O mar

O mar em redor de mim – não tanto uma casa para habitar, mais para estar.”

Palavras | Ondjaki (Coração com ferrugem, E se amanhã o medo)

Percebes?

“Como se a minha vida, a minha presença naquela casa, apenas fizesse verdadeiro sentido enquanto falasse e o silêncio pudesse ser sinónimo de uma espécie de não existência. Percebes?”

Palavras | Paulo Kellerman (Coleccionador de eventos, Mente-me e seremos mais felizes, Escrytos, 2013)

Paulo Kellerman: 25 anos de atividade literária

Catarse galáctica

Abeirou-se de mim e chorou. Era um homem. Olhou nos olhos, em silêncio, explodiu em catarse galáctica. Os carros pararam. Os semáforos enlouqueceram e as máquinas, essas, invadiram a mente humana e passaram a definir os nossos movimentos. Passámos a beber combustível e a defecar dióxido de carbono. O sorriso passou a um conjunto de luzes intermitentes, substituindo o vulgo lábio. Passámos a pesar menos. Emagrecemos as emoções e o ritmo. O ritmo também se emagrece. Passou a ser vestigial. Os ouvidos deram lugar a microfones que, de hora a hora, debitavam ordens de comando em busca do uníssono. O uníssono das máquinas. As mãos passaram a ser impressoras, imprimindo a cada cinco minutos o desempenho de cada um. O nariz rebelou-se e foi imediatamente fechado. O conceito de flor desapareceu. E o homem, esse, parou de chorar.

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

Distanciamento social

“Distanciamento necessário ou social, respeitando a fila já acostumada ao nosso quotidiano. À minha frente, um livro gasto e cansado nas mãos de um rapaz que se adivinham beber-lhe a história. Ri-se apenas de olhos, franze o sobreolho, olha para o ar à sua volta na esperança de encontrar um olhar cúmplice e encontra. Ri-se apenas de olhos novamente. À sua frente constrói-se uma conversa de telemóvel sobre o futuro do dia que ainda é apenas de manhã. Atrás de si, eu, de ouvidos postos na música e de olhos postos no vazio da chuva que retoma a sua missão de repovoar o chão de gotas e os cabelos de água. A fila avança sem destruir as horas, já faz parte delas, como o tempo.”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Elisabete Neves
Foto| Ana Gilbert

continuas aí

“continuas aí
uma fotografia em contínua revelação
maravilho-me quando emerges
líquida resplendecendo sob o vermelho
da câmara escura
estás aqui nas minhas mãos
toco-te acaricio-te
sinto as propriedades de quem vem
do fundo das entranhas de ser
és existes já
imprimindo tacto a toda a extensão
da pele o corpo move-se
numa autêntica nova forma.”

Palavras | Helder Magalhães (Nunca estiveste aqui, Edições Húmus, 2020)

Farrapos de sensações

“… a mente cheia, completamente cheia: pedaços de imagens irreconhecíveis e farrapos de sensações difusas misturando-se com fragmentos de passado e vislumbres de futuros que nunca se concretizarão (sonhos, acho que é como lhes chamam), memórias demasiado ténues (perenes, tão perenes que poderão ser imaginadas) de sorrisos e orgasmos e dores e toques e sabores e cheiros e carícias e choros e beijos e sons e mais sorrisos. Tudo indefinido e confuso, em constante movimento caleidoscópico; arrebatando-me e distraindo-me, devorando-me.”

Palavras | Paulo Kellerman (Francisco / Ângela, Chega de fado, Deriva , 2010)

Paulo Kellerman: 25 anos de literatura, 25 anos a criar beleza com as palavras

Água com Açúcar

“As mamas mal tapadas. Tapavam-se as almas porque ao corpo vendido resguardavam-se as entranhas.”

Uma imagem para um excerto de ÁGUA COM AÇÚCAR, romance de Ana Miguel Socorro

Quarta publicação da editora Minimalista

(encomendas pelo e-mail: minimalista.editora@gmail.com)