Lembrança

O movimento inicia lento,
sístoles e diástoles,
numa respiração eterna
que rege o ritmo do universo.
Cor, textura,
invisível aos olhos,
apenas respirável.
Dita com precisão o tempo dos meus dias

Fósforo

“Quando fiz seis anos, fui à escola. Dezassete anos depois, saí.

Sentia-me preparado. E, mais que isso, sentia-me ansioso. Passava os dias à espera que me chamassem, aguardando a minha vez.

Quando já desesperava, convocaram-me.

Nem quis acreditar. Verdadeiramente excitado, cheguei à fábrica e apresentei-me. Depois, tudo se precipitou. Mandaram-me para uma sala onde dezenas de outros aguardavam; começaram a chamar e fomos entrando nas caixas, escuras e apertadas.

Passaram meses. Então, alguém abriu a caixa, pegaram em mim e riscaram-me. Criei fogo. Sopraram-me e morri.

(O meu último pensamento: “Uma vida de preparação para isto!? Acabou tudo? Tão depressa?”).

Palavras | Paulo Kellerman (Miniaturas, Edições Colibri, 2001)

Paulo Kellerman: 25 anos de escritas

Fotografar palavras #2704

Não há abraço que me doa mais do que o silencioso que me amordaça as palavras. Um vilão obscuro das minhas noites. Conheci-o em tempos. Apaixonou-se por mim. Mas eu não correspondo. Visita-me de noite. Peço que não o faça. Ele resiste. Tem um pacto com a noite. A noite tem um preço. O preço de a dormir sem a sentir. Não o consigo pagar. A dívida acumula-se. A minha incapacidade de saldar a dívida tem sido a maior declaração de amor daquele abraço. O abraço silencioso que me amordaça as palavras.

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

Luz

A luz da janela
sobe pelas folhas verdes
ao topo das árvores.

Yosa Buson (A borboleta e o sino)

Tradução: Sérgio Medeiros

Vermelho

Vermelho-sangue, vermelho-vida, vermelho-alma, vermelho-irmandade, vermelho-encontro, vermelho-gente… aqui, lá, em qualquer lugar…

Fotografar palavras #2677

“Hora para acordar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para defecar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para tomar o pequeno almoço. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para apanhar um transporte. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para começar a trabalhar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para tomar um café. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para regressar ao trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para almoçar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para voltar ao trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para largar o trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para ir para casa. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para… Hora para tudo e para nada. Até existe a hora da morte. Já não somos prisioneiros…”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Vitor Vieira
Foto | Ana Gilbert

Medo

“eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão “

Belchior (Pequeno mapa do tempo)

Fotografar palavras #2663

É sempre um desafio receber um texto (desconhecendo a autoria) e fazer uma leitura fotográfica das palavras. Muitas imagens surgem, mas apenas uma (às vezes, mais de uma) vai se coagular como fotografia. Este é o exercício criativo diário do Fotografar palavras, de Paulo Kellerman, projeto vigoroso e estimulante que reúne fotógrafos e escritores em torno do fascínio por palavras e imagens.

Hoje, mais uma nova parceria:

“Hoje caminhei por entre os teus pés sem que os pisasse. Não deste por mim. Respirei-te no mesmo compasso que faz dos dias noites. Não me sentiste. Fiz-me escura na brancura da tua pele, quando se encheu de luz. Persegui-te. Tentei libertar-me de ti. Não permitiste, continuaste a encher-te de luz, mesmo na podridão do dia acabado, no artificial do teu leito. Fixei-me sobre as palavras que lias, murmurei-as contigo, sem que me ouvisses. Fiz-te cansar sobre o desvanecer das horas e finalmente apagaste a luz. E finalmente fui.”

Texto: Elisabete Neves
Foto: Ana Gilbert

Primeiros azuis do ano…

“Porque não lembramos o que vimos da primeira vez que olhámos, da primeira vez que os nossos olhos se abriram para o mundo e fizeram a sua primeira focagem?”

“Recordamos tantas primeiras coisas. Mas não a primeira vez que olhámos, que cheirámos, que tocámos; que sorrimos. Como podemos esquecer o primeiro sorriso?”

Paulo Kellerman (Aviões de papel)

Uma edição Minimalista