33 fotografias do interior do Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens (EPL-J) feitas por esses jovens.
33 textos inspirados nessas fotografias escritos por 33 autoras.
As 33 fotografias que compõem este livro nos tomam pela mão e nos levam a adentrar um outro tempo, um tempo circular feito de cotidiano e sonho, de dor e voo, de ausência e presença, de mundo interno e mundo externo.
Muito obrigada a todas e todos que tornaram possível a materialização deste livro, em especial, ao Paulo Kellerman, pelo convite, à Tânia Silva e à Patrícia Grilo, pela realização.
E, principalmente, aos jovens fotógrafos, por sua sensibilidade e habilidade em nos transportar para o tempo poético das imagens que as palavras jamais conseguirão esgotar.
olho a menina de meia estação que gosta de casaco marrom e não escuta música de criança flor em botão enquanto a bomba h quer explodir no jardim
saboreia palavras como caramelos mas antes antes
a lembrança do mundo antes de ser seu mundo livro aberto sobre as pernas as marquinhas pretas sobre fundo branco não consegue decifrar
ainda não sabe ler
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I look at the girl of in-between seasons who likes brown coats and doesn’t listen to children’s music flower in bud while the H-bomb wants to explode in the garden
she savours words like caramels but before before
the memory of the world before it became her world an open book across her lap the little black marks against a white background she cannot decipher
Hoje, no FOTOGRAFAR PALAVRAS# 5585, a minha leitura em três atos do belo poema da Diana Erduíno.
Fotografar palavras, este espaço de arte, criado e coordenado pelo Paulo Kellerman, e que nos permite ser inúmeras ficções de nós, num processo de tradução inesgotável entre palavra-imagem-palavra.
Ela regressa lá. Muitas vezes. Todos os dias. Aproxima-se da beira do poço. Olha-o com os mesmos olhos que o gato olha a sardinha: pretos, gordos, reluzentes, famintos.
Apetece-lhe saltar. Muitas vezes. Todos os dias. Lençóis de alta linhagem para a receber. Brancos. Macios.
Quer sentir. Muitas vezes. Todos os dias. Mas recua sempre, com a certeza de que parece fácil de mais.
Recua muitas vezes. Todos os dias.
Algum dia saltará.
…..
She returns there. Often. Every day. She comes to the edge of the well. She looks at it with the same eyes a cat fixes on a sardine: black, round, gleaming, hungry.
She feels like jumping. Often. Every day. Sheets of a noble kind to receive her. White. Soft.
She wants to feel. Often. Every day. But she always steps back, certain it seems too easy.
She steps back often. Every day.
One day she will jump.
Texto | Text: Diana Erduino Fotografia | Photography: Ana Gilbert
no cibercafé e-amantes aberto vinte e quatro horas um homem alista-se defronte do ecră todas as noites para morrer não se lembra da última vez que dormiu ou sonhou talvez se lembre de ter sonhado com a própria morte às vezes a vida é um pedaço de uma terra imaginária onde não é preciso passaporte para se ser livre o sonho de uma fuga possível para onde cintila o abraço líquido das luzes.