reverberação

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reverberação

Ao escutar o som amplificado do violino, a primeira reação é de contrariedade: a melancolia do instrumento é corrompida pelo amplificador barato. Irritada, volto ao café, quero aproveitar os últimos minutos antes de começar o dia de trabalho; porém, é mais forte do que eu e me pego a imaginar que o som já terá chegado à sala (reverbera dentro de mim) e que me distrairá das histórias, das pessoas (não quero que se aninhe em algum canto escondido). Um vidro e uma parede me separam (protegem?) da cena. Folheio o livro sem foco, percorro as telas do celular sem interesse, a passar por caricaturas que são vidas, a escoar a minha própria vida. Sinto incômodo. Olho de relance e só agora noto a presença da partitura, o pé a marcar o compasso do texto. A vida entra em modo pause. Espicho o pescoço. Pela primeira vez busco ver o músico e descubro que são dois rapazes a tocar; a mala aberta no piso coberta com o pano cor de vida para receber os trocados que nem sei se dão para alguma coisa.
Tento ler seus olhos: estão lacrados, ou talvez, apenas concentrados naquelas pequenas marcas negras sobre o fundo branco. Partitura. Partido. Partes. Imagino-lhes a vida: estudantes de música, quase com certeza. Devem ser de outra cidade e vieram cursar a faculdade; alugam um quarto numa casa antiga com outros estudantes iguais a eles. Ou quase. O arco desliza, em câmera lenta; vez por outra, sons de buzinas estilhaçam o ar, impacientes. Uma criança de uns três anos se aproxima com uma nota. Quer entregá-la na mão de um dos músicos (a relação se faz de mãos que pedem e nem sempre recebem? que doam e nem sempre são acolhidas?); ainda não percebe as diagonais, as perpendiculares, os trajetos dos desencontros. A mãe indica a mala e ela deposita feliz aquilo que ainda não entende. O livro esquecido, o celular na bolsa, presto atenção à música, um Vivaldi mal executado, um inverno neste verão escaldante e empoeirado, mas que de súbito toca alguma corda em mim e provoca uma ternura por esses seres anônimos, perdidos numa cidade abandonada, a tentar espalhar alguns sorrisos distorcidos pela tecnologia, a tentar ganhar algum dinheiro distorcido pela caridade. E eu olho, penso se tenho dinheiro trocado (deveria dar alguma coisa em retribuição ao que eles provocaram em mim?). Olho as árvores em volta, a rua movimentada, os motores rasgando o asfalto, o estado de sobrevivência, e penso se estou a viver, de verdade. A tecla pause é desligada e a vida continua seu movimento autônomo. A ternura escorre, a comunhão durou pouco; também eu sou feita de desencontros. Uma pergunta grita dentro de mim: o que não fizeste por nós?

Texto e fotos | Ana Gilbert

Tens?

“Tens a medida do imenso?
Contas o infinito?
(…)
Tens a medida do sonho?
Tens o número do Tempo?”

Palavras | Hilda Hilst (Cantares de perda e predileção)