Casa (e a falta dela)

Qualquer artefato é um prolongamento da vontade de fazer casa, do desejo de transformar o mundo para poder habitar.

Emanuele Coccia (Filosofia da casa, 2024)

Amantes de Lisboa

Os amantes de Lisboa passeiam de mãos dadas pelas ruas
Beijam-se contra as paredes e nas esquinas da cidade
Sofregamente
São jovens e belos com a brisa das manhãs
Soltam bandos de pequenos pardais inquietos
Que moram dentro dos seus corpos perfeitos
E debaixo das suas línguas
Enquanto se despem
A céu aberto
Têm cabelos resplandecentes e luminosos
Claros
Dedos compridos de artista que se entrelaçam
Demoradamente
Escrevem-se um no outro como uma suíte de Bach
Sem prelúdio
Têm vozes profundas que vibram como música
Gemem muito alto
Como cordas vocais
Barrocas.

Ana Paula Jardim

Homenagem

tribute

Saía pela manhã, logo após o nascer do sol, e caminhava pelas ruas ao acaso, sem pressa nem destino definido. Falava alto, falava sozinho. Dizia nomes. Um após outro, repetia em voz alta os nomes dos mortos. Para que as ruas não os esquecessem. Para que as ruas não os esquecessem.

…

He would go out in the morning, just after sunrise, and wander through the streets at random, unhurried, with no particular destination. He spoke aloud, spoke to himself. He uttered names. One after another, he repeated the names of the dead aloud. So that the streets would not forget them. So that the streets would not forget them.

Paulo Kellerman | Portable link

Ainda sobre Pele Adentro

Foi a partir de uma perda que a poesia ganhou outro lugar na vida de Jorge Dias.

O encontro com um dos últimos poemas manuscritos da mãe, escrito quando a doença já lhe limitava os movimentos, levou-o a olhar de outra forma para as palavras e para a possibilidade de estas sobreviverem a quem as escreve. É dessa relação com a poesia, mas também com a intimidade, o desejo, a memória e a efemeridade, que nasce Pele Adentro, o primeiro livro de Jorge Dias enquanto Livre no Vento das Palavras, projecto que tem vindo a desenvolver no Instagram.

A obra, de edição limitada e numerada, é apresentada sexta-feira, 2 de Outubro, às 18 horas, na Livraria Arquivo, em Leiria, num encontro que contará também com Paulo Kellerman e Read The Cat [Cátia Ribeiro].

Os poemas não foram escritos com a intenção inicial de formar um livro. Foram surgindo ao longo do tempo, num processo que o autor descreve como “um fenómeno do acaso, previsto pelas estrelas”.

Alguns já existiam, outros nasceram em diálogo com o trabalho fotográfico de Ana Gilbert. Só mais tarde se percebeu que havia ali uma identidade comum.

Entrar “pele adentro”, explica Jorge Dias, é entrar no próprio desejo. “Espelha a intimidade, a cumplicidade e a complexidade das emoções”, afirma, esclarecendo que o “adentro” não se reduz ao corpo. É uma procura de algo mais profundo “iunto à alma (se ela existe)”.

A morte da mãe foi determinante nesse caminho. O poema que encontrou, escrito apesar das limitações físicas provocadas pela doença, fez cair a distância que mantinha em relação à poesia. “Essa experiência rasgou qualquer vergonha que eu teria da poesia ou distância que tinha dela como poeta”, conta. “A vida passou a fazer mais sentido para mim, com poesia.”

É também nessa ideia de permanência através da palavra que Pele Adentro encontra uma das suas linhas fundamentais. Escrever pode ser uma forma de fazer sobreviver uma voz e uma memória. “Não conheço maior milagre na nossa existência”, diz o autor.

Ana Gilbert: o diálogo entre palavras e imagens

Se a poesia é o ponto de partida, a fotografia de Ana Gilbert não surge como simples ilustração. As duas linguagens encontram-se, dialogam e, por vezes, afastam-se deliberadamente da leitura mais óbvia dos poemas.

A fotógrafa, brasileira, já acompanhava o trabalho de Jorge antes de os dois se conhecerem pessoalmente. A corporeidade e a presença recorrente da intimidade nos seus poemas, os encontros e desencontros, as descobertas e a intensidade das relações, despertaram-lhe a atenção.

A colaboração começou antes de existir a ideia de um livro. Ana fotografou alguns poemas de Jorge e, noutras ocasiões, foi o poeta quem escreveu a partir das suas imagens. Dessa afinidade entre texto e fotografia nasceu primeiro uma amizade e, depois, o desafio de construir Pele Adentro.

O processo não procurou uma correspondência literal entre palavra e imagem. “Texto e imagem são substâncias diferentes que não se amalgamam” explica Ana. A intenção foi criar narrativas fotográficas que dialogassem com os poemas e os abrissem a outras leituras.

Por isso, alguns textos mais explícitos encontram fotografias quase abstractas.

Na construção do livro, poemas e imagens foram seleccionados e reorganizados até encontrarem um ritmo próprio. Ana recorreu a pequenos rectângulos de papel para experimentar diferentes combinações, até perceber uma narrativa: encontro, aproximação, sedução, realização, afastamento e a promessa de voltar a acontecer.

O resultado é também uma tentativa de retirar a poesia da volatilidade das redes sociais e transformá-la num objecto para tocar, cheirar e guardar. Para Ana, o livro físico permite uma experiência sensorial e uma “suspensão do tempo” que contrasta com a rapidez do universo digital. Entre páginas, fotografias e poemas, Pele Adentro aproxima assim a efemeridade da vida da possibilidade de permanecer. “No livro físico, convivem efemeridade e eternidade”, resume a fotógrafa.

No Jornal de Leiria, no dia 01 de outubro de 2026.

Texto: Paula Lagoa | Fotografia: Ricardo Graça

LATITUDES

LATITUDES, este encontro afinado entre texto e imagem, entre hemisférios, entre países, entre estações, entre mulheres e seus afetos.

Cristina Vicente e Ana Gilbert

rio

um rio esvai-se
ao fogo do gesto
que inflamo

Mia Couto [poemas escolhidos]

PELE ADENTRO

PELE ADENTRO

Fotografias: Ana Gilbert
Poemas: Jorge VAz Dias

Apresentação: 2 de outubro, 18h, na Arquivo livraria, Leiria, Portugal

Convidados especiais:
Paulo Kellerman
Cátia Ribeiro

Design gráfico Licinio Florêncio
Impressão: Arte Ampliada
Encadernação artesanal: Eliana Yukawa e Yume Ateliê

edição limitada e numerada
encomendas (Brasil e Portugal): DM