Vermelho

Vermelho-sangue, vermelho-vida, vermelho-alma, vermelho-irmandade, vermelho-encontro, vermelho-gente… aqui, lá, em qualquer lugar…

Fotografar palavras #2677

“Hora para acordar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para defecar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para tomar o pequeno almoço. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para apanhar um transporte. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para começar a trabalhar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para tomar um café. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para regressar ao trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para almoçar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para voltar ao trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para largar o trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para ir para casa. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para… Hora para tudo e para nada. Até existe a hora da morte. Já não somos prisioneiros…”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Vitor Vieira
Foto | Ana Gilbert

Medo

“eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão “

Belchior (Pequeno mapa do tempo)

Fotografar palavras #2663

É sempre um desafio receber um texto (desconhecendo a autoria) e fazer uma leitura fotográfica das palavras. Muitas imagens surgem, mas apenas uma (às vezes, mais de uma) vai se coagular como fotografia. Este é o exercício criativo diário do Fotografar palavras, de Paulo Kellerman, projeto vigoroso e estimulante que reúne fotógrafos e escritores em torno do fascínio por palavras e imagens.

Hoje, mais uma nova parceria:

“Hoje caminhei por entre os teus pés sem que os pisasse. Não deste por mim. Respirei-te no mesmo compasso que faz dos dias noites. Não me sentiste. Fiz-me escura na brancura da tua pele, quando se encheu de luz. Persegui-te. Tentei libertar-me de ti. Não permitiste, continuaste a encher-te de luz, mesmo na podridão do dia acabado, no artificial do teu leito. Fixei-me sobre as palavras que lias, murmurei-as contigo, sem que me ouvisses. Fiz-te cansar sobre o desvanecer das horas e finalmente apagaste a luz. E finalmente fui.”

Texto: Elisabete Neves
Foto: Ana Gilbert

Primeiros azuis do ano…

“Porque não lembramos o que vimos da primeira vez que olhámos, da primeira vez que os nossos olhos se abriram para o mundo e fizeram a sua primeira focagem?”

“Recordamos tantas primeiras coisas. Mas não a primeira vez que olhámos, que cheirámos, que tocámos; que sorrimos. Como podemos esquecer o primeiro sorriso?”

Paulo Kellerman (Aviões de papel)

Uma edição Minimalista

Um tigre à porta da Sé

“Quem somos quando não somos nós?”

Palavras | Mónia Camacho (Um tigre à porta da Sé)

Esta pergunta ecoa por todo o livro da Mónia Camacho. E lateja dentro de mim. Convida-nos a percorrer o caminho em busca do que somos, de como nos definimos perante nós mesmos e os outros, e a pensar sobre o ato da escrita. Leva-nos a refletir sobre as fronteiras que criamos numa tentativa de nos dar contornos e de nos proteger do outro, mas que podem sufocar com acúmulos que não dizem de nós. Somos o que imaginamos ser? Podemos imaginar o que somos? Reescrever o que somos?

As paredes em volta

“Tinha os próprios abismos para transpor.”

Palavras | Andreia Azevedo Moreira (As paredes em volta)

A cada leitura do livro da Andreia Azevedo Moreira, vou descobrindo camadas, retirando véus de desconforto para encontrar a crueza de realidades psíquicas traumáticas e a busca por paredes (concretas ou imaginárias) que possam conter a dor. A escrita da Andreia explicita aquilo que não pode ser pronunciado em voz alta.

Fotografar palavras #2633

“14 dias a conta gotas. Cada dia é uma gota. 24 horas a cair e a desaparecer. Gosto de fingir que não entendo a sua finitude, a sua não importância, explicando-a desta forma: 24 horas a cair e a desaparecer. Afinal, o que é uma gota num oceano? É um oceano mais uma gota. Simples.

Lá fora, o frio e as feridas em sangue, em patas que já não suportam o peso. Amor sem retorno que já não se queixa de dor. Cá dentro, a lareira, dois gatos e a falsa sensação de calor. Do outro lado da rua, a insegurança. O tempo em modo decrescente. Fora dos limites geográficos do meu ninho, a ideia vaga de um oxigénio rarefeito em bolha de marfim. Impossível de respirar. O marfim é uma pedra. A pedra não tem pulmões. Nem cérebro. Nem coração. Tem apenas um corpo frio e duro. Um corpo sem pulmões não mexe. Move-se apenas com a ação conjugada de forças, mas não dança.

24 horas a cair e a desaparecer. Os meus dias em forma de gota. A ideia bonita dos dias transformados num imenso azul. É nisso que me detenho enquanto violento as insónias, quase diárias. Talvez assim custe menos ignorar a trágica ideia da gravidade. Recordo a ironia da maçã na vida de Newton. Poderia ter sido uma laranja, mas não foi. Uma melancia certamente seria uma falácia científica. Não levaria a lado nenhum. As melancias crescem na terra. As abóboras também. Ambas flores de uma terra que engole e deglute, mais tarde, corpos que não são pedras. Muito menos pedras de marfim. Essas ficam inalteráveis. Corpos quentes e moles. Corpos providos de pulmões que respiram. Uma idiossincrasia humana, enquanto a sorte o ditar. Questiono-me se os pensamentos também podem cair e desaparecer. A Elis Regina e o Nick Cave no gira-discos e um estômago alérgico a noticiários, dizem-me que sim.”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert