o mundo antes do mundo

olho a menina de meia estação
que gosta de casaco marrom
e não escuta música de criança
flor em botão
enquanto a bomba h quer explodir no jardim

saboreia palavras
como caramelos
mas antes
antes

a lembrança do mundo
antes de ser seu mundo
livro aberto sobre as pernas
as marquinhas pretas
sobre fundo branco
não consegue decifrar

ainda não sabe ler

—-

I look at the girl of in-between seasons
who likes brown coats
and doesn’t listen to children’s music
flower in bud
while the H-bomb wants to explode in the garden

she savours words
like caramels
but before
before

the memory of the world
before it became her world
an open book across her lap
the little black marks
against a white background
she cannot decipher

she still does not know how to read

FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5585

Hoje, no FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5585, a minha leitura em três atos do belo poema da Diana Erduíno.

Fotografar palavras, este espaço de arte, criado e coordenado pelo Paulo Kellerman, e que nos permite ser inúmeras ficções de nós, num processo de tradução inesgotável entre palavra-imagem-palavra.

Ela regressa lá.
Muitas vezes.
Todos os dias.
Aproxima-se da beira do poço. Olha-o com os mesmos olhos que o gato olha a sardinha: pretos, gordos, reluzentes, famintos.

Apetece-lhe saltar.
Muitas vezes.
Todos os dias.
Lençóis de alta linhagem para a receber. Brancos. Macios.

Quer sentir.
Muitas vezes.
Todos os dias.
Mas recua sempre, com a certeza de que parece fácil de mais.

Recua muitas vezes. Todos os dias.

Algum dia saltará.

…..

She returns there.
Often.
Every day.
She comes to the edge of the well. She looks at it with the same eyes a cat fixes on a sardine: black, round, gleaming, hungry.

She feels like jumping.
Often.
Every day.
Sheets of a noble kind to receive her. White. Soft.

She wants to feel.
Often.
Every day.
But she always steps back, certain it seems too easy.

She steps back often. Every day.

One day she will jump.


Texto | Text: Diana Erduino
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

vazios

já não há santos nos oratórios.

[Gaza também é aqui]

there are no saints left in the shrines.

[Gaza is here too]

“ Estou farto de portas fechadas” | Ensaio

O presente ensaio celebra os 150 anos de nascimento de Carl G. Jung e seu brilhante entendimento do ser humano como ser criativo.

O texto aborda o tema da ética de hospitalidade em análise. Para tanto, parte da arte, mais especificamente, da ópera contemporânea portuguesa O Tempo (Somos nós), cujo libreto é de autoria de Paulo Kellerman, para iluminar a prática clínica, tendo por base o texto O Banquete, de Platão, em articulação com a psicologia analítica.

Tanto na ópera quanto no processo analítico, Eros surge como fenômeno mais amplo, capaz de restaurar uma possibilidade criativa que reacende a alma, enquanto lugar da experiência do indivíduo, e de integrar aspectos dissociados da psique individual e coletiva.

*** 

This paper examines the subject of hospitality in analysis. It starts from art, more specifically the contemporary Portuguese opera Time (As we are), whose libretto was written by Paulo Kellerman, to illuminate the clinical activity based on Plato’s Symposium, in articulation with the analytical psychology.

Both in the opera and in the analytical process, Eros emerges as a broader phenomenon, capable of restoring a creative possibility that rekindles the soul as a locus for the individual experience, and of integrating dissociated aspects of the individual and the collective psyche. 

TEXTO COMPLETO PARA DOWNLOAD AQUI

Chegares

um instante na memória de chegares é mais valioso do que jardins, do que montanhas, do que anos de tempo.

José Luís Peixoto (A Casa, a Escuridão)

Suspended

I lie suspended like a hair or a feather in the cloudy mixtures of memory.”

Lawrence Durrell (The Alexandria Quartet)