Fotografar palavras #2426

“Tenho tido um sonho. Já dura há dois anos.Um pensamento estranho. Isolamento. No meu sonho, pensamento vou até uma ilha. Vou carregada de peso, em mim. Chego quase por magia. Ou por magia. Num barco pequeno. Sei exatamente para onde tenho de ir. Mas não quero ir. Arriscar. Mentalmente sei exatamente o caminho. Mas nunca ali estive. Abandono o barco a custo. Salto. Água até aos joelhos. Molho as calças. Sinto ainda mais peso. Caminho na areia. Pesadamente. Com pressa mas sem resultado. Há peso nos ombros, como um casaco de peles. Caminho até uma espécie de casa. É só uma cabana. Simples. Há coisas a esvoaçar. São panos brancos. Subo uma rampa de madeira comida pelo sol. Sei que tenho de entrar. Foi algo que prometi. Entro mas não há porta. Há uma cama grande. Tem um tecido branco como colcha ou lençol. Ao lado um banco. Uma espécie de mocho. Em cima duas velas virgens. Um caixa de fósforos velha. Acendo-as. Agora é de noite. Mas era tão de dia. Talvez. Dispo-me. Parece-me passar uma hora. Nada saí do corpo. Penso tomar banho no mar. Mas o medo da falta de pé. Acobardo-me. Tenho medo de arriscar. Deito-me na cama. Em frente há um chuveiro, no meio do nada, ao fundo do quarto. Ou cabana. Levanto-me concentrada. Tomo banho. Água gelada. Choro. Volto à cama. Cheira bem. Não há toalhas. Cola-se o tecido branco ao corpo. Obrigo os olhos a ver-me. Nua. Não quero ver. Fecho os olhos o mais rápido que consigo. Ardem. Acordo. Não sei se dormi. O sol ilumina o quarto. A cabana. As velas quase intactas. Apagaram-se a meio do sonho. Fixo o olhar nelas. Acordo. Queria voltar lá. Não posso, tenho de esperar todo o dia, até dormir. Toda a monotonia de um dia inútil. Já na noite tenho de esperar o sono. Já no sono espero a tristeza. Já triste sonho. Com sorte volto à ilha. À cabana. À conclusão de tudo isto.”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Andreia Monteiro
Fotos| Ana Gilbert

“A memória regressa ao que na casa – e no corpo – viveu e morreu.”

Palavras | Al Berto (O anjo mudo)

Publicação # 500

A Minimalista é notícia | Sapo Mag / Lusa

28 Julho 2020

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Um pouco mais de Aviões de papel de Paulo Kellerman

aqui: (vídeo)

“Dizem que quem ouve vozes dentro da cabeça é doido, mas se calhar os doidos são aqueles que não ouvem vozes, aqueles que acreditam que a sanidade reside na solidão e na individualidade do pensamento.”

e aqui: (vídeo)

“Recordamos tantas primeiras coisas. Mas não a primeira vez que olhámos, que cheirámos, que tocámos; que sorrimos. Como podemos esquecer o primeiro sorriso?”

Vazios…

“Terá de haver alguém (…) alguém que entenda o meu vazio porque tem em si um vazio idêntico.”

Palavras | Paulo Kellerman (A cadeira da Cinderela, Best of)

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Paulo Kellerman escreve sobre a alma humana, no que ela tem de belo e sombrio. Com sua escrita poética e incisiva, percorre paisagens de silêncio e dor, de dúvida e inquietude; delineia a sutileza do sonho e a melancolia do cotidiano sem sentido, numa multiplicidade de vozes que reverberam em nós como um labirinto de espelhos a devolver-nos inúmeras e perturbadoras imagens do eu.

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Em breve, o seu novo romance, Aviões de papel. Uma edição Minimalista.

Brilho

“Vejo o brilho de um sonho tão impossível.”

(José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão)

Em voo…

O romance Aviões de papel. de Paulo Kellerman, está chegando ao Brasil | uma edição da nossa Minimalista.

Já encomendou o seu?

(encomendas pelo e-mail: minimalista.editora@gmail.com | vendas no Brasil)

Abaixo, uma bela vídeo-sinopse por Sandrine Cordeiro e Fabrício Cordeiro

gostamos de livros | escrevemos livros | publicamos livros | lemos livros

somos uma equipe de criadores das áreas de literatura, ilustração e design

as imagens das palavras

Volto a falar do nosso projeto Fotografar palavras, não apenas porque a primeira de quatro exposições está a acontecer no m|i|mo – museu da imagem em movimento, em Leiria, Portugal; mas, em especial, pelo gosto e pelo orgulho que sinto em fazer parte dele, desde quando comecei a colaborar, em junho de 2017.

Fotografar palavras é um projeto criado e dinamizado pelo escritor Paulo Kellerman. Reúne fotógrafos e escritores num desafio diário: o exercício criativo de transformar palavras em fotografias. Já conta com 2394 publicações, ao longo de quatro anos, que podem ser apreciadas no blog de mesmo nome, em sequência temporal ou nas galerias dos diferentes fotógrafos e escritores.

Apesar de ser um projeto desenvolvido em plataforma virtual, promove e alimenta relações de amizade e colaboração artística que existem para além das telas dos dispositivos tecnológicos, habitando a dimensão essencial do contato humano e ultrapassando as distâncias geográficas entre os participantes.

Acontece assim: os fotógrafos recebem excertos (anônimos) dos escritores, por intermédio do Paulo Kellerman, e encontram uma (ou mais de uma) imagem para essas palavras. Mas, como o projeto é saudavelmente transgressor de si mesmo, acontece do ponto de partida ser a fotografia e o desafio é feito a um escritor para que encontre palavras para essa imagem. Ou ainda, podem acontecer publicações em que um artista é autor tanto do texto quanto da foto. Porque os caminhos da criação são inesgotáveis  e vão despertando novos entrelaçamentos e possibilidades em cada participante.

A relação entre as imagens e as palavras reunidas numa publicação não é de submissão, isto é, uma forma de expressão não é mais importante do que outra; e muito menos de dependência ou fusão: ao serem alinhadas, imagens e palavras não se perdem, não se fusionam, mantêm a sua autonomia. O que existe é uma profunda cumplicidade entre elas, mesmo quando os artistas não se conhecem, permitindo a abertura de caminhos de leitura, de desenvolvimentos narrativos, de amplificação de afetos.

O projeto reúne perspectivas diversas e alinha diferentes estilos e subjetividades artísticas, num ambiente experimental de total respeito e liberdade cujo vigor se mantém intacto. Convida o leitor a ir além do que é apresentado, a explorar novos horizontes movido pelo desassossego, pela emoção e pela reflexão que o material suscita.

Dose diária de arte.

Aviões de papel

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O livro Aviões de papel fala da imaginação, da necessidade de se cultivar a imaginação para que a vida não se torne árida e sem sentido… Poético e cativante, o texto emociona.

SINOPSE:

É domingo. A cidade está silenciosa e imóvel. Uma menina faz um avião de papel, escreve uma frase na asa, lança-o da varanda; vê-o aterrar no passeio e fica à espera que aconteça alguma coisa. Assim se inicia a viagem de um avião de papel que irá atravessar estórias e vidas, aproximando personagens e provocando acasos, testemunhando dramas e alegrias.

Vinte e sete contos independentes cruzam-se para formar um romance de múltiplas vozes, estados de espírito, desassossegos, interrogações. Entre a angústia desesperada e o optimismo infantil, confrontam-se ângulos e pontos de vista, surgem espantos, subsistem dúvidas, espreitam esperanças. E as vidas seguem imprevisíveis, como voos incertos de aviões de papel; apenas a queda é certa.

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Aviões de papel é o 14º livro de Paulo Kellerman e a 1ª primeira publicação da nossa Minimalista.

Ilustração: Maraia | Design: Licínio Florêncio

Encomendas: minimalista.editora@gmail.com

(distribuição no Brasil)