A guardiã dos sonhos

Recebia sonhos em desalinho, palavras saídas aos borbotões na ânsia de comunicar imagens escorregadias. E transcrevia-os com cuidado. Guardava-os. Imaginava-os seus, ou quase, e por instantes esquecia o lamento de não ter os próprios sonhos. Ou tinha-os, mas por não se lembrar deles era como se não os tivesse. Dias inteiros a escrever os sonhos alheios, a desenhá-los em palavras eternas, que eram como substitutas do existir. Escolhia os caminhos para ordenar aquelas palavras ainda em estado de imagem e dar-lhes sentido. Era o seu jeito de viver, uma forma de adiar a morte. Se parasse, poderia ser tomada por um grande vazio; um vazio de imagens que a sugaria irremediavelmente para dentro dele. Tinha medo e, por isso, escrevia.

O seu ofício ganhara fama e muitas pessoas a procuravam para confiar os seus segredos, para escoar os seus excessos. Ao receber alguém, escutava atentamente o fluxo das palavras-imagens.

Carnaval de rua.

Percebia os gestos que acompanhavam cada uma delas. A imobilidade tensa. O não-dito. Mantinha o olhar fixo no outro, e se poderia dizer que era com os olhos que escutava. E com a imaginação. Não que visse, exatamente, a pessoa; vislumbrava as imagens como tatuagens no corpo que tinha diante de si e sentia no seu próprio corpo as imagens se transformando em palavras, vírgulas, pontos, frases, parágrafos inteiros.

Escrevo uma dedicatória para uma pessoa num papel de farmácia.

Percebia a frouxidão do enredo trazido pelo sonhador e, a partir desse alinhavo, fazia a sua costura.

Trabalhava no emaranhado do sonho, feito de tempo e espaço, separando, fio a fio, os elementos importantes. Mergulhava naquela corrente agitada para resgatar pequenos gestos, conchas minúsculas onde se poderiam esconder os medos e as dores.

Uma centopeia de casca dura. Uma mala azul; dentro, um porta-retrata.

Mas também a beleza. E a ternura.

Abro a porta com a minha chave e entro. Cuido dela.

Depois, quando a pessoa saía aliviada do peso, talvez confortada, talvez intrigada, via-se sozinha, olhando tristemente para o sonho escrito, para a harmonia da costura, e tentava se imaginar no lugar do sonhador.

Alguém bebe numa peça de Shakespeare.

Simulava posturas em frente ao espelho e quase conseguia apagar a sua imagem. Via-se outra, e essa outra tinha uma existência diferente da sua. Existência palpável.

Uma mulher circula sem roupa e fico admirada com a forma como ela faz isso.

Pensava: que gestos aquietariam os meus medos? que imagens seria capaz de ver se ao menos alcançasse a profundidade dos meus olhos? Recolhia-se naquele espaço exíguo que era a ser quarto e esses sonhos alheios eram a sua companhia. Lia-os en voz alta antes de dormir, na esperança vã de obter inspirações.

Tentava sonhar. Uma vez mais, a decepção.

Um apartamento imenso, quase sem móveis. Olho pela janela e, no prédio em frente, uma criança me olha.

Os pensamentos congelavam o corpo; o relógio marcava a pulsação do esquecimento e as imagens se esgarçavam. Sentia-as escapando pelos poros, como vapor de transpiração a embaçar os olhos.

Um vale, começa a nevar bastante; logo tudo ficará coberto.

Não conseguia entender o que a impedia de lembrar dos sonhos. Tinha a cabeça povoada de imagens, das mais belas às mais terríveis, das mais banais às mais surpreendentes. Sempre dos outros. E, secretamente, invejava essa capacidade de sonhar. Como se existisse sem o dispositivo sonho. Em ausência. Ou seria que as imagens alheias ocupavam todo o espaço disponível e esgotavam as suas possibilidades de criação? Onde estariam as suas imagens, como pronunciar as suas palavras-imagens? Quem poderia guardar os seus sonhos, caso se lembrasse deles?

Uma mulher é mantida deitada, inconsciente ou impedida de falar.

Sem a consciência dos sonhos, sentia a sua vida espalhada; uma sucessão de eventos desconexos. Traduzir sonhos era encadear a sua história aos pedaços. Fragmento a fragmento, dia após dia. Um mosaico de imagens, um tipo de colagem que reunia as suas partes dispersas.

Ando em busca dos fragmentos de mim como naqueles quebra-cabeças de infinitas peças.

Um dia, recebeu alguém. Como sempre, concentrou-se. Estava para iniciar a escuta quando sentiu que eram aqueles olhos que a olhavam, e não o contrário. Olhos desconectados de um rosto. Sentiu-se nua, exposta diante daquela escuta inesperada, da descoberta de algo mais profundo do que ela.

Um homem, carregado de garrafas d’água, não consegue companhia para ir para casa. Deita no chão e bebe. Precisa. Beber.

Sentia, mas não sabia o quê. Um ardor, uma ventania, uma encruzilhada.

De início, recusou o olhar com um escudo frio. Depois, sentiu-se curiosa, instigada, convocada e, receosa, ousou entregar-se. Relaxou as defesas, piscou algumas vezes, num espreguiçar de pestanas e, quando deu por si, estava a sonhar. Acordada. Pelo menos, achou que aquilo era sonhar. Ia acompanhada. Guiada. Ela, a guardiã de sonhos, sem sonhos.

A onda é esperada pelo corte entre os morros. Ouve-se um estrondo; as pessoas gritam. Vem como um dragão de fogo, vermelho, e vai inundar o vale.

A onda apareceu diante dela, o vermelho alastrou-se, o vale foi inundado. Como os outros, gritou; pensou que seria o fim. Era o fim. Uma espécie de fim. Porém, ela ainda pensava, sentia, ofegava. Agarrou algo que encontrou pelo caminho. Áspero como um pequeno coral. Percebeu a ferida. Mas, ainda assim, manteve-o fechado na mão. Sabia que era a sua salvação. Sentiu seu corpo ser levado pela enxurrada, surpresa com a capacidade de sobreviver a isso. Estranhamente, a sensação era de estabilidade, enraizamento, clareza. E aqueles olhos ainda estavam lá: penetrantes, exigentes e paradoxalmente acolhedores. Até que perdeu os sentidos.

Não saberia dizer quanto tempo ficou inconsciente; quanto percorreu naquele estado inerte. Seus olhos fechados viram mais do que eram capazes de discriminar. E sentia aquele objeto irregular preso na mão. Como uma conexão com a sua história. Como uma lembrança de algo. Um sonho antigo, quem sabe.

Tomo um avião para ir a algum lugar; é um avião pequeno que eu já pilotei antes, porque me fora permitido. Sinto medo; ele voa baixo, bem baixo, como um belicóptero. Passo por lugares. E pelo mar. Então, ele se torna grande como um navio de metal cinza-esverdeado. Seus compartimentos são amplos e ocos, vazios de memórias. Ao mesmo tempo em que piloto o avião que é também navio, corro atrás de uma menina, que brinca pelos labirintos formados pelos compartimentos vazios. Corro atrás dela e vejo o mar agitado pelas pequenas janelas do avião que se faz navio. Não tenho controle, mas a navegação não está desgovernada. Singramos rumo a algum lugar específico. À procura da menina, chego a um extremo do navio. Um homem toca uma pianola. Sobre o móvel, um pequeno coral capta a minha atenção.

Lentamente, abre os olhos. Uma luz difusa penetra o ambiente. Ao longe, os últimos acordes de uma música. Tenta varrer a névoa do olhar. Repara na palma da mão. Um pequeno corte denuncia o toque áspero de um objeto. Torna a fechar os olhos. Ferida antiga. Reabre-os e lá está: o corte. Vai repassando as imagens, como num carrossel para diapositivos. A escrita, os fragmentos, os olhos, o olhar. Seis horas, grita o alarme. Enche o peito de ar e esvazia-o, ruidosamente. Pensa na pilha de formulários a preencher, nas centenas de entrevistas. Mais um dia em pé, na estação do metrô, a abordar pessoas. Mais um dia vazio. Rememora as perguntas engessadas – nome (opcional) – gênero – idade – profissão – qual marca de detergente usa?

Afasta a incoerência do sonho e levanta.

O dia chega ao fim. Tem a pilha quase toda preenchida. Só pensa em voltar para casa e descansar. Resolve abordar uma última pessoa. Um homem, de costas. Pergunta se ele poderia responder a algumas perguntas sobre detergente. Ele se vira.

Encaram-se. O olhar. Balbucia qualquer coisa, meio sem jeito. Refugia-se no formulário; lê para si mesma a primeira pergunta.

E, sem se dar conta, verbaliza: – costuma lembrar dos sonhos?

(A guardão dos sonhos, in A respiração do tempo, Minimalista, 2022)

Demora

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Mia Couto

PELE ADENTRO

PELE ADENTRO fala de encontro, aproximação, sedução, realização, afastamento.
Viagem que guia o(a) leitor(a) das coisas do mundo ao centro da intimidade e, depois, de volta a ele, num processo de eterno retorno em que a alma acompanha as formas do corpo e a magnitude da descoberta.
Os poemas carregam em si o desenho que se vai revelando aos poucos. Texto e imagem dialogam, numa dança sinuosa de afetos que atravessam, tensionam e conectam.,
Alimento e falta. Acima de tudo, pulsação.
Que se sente na pele.

……

PELE ADENTRO (Beneath the skin) speaks of encounter, closeness, seduction, fulfilment, and separation.

A journey that guides the reader from the things of the world to the heart of intimacy, and then back to the world again, in a process of eternal return in which the soul follows the contours of the body and the magnitude of discovery.

The poems carry within them a design that gradually reveals itself.

Text and image enter into dialogue, in a sinuous dance of affections that traverse, strain, and connect.

Nourishment and absence. Above all, a pulse.

Felt beneath the skin.

Fotografias: Ana Gilbert
Poemas: Jorge VAz Dias

Design: Licínio Florêncio
Impressão: Arte Ampliada
Encadernação artesanal: Eliana Yukawa | Yume Ateliê

Edição limitada e numerada

FOTOGRAFAR PALAVRAS – 10 anos

O nosso FOTOGRAFAR PALAVRAS faz hoje 10 anos.

10 anos de criatividade, encontros, descobertas, talentos, afetos, construção conjunta, diversidade, desafios, expansão, olhares, cumplicidades, palavras, leituras, imagens, chegadas, pausas, novos projetos, celebração.

10 anos de casa poética.

E a comemoração vai ser bonita.

No dia 5 de setembro, inaugura a exposição comemorativa, a sétima, no m|i|mo museu, em Leiria, Portugal. E fica até 29 de novembro. Esperamos por vocês!

Obrigada, querida Silvia Bernardino, por fazeres a ponte, em 2017, para que eu chegasse.

Obrigada, querido Paulo Kellerman, pelo tempo e cuidado que dedicas a este projeto; por receberes estes olhos brasileiros (e palavras)… e por tudo o que se seguiu.

Obrigada, m|i|mo museu, pelo acolhimento sempre generoso; por ser casa para esta nossa casa.

Vida longa ao Fotografar palavras!
Esta é, e será sempre, uma declaração de amor ao projeto.

Visitem

Como da primeira vez

Ele chega cedo, escolhe a mesa do canto e se senta na cadeira mais afastada do salão. Confere a hora no celular e faz uma expressão de enfado, antecipando o teor desagradável do encontro. Olha distraidamente em redor, o salão do restaurante de costume está praticamente vazio neste horário. Como ele.

Hoje é dia do almoço mensal com a irmã mais velha. Ela já está atrasada. Tem sido assim nesses almoços ao longo dos anos, desde que aconteceu o acidente. Tomado pelo peso de uma culpa que não consegue identificar, resolveu combinar com ela um almoço no primeiro sábado de cada mês. Não seria nada tão complicado, pensou. Apenas um almoço; duas horas, no máximo, e se faria presente na vida dela. Eram as duas horas mais longas que jamais tinha podido imaginar. Tal qual em todas as caridades movidas pela culpa, esses encontros traziam conforto muito mais a ele do que a ela. Contudo, esse conforto durava pouco. No fim das contas, nem saberia dizer por que ela aceitava almoçar com ele; por que ainda mantinham esse arranjo insensato. Por que ele insistia nisso. Cada um, a seu modo, cumpria sua parte no acordo tácito de aprisionamento mútuo.

A irmã sempre tivera um temperamento difícil que foi piorando com as frustrações da idade e chegou ao ápice com o acidente sofrido há dez anos. Um carro desgovernado em alta velocidade atravessou a pista molhada e atingiu em cheio a porta da motorista que ficou presa entre as ferragens do carro. Após semanas internada em estado grave, a certeza da paraplegia.

Com meia hora de atraso, ela entra no restaurante com a acompanhante, e a sua expressão diz tudo o que ele não quer ver. O garçom solícito (talvez solidário a ele) afasta a cadeira para que outra cadeira, a de rodas, se encaixe junto à mesa. Cumprimentam-se com um olá seco. Após instalar a senhora, a acompanhante aproveita a trégua e, movida pela insensibilidade imprescindível ao trabalho que escolheu (escolheu?), afunda no próprio celular; suspende-se até ser demandada com a brusquidão rotineira.

A irmã está sentada na diagonal à sua esquerda. A acompanhante, na cadeira ao lado dela, em frente a ele. Isso permite que o seu olhar tenha um ponto de fuga, a lateral esquerda. E é assim que ele se ajeita na cadeira, meio de lado, as costas apoiadas na parede. Dez minutos: o tempo que a irmã leva para percorrer o mesmo cardápio de todos os meses e escolher um prato. Contudo, a escolha nunca é simples: chama o garçom e começa a especificar as mudanças que deseja. E o faz com o toque frio de quase crueldade, a sua marca característica.

Nunca foram amigos. Cada um construiu a sua história modulada pela solidão da vida em família. As alfinetadas dos anos da adolescência se perpetuaram na vida adulta, com pontas cada vez mais gastas, capazes de espetadelas dolorosas. Sabia que tinha participação nisso, claro. Porém, era incapaz de mudar a situação. Muitas vezes, quis libertar-se desse labirinto, sem sucesso. Via-se a repetir gestos e palavras e a enredar-se, ferindo-se com requinte.

Repara no olhar dela. Um tanto cansado, pensa. Algo da dureza original parecia diluído ou ter perdido o brilho. Os olhos respiram ofegantes, apesar da rispidez na fala. Indaga sobre a sua saúde. Um suspiro longo, quase imperceptível, antecede a resposta já conhecida: o incômodo das dores, as reclamações sobre a acompanhante do outro plantão. O cansaço.

Ele conta da filha que mora fora com a neta, produção independente. Mostra fotos, distrai o tempo. Ela olha sem interesse (nunca soube se algo a interessara, verdadeiramente), mais prisioneira do tédio do que da cadeira de rodas.

Novo silêncio.

Enquanto fecha o aplicativo de fotos, pensa no sol lá fora, adivinha a brisa do mar que é incapaz de sentir no seu cotidiano excessivamente mental. E é tomado por uma vontade súbita de se levantar e caminhar para fora do restaurante, em busca da areia da praia. Contém-se, a contragosto. A irmã tem o olhar ausente, perdido entre as rachaduras da parede, cuja tinta apresenta sinais de falência. Pergunta-se se ela conseguirá vislumbrar outro mundo para além da rachadura; para além do desencanto, para além da secura. Observa-lhe o perfil, a musculatura rígida do maxilar que a intervalos se contrai. Desvia o olhar, inevitavelmente tomado pela culpa. Sente a angústia que aflora úmida nos olhos. Para alívio de ambos, chegam os pratos. 

O asco ao vê-la comer reacende a cada almoço. Não que ela não saiba as regras de etiqueta. Apenas repete um ritual intencional, movido pela raiva e pela vontade de chocar a plateia. Ele baixa a cabeça e finge não ver. Quantas coisas deixa de ver, num primeiro momento por vontade própria, a seguir por vício, finalmente por anestesia. Já não sente o sabor da comida. Pensa que um dia ainda lhe fará mal esse comer temperado com desgosto. Olha a sua própria vida e se questiona se fez diferente dela. O que é a sua vida, afinal? Muitos amores, uma filha, uma neta. Solidão. Igual à dela. A exasperação pela sensação de fracasso. O trabalho, talvez a única salvação.

Volta à cena, atraído pelo som rascante da voz da irmã que fala com a acompanhante. Sente um misto de vergonha e dor. Quase desespero. Quer pagar logo a conta e sair para libertar-se do encantamento. Deixam o restaurante, ao ritmo das rodas que percorrem o chão áspero; acompanha a irmã até o táxi e lhe entrega o dinheiro da corrida antes de se despedir e fechar a porta.

Fica paralisado a olhar o carro que se afasta, levando para longe as suas algemas invisíveis. Demora a perceber que está livre por mais um mês. De forma inconsciente, massageia os pulsos, para borrar uma sensação imaginária. Precisa voltar ao escritório, mas dá por si a seguir pela rua que leva à praia. Atravessa o cruzamento e chega ao calçadão. Olha a imensidão do mar à frente. Mesmo com o tumulto da cidade à sua volta, consegue deixar-se absorver pelo imenso azul atlântico que tem diante de si. Descalça os sapatos, as meias. É irresistível. Quando afunda os pés na areia, sente um prazer que há muito não sentia. Não entende ter vivido todo esse tempo tão longe do mar, mesmo estando tão perto.

Caminha pela areia, morna a essa hora do dia. O sol ainda está alto. Arrasta o paletó, mas não se dá conta. Ou não se importa. Chega à beira e o choque da água fria parece despertá-lo do torpor. Desliga o celular, arranca o relógio, destrói o crachá, e começa a caminhar em paralelo à água, as mãos caídas ao lado do corpo. Sente-se a esvaziá-las de fora para dentro; vão se tornando pesadas, entregues, uma espécie de fio terra.

Recebe o sol em cheio, enquanto olha para o morro Dois Irmãos, como se fosse a primeira vez. Registra vozes animadas, entretidas num jogo qualquer. Não procura saber. Dentro dele, uma certeza vai se formando. Custa a admitir, porém é algo físico, que vai tomando conta do seu corpo, célula a célula. Até que irrompe, vulcão silencioso: não quero. E essas duas palavras soam à maior das liberdades, talvez aquela nunca antes alcançada. Sorri. Sempre é tempo.

Resta o paletó como testemunha, boiando tranquilamente enquanto é levado pela maré.

 

(do livro Liberdade Minimalista, Minimalista, 2024)

Voo

eu sou uma esplendorosa borboleta de
sangue um ser que voa no coração

valter hugo mãe (publicação da mortalidade)

FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5683

Hoje, na publicação # 5683 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a parceria é com a querida Sandra Francisco

Tu não sabes o que é a dor

Por mais que a cicatriz me dilacere
De cima a baixo
Eu também não

Quis fazer de mim o teu colo
Entrelaçar-me no teu coração
Aninhar-te entre quimeras
E beijar-te os impossíveis

Tão cedo
Tão perto
Tão aqui
Tão fundo

Tu não devias saber o que é a dor

Quero acordar-te devagarinho
Dizer-te que foi só um pesadelo
Levar-te para longe

Ao menos, deixa-me ser eu
A calar-te os gemidos
A varrer-te os dias trágicos

No sal das lágrimas
Quando os sentidos te espancarem
Rasgamo-nos juntos
Retalhos dum só

…..

You do not know what pain is

However deeply the scar tears me open
From top to bottom
Neither do I

I wished to become your shelter
To entwine myself within your heart
To cradle you among chimeras
And kiss your impossibilities

So soon
So close
So here
So deep

You should never have to know what pain is

I want to wake you gently
Tell you it was only a nightmare
Carry you far away

At least let me be the one
To quiet your cries
To sweep away your tragic days

In the salt of tears
When your senses beat you down
We are torn, together
Shreds of one

Texto | Text: Sandra Francisco
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Fotografar palavras, este projeto trabalhosamente simples, criado e coordenado pelo amigo Paulo Kellerman e recriado diariamente por todos nós, faz 10 anos. Há muito o que celebrar!