
Sonhos de uma escrita de inverno 7





…e a inesperada cumplicidade com o amigo José Leal. Obrigada!
Tudo o que vemos é outra coisa.
A luz que entra pela fresta
não ilumina o quarto;
ilumina o meu terno desassossego.








SUTILEZAS DO OLHAR | 9
Nove anos do blog.
Por vezes, pergunto-me se um blog ainda faz sentido. Nesses momentos, é como se fosse apenas uma voz perdida no vazio de um tempo de excessos que me é estranho. Contudo, a resposta que encontro dentro de mim ainda é um sim.
Um sim ao tempo lento da contemplação que parece tão obsoleta. Sim ao amor pelas palavras e pelas imagens. Pelas palavras-imagens. Um sim às pessoas; à crença inabalável de que é e será sempre a relação que nos sustentará a humanidade.
Obrigada às pessoas que por aqui passam e deixam um tanto de si: olhares, comentários, curtidas, silêncios, respiração. Humanidade. Sem vocês, seria mais difícil.
“ Um corpo que não é visto desaparece?”
Georges Didi-Huberman
…..
Nine years of the blog.
Sometimes, I wonder whether a blog still makes sense. In those moments, it feels as though it were merely a voice lost in the void of an age of excesses that feels foreign to me. Yet the answer I find within myself is still yes.
Yes to the slow pace of contemplation, which seems so obsolete. Yes to a love of words and images. Of word-images. Yes to people; to the unshakable belief that it is, and always will be, human connection that sustains our humanity.
Thank you to those who pass through here and leave a little of themselves behind: their gaze, their comments, their likes, their silences, their breath. Humanity. Without you, it would be harder.
“Does a body that is not seen disappear?”
Georges Didi-Huberman


O que existe na hesitação do teu gesto?

Encontra-me na luz que te afaga.



Há lugares aonde só podemos chegar sós.

33 fotografias do interior do Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens (EPL-J) feitas por esses jovens.
33 textos inspirados nessas fotografias escritos por 33 autoras.
As 33 fotografias que compõem este livro nos tomam pela mão e nos levam a adentrar um outro tempo, um tempo circular feito de cotidiano e sonho, de dor e voo, de ausência e presença, de mundo interno e mundo externo.
Muito obrigada a todas e todos que tornaram possível a materialização deste livro, em especial, ao Paulo Kellerman, pelo convite, à Tânia Silva e à Patrícia Grilo, pela realização.
E, principalmente, aos jovens fotógrafos, por sua sensibilidade e habilidade em nos transportar para o tempo poético das imagens que as palavras jamais conseguirão esgotar.
LEIA AQUI
Coordenação fotográfica:
Tânia Silva
Coordenação literária:
Paulo Kellerman
Coordenação editorial:
Patrícia Grilo
Edição:
EAPN – Rede Europeia Anti-Pobreza
Apoio:
Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens(EPL-J), Centro Protocolar da Justiça, Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais
(fotografia: Paulo Kellerman)

olho a menina de meia estação
que gosta de casaco marrom
e não escuta música de criança
flor em botão
enquanto a bomba h quer explodir no jardim
saboreia palavras
como caramelos
mas antes
antes
a lembrança do mundo
antes de ser seu mundo
livro aberto sobre as pernas
as marquinhas pretas
sobre fundo branco
não consegue decifrar
ainda não sabe ler
—-
I look at the girl of in-between seasons
who likes brown coats
and doesn’t listen to children’s music
flower in bud
while the H-bomb wants to explode in the garden
she savours words
like caramels
but before
before
the memory of the world
before it became her world
an open book across her lap
the little black marks
against a white background
she cannot decipher
she still does not know how to read

Existo na sedução que a imaginação provoca.
(Um grito mudo)

NISES (2026), de Sigrid Haikel e Ana Gilbert

Ela me sorri com seu sorriso ausente. E eu me pergunto pela milésima vez o que é o amor.
