Ele chega cedo, escolhe a mesa do canto e se senta na cadeira mais afastada do salão. Confere a hora no celular e faz uma expressão de enfado, antecipando o teor desagradável do encontro. Olha distraidamente em redor, o salão do restaurante de costume está praticamente vazio neste horário. Como ele.
Hoje é dia do almoço mensal com a irmã mais velha. Ela já está atrasada. Tem sido assim nesses almoços ao longo dos anos, desde que aconteceu o acidente. Tomado pelo peso de uma culpa que não consegue identificar, resolveu combinar com ela um almoço no primeiro sábado de cada mês. Não seria nada tão complicado, pensou. Apenas um almoço; duas horas, no máximo, e se faria presente na vida dela. Eram as duas horas mais longas que jamais tinha podido imaginar. Tal qual em todas as caridades movidas pela culpa, esses encontros traziam conforto muito mais a ele do que a ela. Contudo, esse conforto durava pouco. No fim das contas, nem saberia dizer por que ela aceitava almoçar com ele; por que ainda mantinham esse arranjo insensato. Por que ele insistia nisso. Cada um, a seu modo, cumpria sua parte no acordo tácito de aprisionamento mútuo.
A irmã sempre tivera um temperamento difícil que foi piorando com as frustrações da idade e chegou ao ápice com o acidente sofrido há dez anos. Um carro desgovernado em alta velocidade atravessou a pista molhada e atingiu em cheio a porta da motorista que ficou presa entre as ferragens do carro. Após semanas internada em estado grave, a certeza da paraplegia.
Com meia hora de atraso, ela entra no restaurante com a acompanhante, e a sua expressão diz tudo o que ele não quer ver. O garçom solícito (talvez solidário a ele) afasta a cadeira para que outra cadeira, a de rodas, se encaixe junto à mesa. Cumprimentam-se com um olá seco. Após instalar a senhora, a acompanhante aproveita a trégua e, movida pela insensibilidade imprescindível ao trabalho que escolheu (escolheu?), afunda no próprio celular; suspende-se até ser demandada com a brusquidão rotineira.
A irmã está sentada na diagonal à sua esquerda. A acompanhante, na cadeira ao lado dela, em frente a ele. Isso permite que o seu olhar tenha um ponto de fuga, a lateral esquerda. E é assim que ele se ajeita na cadeira, meio de lado, as costas apoiadas na parede. Dez minutos: o tempo que a irmã leva para percorrer o mesmo cardápio de todos os meses e escolher um prato. Contudo, a escolha nunca é simples: chama o garçom e começa a especificar as mudanças que deseja. E o faz com o toque frio de quase crueldade, a sua marca característica.
Nunca foram amigos. Cada um construiu a sua história modulada pela solidão da vida em família. As alfinetadas dos anos da adolescência se perpetuaram na vida adulta, com pontas cada vez mais gastas, capazes de espetadelas dolorosas. Sabia que tinha participação nisso, claro. Porém, era incapaz de mudar a situação. Muitas vezes, quis libertar-se desse labirinto, sem sucesso. Via-se a repetir gestos e palavras e a enredar-se, ferindo-se com requinte.
Repara no olhar dela. Um tanto cansado, pensa. Algo da dureza original parecia diluído ou ter perdido o brilho. Os olhos respiram ofegantes, apesar da rispidez na fala. Indaga sobre a sua saúde. Um suspiro longo, quase imperceptível, antecede a resposta já conhecida: o incômodo das dores, as reclamações sobre a acompanhante do outro plantão. O cansaço.
Ele conta da filha que mora fora com a neta, produção independente. Mostra fotos, distrai o tempo. Ela olha sem interesse (nunca soube se algo a interessara, verdadeiramente), mais prisioneira do tédio do que da cadeira de rodas.
Novo silêncio.
Enquanto fecha o aplicativo de fotos, pensa no sol lá fora, adivinha a brisa do mar que é incapaz de sentir no seu cotidiano excessivamente mental. E é tomado por uma vontade súbita de se levantar e caminhar para fora do restaurante, em busca da areia da praia. Contém-se, a contragosto. A irmã tem o olhar ausente, perdido entre as rachaduras da parede, cuja tinta apresenta sinais de falência. Pergunta-se se ela conseguirá vislumbrar outro mundo para além da rachadura; para além do desencanto, para além da secura. Observa-lhe o perfil, a musculatura rígida do maxilar que a intervalos se contrai. Desvia o olhar, inevitavelmente tomado pela culpa. Sente a angústia que aflora úmida nos olhos. Para alívio de ambos, chegam os pratos.
O asco ao vê-la comer reacende a cada almoço. Não que ela não saiba as regras de etiqueta. Apenas repete um ritual intencional, movido pela raiva e pela vontade de chocar a plateia. Ele baixa a cabeça e finge não ver. Quantas coisas deixa de ver, num primeiro momento por vontade própria, a seguir por vício, finalmente por anestesia. Já não sente o sabor da comida. Pensa que um dia ainda lhe fará mal esse comer temperado com desgosto. Olha a sua própria vida e se questiona se fez diferente dela. O que é a sua vida, afinal? Muitos amores, uma filha, uma neta. Solidão. Igual à dela. A exasperação pela sensação de fracasso. O trabalho, talvez a única salvação.
Volta à cena, atraído pelo som rascante da voz da irmã que fala com a acompanhante. Sente um misto de vergonha e dor. Quase desespero. Quer pagar logo a conta e sair para libertar-se do encantamento. Deixam o restaurante, ao ritmo das rodas que percorrem o chão áspero; acompanha a irmã até o táxi e lhe entrega o dinheiro da corrida antes de se despedir e fechar a porta.
Fica paralisado a olhar o carro que se afasta, levando para longe as suas algemas invisíveis. Demora a perceber que está livre por mais um mês. De forma inconsciente, massageia os pulsos, para borrar uma sensação imaginária. Precisa voltar ao escritório, mas dá por si a seguir pela rua que leva à praia. Atravessa o cruzamento e chega ao calçadão. Olha a imensidão do mar à frente. Mesmo com o tumulto da cidade à sua volta, consegue deixar-se absorver pelo imenso azul atlântico que tem diante de si. Descalça os sapatos, as meias. É irresistível. Quando afunda os pés na areia, sente um prazer que há muito não sentia. Não entende ter vivido todo esse tempo tão longe do mar, mesmo estando tão perto.
Caminha pela areia, morna a essa hora do dia. O sol ainda está alto. Arrasta o paletó, mas não se dá conta. Ou não se importa. Chega à beira e o choque da água fria parece despertá-lo do torpor. Desliga o celular, arranca o relógio, destrói o crachá, e começa a caminhar em paralelo à água, as mãos caídas ao lado do corpo. Sente-se a esvaziá-las de fora para dentro; vão se tornando pesadas, entregues, uma espécie de fio terra.
Recebe o sol em cheio, enquanto olha para o morro Dois Irmãos, como se fosse a primeira vez. Registra vozes animadas, entretidas num jogo qualquer. Não procura saber. Dentro dele, uma certeza vai se formando. Custa a admitir, porém é algo físico, que vai tomando conta do seu corpo, célula a célula. Até que irrompe, vulcão silencioso: não quero. E essas duas palavras soam à maior das liberdades, talvez aquela nunca antes alcançada. Sorri. Sempre é tempo.
Resta o paletó como testemunha, boiando tranquilamente enquanto é levado pela maré.
(do livro Liberdade Minimalista, Minimalista, 2024)






















