Vazio

“- Sinto-me vazio, como se fosse apenas um recipiente à espera de ser preenchido.”

Paulo Kellerman (Aviões de papel | Edição Minimalista

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Paulo Kellerman escreve sobre a alma humana, no que ela tem de belo e sombrio. E não é diferente em Aviões de papel (seu 2º romance e 14º livro), um romance de contos que inquieta com a beleza; um texto diáfano que mistura suavidade e crueza.

Uma menina faz um avião de papel e o lança da varanda com uma frase escrita numa das asas. Espera que algo aconteça. O seu avião rasga o ar e o silêncio do domingo. A sua imaginação rasga a falta de sentido do mundo e, por um momento, suspende o tempo. Por essa fresta aberta pela imaginação passeiam desígnios, possibilidades, lampejos que ficam à espera de que alguém os perceba. E alguém percebe. Há sempre alguém capaz de reconhecer os sinais, de dar continuidade a esse fio invisível que nos conecta como seres humanos: a imaginação, ou a capacidade de criar imagens. Contudo, apesar de ser inerente ao humano, essa capacidade imaginativa pode sofrer um declínio em decorrência dos afazeres e exigências da vida cotidiana, dos estados anímicos e da intolerância com os nossos ritmos internos. Aos poucos, as imagens nos abandonam, perdemos o poder do espanto e nos tornamos literais e enrijecidos, desconectados desse fio criativo invisível. Demasiado adultos, talvez. Vazios.

Os vinte e sete contos são pequenos universos independentes dentro de um todo que é o romance. Eles nos oferecem paisagens de silêncio e dor, de dúvida e inquietude, de contentamento e otimismo, processos de diferenciação psíquica e de construção de imagens do eu. Somos guiados por um avião de papel, frágil e delicada testemunha das vidas e seus dramas, e que é o elo de ligação entre as histórias, numa costura precisa que é característica marcante de Kellerman. Objeto banal e concreto, o avião de papel (e o ato de lançá-lo ao espaço) é também uma bela e potente metáfora do imprevisível, e nem sempre bem-sucedido, processo de restauração da imaginação, tanto em termos psíquicos quanto corporais. Em seu voo efêmero e instável, a leveza do avião contrasta com o peso da realidade; o lúdico dialoga com as perturbadoras vozes que habitam as personagens e, por onde passa, o avião de papel afeta, desassossega, alimenta, traz esperança. Traduz-se em acasos, sorrisos, toques. Acrescenta alguma cor à monotonia dos dias. Provoca o surgimento de imagens.

O romance Aviões de papel delineia a sutileza do sonho em contraste com a melancolia do cotidiano sem sentido, numa multiplicidade de vozes que reverberam em nós como um labirinto de espelhos a devolver-nos inúmeras imagens do eu. Alerta para o risco da aridez e da fragmentação decorrente do declínio da imaginação, e aponta uma saída possível. Poético, incisivo e cativante, o texto emociona e nos ampara diante da inevitabilidade da queda.

Vazios…

“Terá de haver alguém (…) alguém que entenda o meu vazio porque tem em si um vazio idêntico.”

Palavras | Paulo Kellerman (A cadeira da Cinderela, Best of)

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Paulo Kellerman escreve sobre a alma humana, no que ela tem de belo e sombrio. Com sua escrita poética e incisiva, percorre paisagens de silêncio e dor, de dúvida e inquietude; delineia a sutileza do sonho e a melancolia do cotidiano sem sentido, numa multiplicidade de vozes que reverberam em nós como um labirinto de espelhos a devolver-nos inúmeras e perturbadoras imagens do eu.

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Em breve, o seu novo romance, Aviões de papel. Uma edição Minimalista.

Em voo…

O romance Aviões de papel. de Paulo Kellerman, está chegando ao Brasil | uma edição da nossa Minimalista.

Já encomendou o seu?

(encomendas pelo e-mail: minimalista.editora@gmail.com | vendas no Brasil)

Abaixo, uma bela vídeo-sinopse por Sandrine Cordeiro e Fabrício Cordeiro

gostamos de livros | escrevemos livros | publicamos livros | lemos livros

somos uma equipe de criadores das áreas de literatura, ilustração e design

as imagens das palavras

Volto a falar do nosso projeto Fotografar palavras, não apenas porque a primeira de quatro exposições está a acontecer no m|i|mo – museu da imagem em movimento, em Leiria, Portugal; mas, em especial, pelo gosto e pelo orgulho que sinto em fazer parte dele, desde quando comecei a colaborar, em junho de 2017.

Fotografar palavras é um projeto criado e dinamizado pelo escritor Paulo Kellerman. Reúne fotógrafos e escritores num desafio diário: o exercício criativo de transformar palavras em fotografias. Já conta com 2394 publicações, ao longo de quatro anos, que podem ser apreciadas no blog de mesmo nome, em sequência temporal ou nas galerias dos diferentes fotógrafos e escritores.

Apesar de ser um projeto desenvolvido em plataforma virtual, promove e alimenta relações de amizade e colaboração artística que existem para além das telas dos dispositivos tecnológicos, habitando a dimensão essencial do contato humano e ultrapassando as distâncias geográficas entre os participantes.

Acontece assim: os fotógrafos recebem excertos (anônimos) dos escritores, por intermédio do Paulo Kellerman, e encontram uma (ou mais de uma) imagem para essas palavras. Mas, como o projeto é saudavelmente transgressor de si mesmo, acontece do ponto de partida ser a fotografia e o desafio é feito a um escritor para que encontre palavras para essa imagem. Ou ainda, podem acontecer publicações em que um artista é autor tanto do texto quanto da foto. Porque os caminhos da criação são inesgotáveis  e vão despertando novos entrelaçamentos e possibilidades em cada participante.

A relação entre as imagens e as palavras reunidas numa publicação não é de submissão, isto é, uma forma de expressão não é mais importante do que outra; e muito menos de dependência ou fusão: ao serem alinhadas, imagens e palavras não se perdem, não se fusionam, mantêm a sua autonomia. O que existe é uma profunda cumplicidade entre elas, mesmo quando os artistas não se conhecem, permitindo a abertura de caminhos de leitura, de desenvolvimentos narrativos, de amplificação de afetos.

O projeto reúne perspectivas diversas e alinha diferentes estilos e subjetividades artísticas, num ambiente experimental de total respeito e liberdade cujo vigor se mantém intacto. Convida o leitor a ir além do que é apresentado, a explorar novos horizontes movido pelo desassossego, pela emoção e pela reflexão que o material suscita.

Dose diária de arte.

Aviões de papel

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O livro Aviões de papel fala da imaginação, da necessidade de se cultivar a imaginação para que a vida não se torne árida e sem sentido… Poético e cativante, o texto emociona.

SINOPSE:

É domingo. A cidade está silenciosa e imóvel. Uma menina faz um avião de papel, escreve uma frase na asa, lança-o da varanda; vê-o aterrar no passeio e fica à espera que aconteça alguma coisa. Assim se inicia a viagem de um avião de papel que irá atravessar estórias e vidas, aproximando personagens e provocando acasos, testemunhando dramas e alegrias.

Vinte e sete contos independentes cruzam-se para formar um romance de múltiplas vozes, estados de espírito, desassossegos, interrogações. Entre a angústia desesperada e o optimismo infantil, confrontam-se ângulos e pontos de vista, surgem espantos, subsistem dúvidas, espreitam esperanças. E as vidas seguem imprevisíveis, como voos incertos de aviões de papel; apenas a queda é certa.

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Aviões de papel é o 14º livro de Paulo Kellerman e a 1ª primeira publicação da nossa Minimalista.

Ilustração: Maraia | Design: Licínio Florêncio

Encomendas: minimalista.editora@gmail.com

(distribuição no Brasil)

Vida

(foto do painel no Moinho do Papel, Leiria, Portugal)

Processo criativo, trabalho conjunto, arte… precisamos disso, sempre…

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Pois sou | crônica de Paulo Kellerman 

A minha filha termina por estes dias o segundo ano de um curso de artes. Quando andava no secundário, ouviu de colegas que frequentavam outras áreas de estudo comentários sobre a irrelevância dos cursos de artes. Respondia algo do género: «Gostava de saber como aguentarias a tua vida sem música e cinema e pintura e literatura e jogos e fotografia e dança e todas as outras artes.» Costumam existir duas posições antagónicas: de um lado, um certo endeusamento dos criadores, como se fossem seres superiores a quem tudo é devido; do outro, um certo desprezo por quem cria, como se a arte nascesse do ar, dispensando a acção e o esforço. São os defensores desta última postura que vão perpetuando a velha ideia de que os criadores são pouco mais do que parasitas da sociedade; afinal, se neste momento parar de ser criada arte, no YouTube têm material suficiente para se entreterem durante uma vida ou duas. Que este pensamento subsista, é triste. Mas existe forma de o combater? Deverá haver por aí uma infinidade de propostas; portanto, não virá mal ao mundo se juntar a esse pacote mais algumas sugestões; simples e utópicas. Primeiro passo: perceber claramente que existe uma diferença entre cultura e entretenimento; não se chega a lado nenhum sem antes aceitar que uma coisa é estimular o pensamento, a acção, a curiosidade, as emoções, o sonho ou a liberdade e outra coisa é distrair ou divertir. Segundo passo: apelar àqueles criadores que se encontram em pedestais que desçam até cá abaixo e percebam que se os seus egos conversarem com os egos dos outros talvez possam nascer ideias bonitas. Terceiro passo: os defensores da teoria do artista-parasita compreenderem que o trabalho artístico é isso mesmo, trabalho; ou seja, merecedor de respeito e remuneração justa. Quarto passo: aproximar criadores e públicos numa relação de pares; nem o criador é um deus alvo de veneração, nem o público é uma entidade anónima e passiva; são pessoas. Como fazer isso? Por exemplo, criando residências artísticas de longa duração em que criadores e público-tornado-criador participam na concepção de projectos concretos (peças de teatro, exposições, livros, álbuns de música); em que todos são pagos e portanto igualmente responsabilizados e valorizados; em que todos contribuem com as suas experiências e conhecimentos; em que os trabalhos criados são públicos e sujeitos a opinião. E porquê? Porque fazer parte do processo criativo aumenta o espírito crítico; porque quem tem coragem de participar activamente deixa de veicular sentenças vazias, pois passa a conhecer na pele os desafios, as dores e os prazeres da criação e produção de algo; porque quem faz e não se limita a falar conquista liberdade e respeito. Mas quem paga? Voltamos ao início: aqueles que acham que os recursos públicos apenas devem ser canalizados para pontes e hospitais e bancos por acaso aguentariam a vida sem música e cinema e pintura e literatura e jogos e fotografia e dança e todas as outras artes? Utópico? Pois sou.

(Jornal de Leiria)

Vai ficar tudo bem?

Paisagem Wales

“A questão é que, mesmo quando a vida eventualmente voltar ao normal, não será mais o mesmo normal que conhecíamos antes do surto: coisas com as quais nos acostumamos como parte da vida cotidiana não serão mais dadas como certas, teremos de aprender a viver uma vida muito mais frágil, repleta de ameaças constantes. Será preciso mudar completamente nossa postura diante da vida, diante da nossa existência como seres humanos convivendo com outras formas de vida.”

Slavoj Zizek (Pandemia – Covid-19 e a reinvenção do comunismo)

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#vaificartudobem?

“Disseram-me, há uns anos, algo que nunca mais esqueci. Uma amiga vivia um período particularmente difícil que incluía o fim de uma relação, a perda do emprego e a morte dos pais; tentava apoiá-la no que podia e ia repetindo algumas banalidades em que genuinamente acreditava: que as coisas haveriam de melhorar, que tudo acabaria por se compor e correr bem.

Num esforço para contrariar o pessimismo depressivo e catastrofista que lhe corroía os dias, fui mantendo a minha postura de esperança e positivismo. Até que um dia ela me disse aquilo que nunca mais esqueci: «O teu optimismo até mete nojo.»

Muitos meses passaram e a vida compôs-se. Mas fiquei a perguntar-me se o excesso de optimismo poderia, afinal, incomodar. E hoje acho que sim, que pode: quando se trata de uma atitude acéfala e irracional, próxima da fé cega; quando é manifestado de maneira rotineira e distraída, automática, sem atenção nem convicção; quando serve apenas para iludir e pacificar a consciência, para demonstrar um cuidado momentâneo pouco sincero.

Tal como quando perguntamos se está tudo bem ao vizinho que encontramos no elevador; é uma forma de cortesia, uma simpatia social; mas na maioria das vezes não nos interessa realmente a resposta. E se por acaso o vizinho respondesse: «Não, está tudo mal, só me apetece morrer…»? Diríamos com grande atrapalhação: «Pois, pois…»; e aguardaríamos que a porta do elevador abrisse, decididos a começar a usar as escadas com mais frequência.

Certamente que o nosso optimismo é bem-intencionado e generoso. Mas será consequente? Será realista? Neste tempo atroz e desconcertante que vivemos vamos repetindo dezenas de vezes por dia que vai ficar tudo bem. Dizemo-lo a nós próprios e a todas as pessoas com quem nos cruzamos; escrevemo-lo em múltiplas publicações que fazemos nas redes sociais; e até o desenhamos com letras bonitas em folhas de papel que colamos nas janelas.

É um optimismo positivo e simbólico, uma forma de aproximação e de união; a exteriorização de um desejo e de uma crença, uma tomada de posição metafórica. E sentimo-nos bem por o fazer. Mas será que vai mesmo ficar tudo bem? Alguma vez pensamos nisso? Porque se pensarmos, teremos de concluir que não.

Não vai ficar bem para as pessoas que morrem; não vai ficar bem para os familiares e amigos das pessoas que morrem (e das quais nem se podem despedir); não vai ficar bem para as pessoas que perdem o emprego ou os seus negócios; não vai ficar bem para quem tem de lutar com dificuldades económicas, com incertezas e medos, com depressões e desesperos; não vai ficar bem para o vizinho que tem vontade de dizer «Está tudo mal, só me apetece morrer…» mas que se mantém em silêncio.

Todos queremos que fique tudo bem para toda a gente. Todos queremos tranquilizar quem nos rodeia, dizendo-lhes que vai ficar tudo bem. Todos queremos que nos tranquilizem, dizendo-nos que vai ficar tudo bem. Todos somos optimistas. Todos corremos o risco de começar a meter nojo.”

Paulo Kellerman (Crônica para o Jornal de Leiria)

Geografias corporais | Ensaio

Academia e arte. Brasil e Portugal. Dança, fotografia e literatura. Diálogos em torno de múltiplas corporeidades.

Projeto com o grupo de pesquisa sobre movimento Te encontro lá no Cacilda / Pulsar Cia. de Dança | Teatro Cacilda Becker, Rio de Janeiro, Brasil.

Geografias corporais: dança, corpo e deficiência | Ana Gilbert e Paulo Kellerman

Revista Interface – Comunicação, Saúde, Educação | Seção Criação

Biblioteca SciELO Brasil e SciELO Saúde Pública

(Foto: Ana Gilbert)

“Entro na sala e sorrio. Digo: Oi. Depois digo: Tudo bem? E continuo a sorrir.
(Penso: Sorrir será a melhor forma de espera, de adiamento, de suspensão?)
Olha-me e sorri. Levanta-se, aproxima-se lentamente. Depois, abraça-me.
Sinto estranheza. Não é fácil receber o abraço de uma pessoa desconhecida. Não é fácil abraçar uma pessoa desconhecida. Mas correspondo.
Foi assim que nos conhecemos. Apenas mais tarde percebi que abraçar é uma forma de comunicar; como se o abraço fosse voz, e cada abraço tivesse uma tonalidade específica. Tal como cada palavra pode ser dita com um timbre diferente.
Não o ouvi falar. Mas conheço a sua voz.”

(Paulo Kellerman)