Árvore

XIV
Uma árvore
Não saberia o que fazer
Com um espelho.

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas? Edição Sem Editora, 2022)

VIII

Gosto de te beijar.
Gosto de escutar a tua respiração
E sentir o teu sopro quente nos meus lábios.

Gosto de centenas de coisas assim:
Banalidades
Sem as quais a vida não faz sentido.

Centenas.
Mas todas se resumem ao teu toque.

Podia detalhá-las uma a uma,
Podia listá-las demoradamente.
Mas basta dizer
Que gosto do teu toque.

E tu:
Também tens saudade do que não acontece?

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas?)

Exposição FOTOGRAFAR PALAVRAS #3

“Agora, sente o toque da liberdade: no espírito, no pensamento, no corpo. Nunca lhe ocorrera antes que a liberdade pudesse ser apenas isso: leveza. Mas agora sabe.”

foto minha, texto do Paulo Kellerman

O projeto Fotografar Palavras propõe como exercício criativo transformar palavras em imagens. Foi criado em 2016 pelo amigo Paulo Kellerman e conta hoje com 3381 publicações.

O que se vê no blog é uma declaração de amor às palavras e às imagens; à literatura, à fotografia e à arte em geral, numa colaboração instigante e harmoniosa que carrega a marca do Paulo: generosidade, amizade e capacidade de conciliar talentos e estilos. Afeta, emociona, faz pensar… realiza-se como arte.

A partir do dia 5 de junho, acontece no m[i]mo, em Leiria, a terceira das quatro exposições do projeto.

É um gosto e um orgulho fazer parte dela. E, principalmente, é uma felicidade ter podido estar presente no dia da inauguração, depois de dois anos de pandemia.

Aos companheiros de projeto, meu afeto e minha admiração. Ao Paulo, um obrigada gigante. Apareçam!

Até 20 de agosto de 2022

Fotografia:Ana França | Ana Gilbert | Ana Isa | Ana Leiria | Ana Marques | Ana Moderno | Ana Paula Fadoni | António Carreira | Carla de Sousa | Catarina Casaca | Célia Góis | Cristina Vicente | Diana R. Castro | Elsa Arrais | Flávia Barros | Francisco Válga | Frankie Boy | Goretti Pereira | João Antunes | João Oliveira | José Luís Jorge | Maria Augusta | Maria João Dias | Maria Jorge Soares | Mariana Costa | Mário Teixeira | Raquel Ferreira Coimbra | Renata Barbosa | Selma Preciosa | Sílvia Bernardino | Sónia Silva | Tânia Silva | Teresa Bret Afonso | Teresa David | Teresa Maria dos Santos | Teresa Marques dos Santos | Vanda Cristina | Vilma Serrano

Palavras: Ana Miguel Socorro | Andreia Azevedo Moreira | Carina Martinho Coelho | Catarina Vale | Clara Ribeiro | Elisabete Neves | Elsa Margarida Rodrigues | Helder Magalhães | Isabel Pires | Joana Gonçalves | Joana M. Lopes | Liliana Silva | Maria João Faísca | Maria João Rocha | Mónia Camacho | Nuno Pinto Bastos | Paulo Kellerman | Renata Barbosa | Sandra Francisco | Sara Viscondessa | Teresa Bret Afonso

O TEMPO (Somos Nós)

O TEMPO (Somos Nós)

Ópera na Prisão | Traction – SAMP

Libretista: Paulo Kellerman

“Porque vamos? Porque ficamos? Porque esperamos?”

Porta e viagem. Tempo e memória. Espera.

Trabalho, muito trabalho; esforço conjunto. O resultado: um espetáculo multimídia, complexo e denso, como o tema, envolvendo músicos profissionais e jovens detentos, atuações presenciais e remotas. O tema é o tempo, em seus desdobramentos de espera e viagem. O contexto onde esse tema se desenrola é a prisão: a externa, palpável, do domínio da justiça (o Estabelecimento Prisional de Leiria, Portugal), onde jovens estão à espera. E também a(s) interna(s): a das escolhas, a das ilusões, a da inconsciência, a dos valores coletivos. As portas que se nos apresentam no decorrer da vida.

“Estou farto de portas fechadas”, diz o coro.

Mas como abrir as portas? Como perceber que estamos a atravessar portas, ou a fechá-las? Como suportar ver as possibilidades e os limites? As seduções, os enganos, as necessidades, as insatisfações?

Tendo o mito de Ulisses e Penélope como fio condutor, a ópera nos guia por entre símbolos e metáforas e nos oferece a oportunidade de refletir sobre a forma como existimos no mundo, sobre a nossa relação com o tempo (ser humano é existir no tempo e no espaço), sobre a perspectiva de diferenciação entre indivíduo e coletividade. Sobre as nossas certezas protetoras. Sobre as nossas fraquezas. O espetáculo nos desestabiliza e emociona. E também nos faz sorrir em seus momentos de leveza.

O coro repete:

“Abre os olhos.” | “Estás preso e nem sabes.”

As tentações para não ver são muitas. O trabalho de consciência é constante. Exige esforço, exige escuta; é solitário. Ser cego pode ser, aparentemente, mais fácil. A lembrança de onde estamos nos faz pensar em voos, em fuga (em algum momento, fugimos todos), em regresso. Para enfrentar.

O amor surge como a luz da consciência, que não nos deixa esquecer quem somos;  como a conexão com a alma, essa instância profunda do humano, capaz de nos libertar da prisão do tempo. 

“Somos nós que fazemos o tempo. Nós é que somos a consciência do tempo.”

[assisti à estreia do espetáculo, no dia 4 de junho, no Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens. E, para mim, o espaço foi consciência.]

VI

Da minha janela vejo um campo verde
Com flores amarelas.

Toda a gente diz: que flores tão bonitas.
E eu concordo.

Gosto de as olhar
E de apreciar a sua beleza.
Serenam-me.

Mas as flores não sabem que são observadas
Nem sabem que são bonitas.

As flores estão-se a foder para o mundo,
E para a sua própria beleza.

E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

[o desassossego na poesia de Paulo Kellerman]

XXIV

XXIV

Finalmente entendi
Por que motivo algumas pessoas se suicidam.

Foi ontem:
Acordei abruptamente e soube que não conseguiria voltar a dormir.
Soube que tudo o que havia a fazer era deixar-me estar quieto.
Esperar.
Sentir o tempo passar
E remoer os pensamentos.
Os mesmos pensamentos de sempre,
Um após outro.
O desfile completo,
Previsível,
Imparável.

Remoê-los devagarinho uma vez mais.
E uma vez mais,
Chegar a lado nenhum.

Será que algum pensamento pode
Algum dia
Conduzir a algum lado?

O meu sonho maior é conseguir dormir
E durante o sono sonhar que estou acordado e livre de pensamentos.

Mas o desfile nunca pára.
E há momentos,
Como ontem,
Quando acordei abruptamente e percebi que não conseguiria voltar a dormir,
Há momentos
Em que fico um pouco desesperado.

Só um pouco.
Mas e se um dia ficar muito?

Foi então que telefonei para te dizer:
Finalmente entendi
Por que motivo algumas pessoas se suicidam.

É quando o pouco se transforma em muito.

Sim,
Eram quatro da manhã e estavas a dormir.
Mas a pergunta não me saía da cabeça,
Precisava de verbalizá-la:
E se um dia ficar muito desesperado?

Desligaste o telefone,
Voltaste a dormir.
O que sonhaste?

E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

[a poesia inquietante de Paulo Kellerman]

E quando acabarem as perguntas?

E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

de Paulo Kellerman


O Paulo tem a poesia no olhar, e tem a capacidade de criar inúmeras imagens com as palavras: imagens belas, todas, algumas terríveis em sua beleza. Gosto de como fala das relações humanas (e nos poemas não é diferente); de como o relacionar-se com o outro envolve o relacionar-se consigo mesmo. E do tom melancólico que os poemas carregam, mesmo que de forma muito sutil (junto com a sedução, a paixão, a curiosidade, a leveza). No livro, há uma busca interna profunda, desesperançada até, mas há também a vontade de seguir… porque não se pode abandonar a morte (das coisas, das relações, dos momentos, a nossa), porque isso seria abandonar a vida (com tudo o que ela provoca e permite). Vida e morte, sempre juntas; a angústia disso, a plenitude disso.

Ilustração: Maraia

XXXIX

XXXIX

Não sei o que prefiro:
Se o beijo
Ou aqueles três segundos que antecedem o beijo.

Aqueles três segundos em que tudo é certeza
E desejo, 
Destino e inevitabilidade.
Os três segundos que parecem explicar e justificar 
A existência do Universo,
E dar sentido à vida.

Preferes o beijo ou os três segundos que o antecedem?

____________

E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

[a delicada poesia do Paulo Kellerman]

Thoughts

Thoughts do not follow predictable directions; and the best ones are those that surprise us; the ones that force us to move in a new direction.

Text by Paulo Kellerman | portable link

[portable link is a collaborative account with Paulo Kellerman on Ello]

Sonho

Todas as noites sonho memórias novas.

Fotografar palavras
Projeto e texto | Paulo Kellerman
Fotos | Ana Gilbert

Cumplicidade entre imagens e palavras, entre afetos e talentos

Paulo Kellerman: 25 anos de atividade literária e de parcerias e projetos bonitos

Ilustração do postal comemorativo: Maraia (@hopefulngold)