Sonho

“Que valor teria para mim a vida sem o sonho?”

Palavras | Raul Brandão (O Pobre de Pedir)

Paraty em Foco | Selfie em Foco 2020

Invasão, Yoshitaka Amano Series

Paraty em Foco 2020 – de 21 a 25 de outubro

Inaugurou no dia 21 de outubro a edição 2020 do Paraty em Foco – Festival Internacional de Fotografia, umas das mais importantes referências dos festivais brasileiros de fotografia.

É uma honra e uma enorme satisfação ter, novamente, uma foto minha entre as 30 selecionadas para a mostra de autorretratos, Selfie em Foco 2020.

É bonito ver que o festival acontece, apesar de todas as dificuldades que vivemos.

Como disse o fotográfo Juan Esteves:
“Só a arte salva! Paraty Em Foco 2020 Resistir é Preciso.

Palavra

“Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.”


Palavras | Orides Fontela (Poesia reunida)

Ar

“Um ar que sabia a luz e que rangia a cristal…”

Palavras | Mário de Sá-Carneiro

FLORBELA

“Sentiu-se sozinha naquela manhã. Olhou em redor e viu exatamente o mesmo que vira no dia anterior, e no outro, e no outro.”

FLORBELA, romance de Sandrine Cordeiro
Uma edição Minimalista
.
Encomendas: minimalista.editora@gmail.com

[Só]

[só]

Poeta só. 
Porque só é a solidão de um poema.
Nevoeiro é o que vejo dentro do peito.
Rarefeito o racional, banal o carnal.
Bacanal de emoções vãs.
Só está a solitude de uma prosa.
Nua de versos ou ritmos.
Crua e incerta
inserta a solidão no poeta.
Fico só com estas letras.
Chove do lado de fora da janela,
dentro do peito só nevoeiro,
orvalho e melancolia.
Só.

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Andreia Marques
Foto | Ana Gilbert

Embodied narratives

Foto-colagem I: Pulsar Companhia de Dança
Foto-colagem II: Pulsar Companhia de Dança
Foto-colagem III: Te Encontro Lá no Cacilda
Foto-colagem IV: Te Encontro Lá no Cacilda

LIVRO: Art and Activism in the Age of Systemic Crisis: Aesthetic Resilience

Em 2018, recebi um convite da pesquisadora Marijke de Valck, da Utrecht University, para participar de uma publicação acadêmica sobre arte, ativismo e estética de resiliência em tempos de crise sistêmica, com um texto sobre deficiência.
Assim nasceu o projeto fotográfico Geografias Corporais, realizado com a Pulsar Companhia de Dança e o grupo de pesquisa sobre movimento Te Encontro Lá no Cacilda.
O projeto, desafiador e fascinante, desenvolveu-se em dois caminhos complementares entre si: um ensaio fotográfico-literário, com textos inéditos de Paulo Kellerman, publicado (apenas parte do material) no periódico brasileiro Interface – Comunicação, Saúde e Educação; e um ensaio teórico-fotográfico, o capítulo 14 desta publicação: Embodied narratives: dance, corporeality, and creative processes.

O livro Art and Activism in the Age of Systemic Crisis: Aesthetic Resilience já está disponível para venda, nos formatos Kindle e hardcover aqui:

“This book will be of interest to scholars in contemporary art, history of art, film and literary studies, protest movements, and social movements.”

Sobre o capítulo:
“The focus of this chapter is to discuss an artistic experience with disability in the realm of dance. To do so, I made a photo essay with Pulsar, a Brazilian dance company, composed of dancers with normative and non-normative bodies, whose artistic proposal is to create a dialogue between spectators and different corporealities, and a research group on movement based on dance as an extension of Pulsar, named Te encontro lá no Cacilda, composed of participants with different disabilities. This chapter and its photo collages are based on the collaborative exhibition “Corporeal Geographies” which involves photography, literature and dance. Using the images as a material basis for the discussion, I explored some ideas concerning the embodied narratives performed by the dancers and captured by my camera, and the role of art in considering disability as part of human variability and as a form of resistance to understand disability within a normality frame. The embodied narratives point to creative processes that evoke an aesthetic resilience to politically reaffirm difference and multiplicity in contemporary artistic scenario.”

Cigarros | A chama de Adrião Blávio

Ainda não tenho o novo romance da Joana Lopes comigo, mas pelo que fui lendo aqui e ali, entre excertos, resenhas e comentários, sinto que “A chama de Adrião Blávio” é profundamente poético e transbordante de imagens. Mesmo sabendo que a imagem fotográfica não dará conta das belíssimas imagens construídas pelas palavras, atrevi-me a fotografar o excerto abaixo…

“Cigarros

Sinto vontade de fumar. Imagino que fumo um SG Filtro enquanto pinto um quadro para ti. O tecto é a grande tela onde nos recrio. Pinto-nos corpos porosos, cubro-os com musgos mornos e húmidos. Depois, das nossas cabeças, faço voar uma rajada de pombas. Pombas límpidas feitas de cristais e da luz que chega ao quarto através da janela. Pombas levantadas das nossas ideias para voar em círculos no espaço. Aves alabastrinas que de súbito afundam os bicos e as garras nos nossos peitos. Lázara, há pássaros brancos ensanguentados; criaturas magnânimas que nos libertam da doença e, ao desaparecerem pela janela, levam-nos as almas nas asas.”

A chama de Adrião Blávio | Joana M. Lopes
Alêtheia Editores

Adeus

“Repara na lentidão do adeus”

“Repara na suspensão do adeus”

Palavras | Filipa Leal (Vem à quinta-feira)

Vazio

“- Sinto-me vazio, como se fosse apenas um recipiente à espera de ser preenchido.”

Paulo Kellerman (Aviões de papel | Edição Minimalista

*****

Paulo Kellerman escreve sobre a alma humana, no que ela tem de belo e sombrio. E não é diferente em Aviões de papel (seu 2º romance e 14º livro), um romance de contos que inquieta com a beleza; um texto diáfano que mistura suavidade e crueza.

Uma menina faz um avião de papel e o lança da varanda com uma frase escrita numa das asas. Espera que algo aconteça. O seu avião rasga o ar e o silêncio do domingo. A sua imaginação rasga a falta de sentido do mundo e, por um momento, suspende o tempo. Por essa fresta aberta pela imaginação passeiam desígnios, possibilidades, lampejos que ficam à espera de que alguém os perceba. E alguém percebe. Há sempre alguém capaz de reconhecer os sinais, de dar continuidade a esse fio invisível que nos conecta como seres humanos: a imaginação, ou a capacidade de criar imagens. Contudo, apesar de ser inerente ao humano, essa capacidade imaginativa pode sofrer um declínio em decorrência dos afazeres e exigências da vida cotidiana, dos estados anímicos e da intolerância com os nossos ritmos internos. Aos poucos, as imagens nos abandonam, perdemos o poder do espanto e nos tornamos literais e enrijecidos, desconectados desse fio criativo invisível. Demasiado adultos, talvez. Vazios.

Os vinte e sete contos são pequenos universos independentes dentro de um todo que é o romance. Eles nos oferecem paisagens de silêncio e dor, de dúvida e inquietude, de contentamento e otimismo, processos de diferenciação psíquica e de construção de imagens do eu. Somos guiados por um avião de papel, frágil e delicada testemunha das vidas e seus dramas, e que é o elo de ligação entre as histórias, numa costura precisa que é característica marcante de Kellerman. Objeto banal e concreto, o avião de papel (e o ato de lançá-lo ao espaço) é também uma bela e potente metáfora do imprevisível, e nem sempre bem-sucedido, processo de restauração da imaginação, tanto em termos psíquicos quanto corporais. Em seu voo efêmero e instável, a leveza do avião contrasta com o peso da realidade; o lúdico dialoga com as perturbadoras vozes que habitam as personagens e, por onde passa, o avião de papel afeta, desassossega, alimenta, traz esperança. Traduz-se em acasos, sorrisos, toques. Acrescenta alguma cor à monotonia dos dias. Provoca o surgimento de imagens.

O romance Aviões de papel delineia a sutileza do sonho em contraste com a melancolia do cotidiano sem sentido, numa multiplicidade de vozes que reverberam em nós como um labirinto de espelhos a devolver-nos inúmeras imagens do eu. Alerta para o risco da aridez e da fragmentação decorrente do declínio da imaginação, e aponta uma saída possível. Poético, incisivo e cativante, o texto emociona e nos ampara diante da inevitabilidade da queda.

Teoria das cordas

“Não era isso que eu queria dizer,
queria dizer que na alma
(tu é que falaste da alma),
no fundo da alma e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio
a memória, a minha voz acordada,
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
um vazio no vazio, vagamente ciente
de si, não haver resposta
nem segredo.”

Palavras | Manuel António Pina (O coração pronto para o roubo)

Florbela

“Pediu perdão: «Meu Deus, porque sois tão bom? Tenho muita pena de vos ter ofendido, ajudai-me a não tornar a pecar.» Um pedido humanamente impossível, é certo. Talvez, por isso, a necessidade de o repetir em tantos momentos da sua vida.”

Excerto de FLORBELA, romance de Sandrine Cordeiro

Uma edição Minimalista