as imagens das palavras

Volto a falar do nosso projeto Fotografar palavras, não apenas porque a primeira de quatro exposições está a acontecer no m|i|mo – museu da imagem em movimento, em Leiria, Portugal; mas, em especial, pelo gosto e pelo orgulho que sinto em fazer parte dele, desde quando comecei a colaborar, em junho de 2017.

Fotografar palavras é um projeto criado e dinamizado pelo escritor Paulo Kellerman. Reúne fotógrafos e escritores num desafio diário: o exercício criativo de transformar palavras em fotografias. Já conta com 2394 publicações, ao longo de quatro anos, que podem ser apreciadas no blog de mesmo nome, em sequência temporal ou nas galerias dos diferentes fotógrafos e escritores.

Apesar de ser um projeto desenvolvido em plataforma virtual, promove e alimenta relações de amizade e colaboração artística que existem para além das telas dos dispositivos tecnológicos, habitando a dimensão essencial do contato humano e ultrapassando as distâncias geográficas entre os participantes.

Acontece assim: os fotógrafos recebem excertos (anônimos) dos escritores, por intermédio do Paulo Kellerman, e encontram uma (ou mais de uma) imagem para essas palavras. Mas, como o projeto é saudavelmente transgressor de si mesmo, acontece do ponto de partida ser a fotografia e o desafio é feito a um escritor para que encontre palavras para essa imagem. Ou ainda, podem acontecer publicações em que um artista é autor tanto do texto quanto da foto. Porque os caminhos da criação são inesgotáveis  e vão despertando novos entrelaçamentos e possibilidades em cada participante.

A relação entre as imagens e as palavras reunidas numa publicação não é de submissão, isto é, uma forma de expressão não é mais importante do que outra; e muito menos de dependência ou fusão: ao serem alinhadas, imagens e palavras não se perdem, não se fusionam, mantêm a sua autonomia. O que existe é uma profunda cumplicidade entre elas, mesmo quando os artistas não se conhecem, permitindo a abertura de caminhos de leitura, de desenvolvimentos narrativos, de amplificação de afetos.

O projeto reúne perspectivas diversas e alinha diferentes estilos e subjetividades artísticas, num ambiente experimental de total respeito e liberdade cujo vigor se mantém intacto. Convida o leitor a ir além do que é apresentado, a explorar novos horizontes movido pelo desassossego, pela emoção e pela reflexão que o material suscita.

Dose diária de arte.

Fotografar palavras #2366

“- Espero que continues liberta e inspirada e que esta chuvinha ilumine e fertilize o teu sentir.
– Há que procurar inspiração todos os dias… Beijinho agradecida pela tua bonita mensagem!…
– As mensagens bonitas são para as meninas bonitas, aquelas com música de folhas, flores e frutos sem romance. Beijinho perfumado a terra molhada…
– Uau! Não tenho palavras nem tenho essa veia artística, poética!… Apenas entendo a linguagem das plantas.
– A linguagem das plantas é escrita poética em estado de graça, e a teu gracioso modo também tu libertas essa poesia da terra.
– A sensibilidade com que lidamos com elas não é comum a toda a gente?
– A sensibilidade é um dom de pessoas raras. E elas sentem essa luz umas nas outras. É uma paixão de flores e planetas.
– É bem possível. Concordo.”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | José Alberto Vasco
Foto| Ana Gilbert

Fotografar palavras #2240

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“o amor sabe sempre a novo barrado de familiaridade
um estremecimento
como o verão que há dentro do outono ou aquela brisa que há dentro do verão
braços de quente e luz a inundar o peito
como se fora o brotar de flores num campo seco
os lábios a chegarem-se aos teus
uma inquietação
a pele a vestir-se de água
um sorriso      um grito      murmúrios
em chão de silêncio”

 

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Isabel Pires
Fotos| Ana Gilbert