizem sempre que sim a este sonho de Dançar, com D de gente com Dádiva, com as mãos bem abertas e de olhos fechados para o abismo de uma eternidade esplendorosa
Joana von Mayer Trindade (Dançar com D de Gente com Dádiva, in Onde Está O Relâmpago Que Vos Lamberá As Vossas Labaredas, de Hugo Calhim Cristóvão & Joana von Mayer Trindade – Nuisis ZoBoP)