Marés

Tenho um mar revolto e intransponível dentro de mim.

“Do I dare disturb the universe?” (T.S. Eliot, The love song of J. Alfred Prufrock)

“Ali…

… até o meu fascínio era azul.”

Palavras | Manoel de Barros (Ensaios fotográficos)

Fotografar palavras #1966

“Algo me sustenta em meio à inconstância do meu mundo . Brota profundo, sólido; assiste impassível ao burburinho, à fluidez dos movimentos incessantes, por vezes inúteis. Seu silêncio é secular, brutal em sua pouca consideração por meus dias mesquinhos. Eu o adivinho, farejo seu olhar, e sei que nada mais importa.”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Ana Gilbert
Foto| Peter A. Gilbert

circuito

Texto | Ana Gilbert

ela menina, eu mulher; filme em retrocesso. ela de uma nacionalidade, eu de outra; lado oposto do mundo. aqui, agora, a meio caminho dos nossos destinos; bagagem, raio x, imigração. ela no colo da mãe, tão mulher, eu sobre meus próprios pés num caminhar apressado e incerto, tão menina; à distância de um toque. o olhar marcado por pestanas escuras e longas; abissal. o frio visceral do espanto, o dela, o meu; imagens especulares. percebes? e a transparência dos corpos por detrás do espelho. fresta que se abre por onde passeiam presságios, desígnios, perguntas. vejo-me, estrangeira de mim. nenhum sorriso, apenas eletricidade; corrente contínua em circuito fechado. as duas em suspensão, no lugar do não-lugar, em travessia. azul.

“Não há nada mais temível do que o tempo que pára, ficamos iguais para sempre e essa é a maior desgraça.”

Palavras | Afonso Cruz (Para onde vão os guarda-chuvas)