O último voo

Tenho os olhos fechados, mas sou capaz de ver (ou imaginar?) as minhas velhas asas, as saliências por onde brotam nas costas. Ainda lembro o misto de espanto e tristeza quando descobri esses pequenos brotos em mim e percebi a condenação.

Excerto do meu conto, O último voo (Selo Off Flip, 2021)

Mapas do Confinamento

O projeto MAPAS DO CONFINAMENTO é “um projeto trilingue que une os falantes de português com o intuito de desenhar uma cartografia do confinamento através da arte e da cultura.
Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé, Timor Leste e Diásporas de expressão portuguesa – Bélgica, França, Países Baixos, Reino Unido – são estes os “Mapas do Confinamento” que quase cem artistas, escritora .es, fotógrafa .os, ilustradora .es, poetas, tradutora .es – de todas as origens e sotaques – estão a construir coletivamente em português (mas traduzidos para francês e inglês porque o mundo também é feito de outros idiomas) como forma de assinalar este momento marcante da nossa História.”

Participo com um CONTO e um ENSAIO FOTOGRÁFICO .

NÓS (conto)

Não sei o teu nome, nunca tive coragem de perguntar. Mas somos vizinhas. De vida. Habitamos a mesma pele, ainda que muitos metros de tecido esgarçado nos separem. Não sei onde estás; passo pelos lugares de costume e vejo somente a tua ausência. Em que calçada te sentas agora?

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A SOMBRA DOS DIAS (ensaio fotográfico)

Fotografo a sombra dos dias para ter a certeza de que eles passam.

A sombra da saudade

ensaio completo disponível aqui

Percebes?

“Como se a minha vida, a minha presença naquela casa, apenas fizesse verdadeiro sentido enquanto falasse e o silêncio pudesse ser sinónimo de uma espécie de não existência. Percebes?”

Palavras | Paulo Kellerman (Coleccionador de eventos, Mente-me e seremos mais felizes, Escrytos, 2013)

Paulo Kellerman: 25 anos de atividade literária

Catarse galáctica

Abeirou-se de mim e chorou. Era um homem. Olhou nos olhos, em silêncio, explodiu em catarse galáctica. Os carros pararam. Os semáforos enlouqueceram e as máquinas, essas, invadiram a mente humana e passaram a definir os nossos movimentos. Passámos a beber combustível e a defecar dióxido de carbono. O sorriso passou a um conjunto de luzes intermitentes, substituindo o vulgo lábio. Passámos a pesar menos. Emagrecemos as emoções e o ritmo. O ritmo também se emagrece. Passou a ser vestigial. Os ouvidos deram lugar a microfones que, de hora a hora, debitavam ordens de comando em busca do uníssono. O uníssono das máquinas. As mãos passaram a ser impressoras, imprimindo a cada cinco minutos o desempenho de cada um. O nariz rebelou-se e foi imediatamente fechado. O conceito de flor desapareceu. E o homem, esse, parou de chorar.

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

Fotografar palavras #2704

Não há abraço que me doa mais do que o silencioso que me amordaça as palavras. Um vilão obscuro das minhas noites. Conheci-o em tempos. Apaixonou-se por mim. Mas eu não correspondo. Visita-me de noite. Peço que não o faça. Ele resiste. Tem um pacto com a noite. A noite tem um preço. O preço de a dormir sem a sentir. Não o consigo pagar. A dívida acumula-se. A minha incapacidade de saldar a dívida tem sido a maior declaração de amor daquele abraço. O abraço silencioso que me amordaça as palavras.

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert