Lembrança alada

Ave

“Em alguma vida fui ave.
 
Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.
 
E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.
 
Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.
 
Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.
 
Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.
 
Em alguma ave fui vida.”

Palavras: Mia Couto [poemas escolhidos]

Insignificância

“Há momentos que, com tão ínfima duração, são enormes na sua capacidade de nos reduzir a uma insignificância tremendamente dolorosa de sentir.
Carregamos toda a nossa existência no incerto de decisões nascidas no medo, trémulas em assertividade, que nos empurram para ir no simultâneo de ficar.
Viajamos até onde fomos mais, desejando voltar a ser e ter, enfrentando toda a impotência que nos cerca.
Percebemos que o pouco que éramos não somos, e que a única matéria que conseguimos arrastar é apenas, tanto e só, a que nos constitui.
Acordamos em nós, sedentos de viver pelo que permanece sempre connosco…
Há momentos, que de tanto os esquecer, ficarão em mim para sempre.”

Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Catarina Vale

Unhas

“Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem.”

Texto: Clarice Lispector (Felicidade clandestina)

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“Perguntei: por que estamos tão tristes? Respondeu: é assim mesmo.”

Texto: Clarice Lispector (A descoberta do mundo)

Um ano de sutilezas…

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O blog Sutilezas do olhar nasceu do meu interesse por imagens e por palavras e pelas possibilidades infinitas de entrelaçamento entre elas… Com as imagens e as palavras vieram as pessoas; e com as pessoas, os sonhos, as ideias, as parcerias, os projetos, os sorrisos e os abraços… Também chegaram pessoas que nunca encontrei; pessoas que passam por aqui, demoram-se mais ou menos e deixam suas marcas, não apenas sob a forma de curtidas ou comentários, mas marcas silenciosas dos seus olhares, como se fossem toques sutis, que impregnam as imagens e me devolvem algo sobre mim, algo apreendido e filtrado pelos seus olhos.

Obrigada a todos os que por aqui passam; a todos os que dedicam algum tempo a descobrir e apreciar a forma como vejo o mundo…

… porque “às vezes o que eu vejo quase ninguém vê.” (Renato Russo)

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