Ouve aquilo que não sei dizer… que não consegue escapar de mim.

Palavras | Ana Gilbert

 

Femininos pessoais | Autorretrato

Exposição Femininos pessoais | Autorretrato

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Exposição Femininos pessoais | Autorretrato

Exposição coletiva FEMININOS PESSOAIS | AUTORRETRATO
24 fotógrafas que utilizam o autorretrato como suporte de expressão.

Centro Cultural Justiça Federal | Rio de Janeiro
Abertura dia 19 de março de 2019, às 19 horas
Visitação 20 de março a 28 de abril de 2019 | terça a domingo, das 12 às 19 horas | Galerias do 2º andar

Curadoria Rococó Clean

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Nasci e moro no Rio de Janeiro, Brasil. Em paralelo às minhas atividades como psicóloga clínica e pesquisadora, desenvolvo trabalho autoral em fotografia. O gosto por essa forma de expressão artística surgiu a partir de estudos sobre o olhar, ligados à pesquisa acadêmica, como forma de testar novas perspectivas e de desafiar o risco sempre presente de cristalização e declínio da criatividade daí decorrente.

O interesse por imagens, palavras e imaginação, ferramentas do meu ofício, levou-me a trabalhar com o entrelaçamento entre fotografia e literatura. Corpo, dança (movimento) e fragmentos são temas que me são caros e neles me aprofundo em busca de desdobramentos narrativos.

As fotografias que fazem parte desta exposição integram ensaios de autorretratos. A escolha desse suporte de expressão tem como objetivo experimentar o corpo na sua relação com o mundo: a fluidez dos contornos do eu, a reverberação desses contornos no espaço, a possibilidade de contato com o outro. Corpo como ‘presença’ capaz de impactar outros corpos e os sentidos; corpo que interpela e afeta.

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Fotografar palavras #1661

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“Querido Ausente, espero que te encontres bem. Hoje fui mais cedo para o ensaio, o que me impossibilitou de ver o nosso homem jovem a olhar, furtivamente, o rio. Em contrapartida, estive muito tempo na rua. Sempre gostei de ruas, e não são raras as vezes, que sinto serem elas, as ruas, a observarem-me, e não o contrário. As ruas são uma espécie de entidade que pertence ao ar livre. Nelas, ouve-se de tudo. Listas de compras de supermercado, o preço de pneus, considerações futebolísticas, doenças, para além dos habituais “é a vida!”, “são todos uns ladrões” ou ” amanhã vai chover “. No regresso a casa, ouvi um homem dizer a outro:” São sempre os portugueses que lixam os portugueses. Mais ninguém. “Há coisas curiosas, como, por exemplo, o poder que algumas palavras têm de me transportar para outro lugar, sem qualquer autorização. O comentário sentencioso daquele português levou-me para Kafka. Para a sua história O Médico Rural. E perguntei -me quais são as regras gramaticais – caso existam – que explicam que um ser universal deverá ser como o médico rural que sai, no Inverno, da sua casa, para atender doentes que não querem ser curados mas, unicamente, serem salvos. O médico daquela história é dilacerado pelos camponeses. Não sei como as ruas fazem, querido Ausente, se calhar tapam os ouvidos e os olhos. Ou então, riem-se. Ou talvez se alimentem dos beijos dos outros. Minhas queridas ruas que tanto custaram a conquistar. 
Beijos da tua rapariga simples”
 
Projeto | Paulo Kellerman
Texto: Susana Sá
Fotos: Ana Gilbert

Sutilezas

Auto-retrato 25

Recolho sutilezas que ninguém vê.
Com elas, construo meu mundo invisível, profundo e triste.
Com elas, existo em esperança de desapegos,
em poesia pura,
em cicatrizes desenhadas.