Estado onírico

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Numa cidade medieval, cercada por muros de pedra, circulo perdida em labirinto. Sei que não estou só; ele está comigo, em sugerida presença apenas.
Ando, retrocedo, perco-me no temor de ser vista. A morte espreita com seu perigo frio.
Um homem cego esfrega os peixes para tirar-lhes as escamas. O homem cego, de olhos brancos vazados, estampa um sorriso patético, congelado, alheio a tudo, inconsciente do que faz e de si mesmo.
Um gato se aproxima, atraído pelo odor dos peixes. O homem cego toma o gato como se peixe fosse e esfrega o gato/peixe para tirar-lhe as escamas/pele. O gato morre em carne viva e o homem cego sorri em sua máscara grotesca.
Tenho nojo.
De repente, acho-me à porta da cidadela; um caminho ondeia colina abaixo. O ar fresco é como um golpe que me desperta do congelamento asqueroso do homem cego.
Nessa hora, percebo que escolhi não ser como ele, feliz em seu automatismo insensível.
Corro pelo caminho tortuoso que colina abaixo serpenteia.
Sei que ele vai comigo. Juntos, percorreremos distâncias até encontrar o lugar.
Texto e foto: Ana Gilbert

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Soluços entrecortados chegam aos meus ouvidos, cansados, do esforço de tentar entender entre sussurros as perguntas para as minhas respostas.

Para os comboios não há escolha

Crônica 1
 …
Crônica 2
 …
Crônica 3
Os pássaros começam a cantar. E só depois o dia nasce. Só depois o sol aparece. Só depois o mundo começa a rodar, levando consigo as pessoas e as suas vidas. Mas no início de tudo está o cantar dos pássaros. Sente-os do lado de lá da janela do seu quarto, distribuídos pelos ramos das árvores do jardim (são três árvores, trinta e cinco ramos; por várias vezes pensou em contar também as folhas mas ainda não teve coragem); quietos e serenos, à espera do momento em que começarão a cantar. Ouve-os, e desse modo conhece-os. Sabe que a segunda melhor forma de conhecer alguém é escutar. E como os conhece já consegue antecipar o momento em que o silêncio se vai converter em canto. Gosta dessa rotina, e chamar-lhe rotina é uma forma de dizer que é algo que se tornou essencial para si (como respirar ou sorrir, duas rotinas fundamentais): abre os olhos, deambula ao acaso entre o mundo dos sonhos que acabou de abandonar e o mundo da realidade a que está a regressar, respira devagar, sente o cheiro da manhã que entra pela janela entreaberta. Depois, há sempre um momento em que sente no seu corpo: vão cantar; e nesse instante, os pássaros cantam. Serão eles que mantêm o mundo em movimento com o seu canto? Acredita que sim. Levanta-se da cama, caminha até à janela, espreita as árvores; e ouve. O canto dos pássaros é uma linguagem que desconhece mas, apesar disso, sente nela uma alegria que a contamina, que lhe transmite ânimo. O que pensarão os pássaros quando olham das suas árvores e a vêem à janela? Talvez pensem que ela esteja dentro de uma gaiola e, por isso, cantam para lhe trazer um pouco de alegria. E é com alegria que se entrega às primeiras tarefas da manhã, sentindo que a vida começa a arrancar; como se o mundo fosse um comboio a sair da estação, preparando-se para recolher passageiros e, depois, distribuí-los pelos locais onde querem estar ou precisam estar ou sonham estar. Quando entra na cozinha, o mundo está em pleno andamento. A luz do sol entra pela janela, há um cheiro a chá que demora a identificar, misturado com o cheiro a laranja. Os cheiros fazem-na sentir parte do universo; é como se a essência das coisas entrasse em si, e assim as coisas passassem a fazer parte do seu corpo. Distrai-se a tentar perceber qual será o chá do dia e, por isso, demora um instante a perceber que a mãe, sentada à mesa segurando uma laranja, está triste. Aproxima-se e toca-a na mão com suavidade (sabe que a melhor forma de conhecer alguém é tocar-lhe); a mãe olha-a, corresponde ao seu toque, tenta sorrir; quase consegue, mas depois há um momento em que o quase-sorriso se pode transformar em choro. Ficam em silêncio, unidas pelas mãos. É como se o comboio tivesse subitamente parado, indeciso sobre que caminho seguir; mas para os comboios não há escolha, o único caminho possível é apenas um: em frente. Levanta-se e aproxima-se da janela, puxando a mãe consigo; olham as árvores, o céu, as nuvens; e escutam o canto dos pássaros. O tempo passa devagar, o chá arrefece. O comboio arranca, ganha velocidade. A mãe diz: «Sabes o que devíamos fazer, um dia destes? Contar quantas folhas existem nestas árvores. Sempre quis fazer isso, tu não?»
Paulo Kellerman (Crônica para o Jornal de Leiria)

Lembrança alada

Ave

“Em alguma vida fui ave.
 
Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.
 
E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.
 
Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.
 
Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.
 
Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.
 
Em alguma ave fui vida.”

Palavras: Mia Couto [poemas escolhidos]

Insignificância

“Há momentos que, com tão ínfima duração, são enormes na sua capacidade de nos reduzir a uma insignificância tremendamente dolorosa de sentir.
Carregamos toda a nossa existência no incerto de decisões nascidas no medo, trémulas em assertividade, que nos empurram para ir no simultâneo de ficar.
Viajamos até onde fomos mais, desejando voltar a ser e ter, enfrentando toda a impotência que nos cerca.
Percebemos que o pouco que éramos não somos, e que a única matéria que conseguimos arrastar é apenas, tanto e só, a que nos constitui.
Acordamos em nós, sedentos de viver pelo que permanece sempre connosco…
Há momentos, que de tanto os esquecer, ficarão em mim para sempre.”

Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Catarina Vale