Hoje, no FOTOGRAFAR PALAVRAS# 5585, a minha leitura em três atos do belo poema da Diana Erduíno.
Fotografar palavras, este espaço de arte, criado e coordenado pelo Paulo Kellerman, e que nos permite ser inúmeras ficções de nós, num processo de tradução inesgotável entre palavra-imagem-palavra.
Ela regressa lá. Muitas vezes. Todos os dias. Aproxima-se da beira do poço. Olha-o com os mesmos olhos que o gato olha a sardinha: pretos, gordos, reluzentes, famintos.
Apetece-lhe saltar. Muitas vezes. Todos os dias. Lençóis de alta linhagem para a receber. Brancos. Macios.
Quer sentir. Muitas vezes. Todos os dias. Mas recua sempre, com a certeza de que parece fácil de mais.
Recua muitas vezes. Todos os dias.
Algum dia saltará.
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She returns there. Often. Every day. She comes to the edge of the well. She looks at it with the same eyes a cat fixes on a sardine: black, round, gleaming, hungry.
She feels like jumping. Often. Every day. Sheets of a noble kind to receive her. White. Soft.
She wants to feel. Often. Every day. But she always steps back, certain it seems too easy.
She steps back often. Every day.
One day she will jump.
Texto | Text: Diana Erduino Fotografia | Photography: Ana Gilbert
O processo de criar para o projeto é sempre prazeroso. Receber o texto anônimo, ler nas entrelinhas o estilo da autora (ou autor). Adivinhar-lhe o gesto da escrita. E deixar a imaginação solta para que as imagens surjam, num primeiro momento, aleatórias. E, lentamente, acompanhá-las a ganhar forma, a pedir materialização. Até que uma (por vezes, mais de uma) se coagule em fotografia. Por fim, a publicação, quando as artistas se encontram na sintonia de suas criações.
Fotografar Palavras, 10 anos de publicações diárias, 10 anos a produzir essa magia, graças ao querido Paulo Kellerman, que tanto entende de encontros bonitos.
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Fui só mais uma playlist — tocada, guardada e riscada. Adicionada à tua biblioteca: de prazeres juvenis. Carentes de autocontrolo. Indisciplinados, pouco razoáveis. E no calor do momento — tudo foi eterno. Até ser só mais uma obra inacabada! E se tudo, de repente, fosse apenas uma nota (des)afinada? Abençoada queda — fora de tom.
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I was just another playlist — played, shelved, and scratched. Filed into your library: of youthful pleasures. Starved of self-restraint. Undisciplined, scarcely reasonable. And in the heat of the moment — everything was eternal. Until it was just another unfinished piece! And what if everything, suddenly, were nothing but an (un)tuned note? A blessed fall — out of key.
Texto | Text: Vera Fernandes Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Hoje, na publicação # 5452 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a parceria no texto é com a Fabiana Fraga.
A sombra falava baixo. Ela escutava.
Entre escolher e decidir, silenciosa.
O tempo, não.
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The shadow spoke softly. She listened.
Between choosing and deciding, silent.
Time did not.
Texto | Text: Fabiana Fraga Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Fotografar palavras, espaço de encontro entre imagem e palavra, entre pessoas. Projeto coletivo imaginado e coordenado pelo querido Paulo Kellerman. Sustentado por tod@s nós. Publicações diárias, desde 2016.
Na publicação # 5403 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a companhia é do belo poema do ~nassr
Lar
Reconheci-te no instante em que te encontrei — o teu sorriso, rebeldia talhada em alegria contida, as conversas que murmuravas às folhas de chá, como se o futuro se escondesse no perfume do vapor. Conhecia a tua alma muito antes de a tua pele dizer o primeiro olá. Não foi fogo, nem carne, nem vertigem, foi apenas o ver através: as tuas inseguranças — disfarçadas de armadura, o teu perfume — um mapa sem destino.
Ergui um lar dentro de ti. Mas o chão tremia, o vidro partiu-se sob o nosso peso, e o lar desfez-se — um fantasma de abrigo, deixando-me órfão de um lugar onde nunca vivi.
Procurei-te noutros rostos, derramei-me em corações abertos, na esperança de que guardassem o eco da saudade. Mas cada casa onde entrei era um quarto sem ar, um corpo sem morada.
Ser refugiado ensinou-me que os lares não se talham em pedra — a pedra cede sob o peso do exílio. Um ano, um lugar, e recomeça-se. Mas a alma cansa-se de paredes que não escutam.
Uma casa pode conter o corpo, mas é o lar que contém o coração. E se os lares que ergui nos outros nunca pudessem suportar o peso da minha alma? E se todo o coração precisar de repouso, mas nem todo o lugar o puder acolher? Talvez o lar não seja um destino. Talvez seja o instante do reconhecimento, o breve pulsar onde duas almas murmuram: “Também eu te procurava.”
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Home
I recognised you when I met you, your grin—rebellion carved in quiet joy, your whispered debates with tea leaves as if they held your future in their scent. I knew your soul, long before your skin introduced itself. No fire of attraction, no storm of flesh, but I saw through the layers: your insecurities—dressed as armor, your perfume—a map to nowhere.
I built a home within you. The foundation trembled, glass fractured beneath our weight, and suddenly, the home dissolved— a phantom of safety, leaving me homesick for a place I’ve never been.
I searched for you in others, emptied myself into open hearts, hoping they’d catch the echo of longing, but every house I entered was a room empty of air.
Being a refugee taught me homes aren’t carved in stone; stone crumbles under the weight of exile. One year, one place, then you build again, but the soul grows weary of walls that don’t listen.
A house may hold the body, but a home holds the heart. What if the homes I’ve built in others could not hold my soul’s weight? What if every heart needs a place to rest, but not every place can carry the heart? Perhaps home isn’t a destination. Perhaps it’s the pulse of recognition, perhaps it’s the moment two souls whisper, “I’ve been looking for you, too.”
Texto | Text: ~nassr Fotografia | Photography: Ana Gilbert
É sempre uma alegria estrear nova colaboração no projeto Fotografar Palavras Na publicação # 5369, a parceria no texto é com a Rita Bertrand.
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Eis-me, aquela que amavas, diariamente enlutada, a girar incessante no redemoinho da saudade. A pior morte é esta, a que ainda respira mas já só caminha para trás.
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Here I am, the one you loved, daily in mourning, spinning incessantly in the whirlpool of longing. This is the worst death, the one that still breathes but only walks backwards.
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Texto | Text: Rita Bertrand Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Fotografar palavras, projeto com publicações diárias, desde 2016. Criação do Paulo Kellerman, cocriado diariamente por tod@s nós.
LEMBRETE: a 6a. exposição do Fotografar Palavras fica em cartaz no m|i|mo, em Leiria (Portugal) até o dia 9 de novembro de 2025.
Para quem não puder ir, há a exposição permanente no nosso blog. Visitem aqui.
Esguia-te no véu translúcido do romance e depois conta-me como é viver em modo nude e estradas inesperadas. Pensando bem, leva-me contigo e deixa os floreados para outra.
Slip into the translucent veil of romance and then tell me what it’s like to live in nude mode and on unexpected roads. Or rather, take me with you and leave the flourishes to someone else.
Texto | Text: Sandra Francisco Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Na publicação # 5334 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a parceria no texto é com a Sandra Francisco.
Fotografar palavras é um projeto criado pelo Paulo Kellerman, há 9 anos e configura um espaço de criação livre e de encontros, graças ao talento do Paulo em agregar pessoas e afetos.
A nossa sexta exposição permanece em cartaz no m|i|mo, em Leiria, até o dia 9 de novembro de 2025. Visitem!
Esta é a minha contribuição para a performance NEM BESTAS NEM SANTAS, com o tema da opressão do feminino e o patrimônio intemporal de feminilidade.
É a quarta produção NEM MARIAS NEM MANÉIS, uma companhia jovem que tem produzido trabalhos contundentes e poéticos que nos fazem sentir e questionar. E, principalmente, que nos irmanam numa experiência de coletividade. Parabéns e muito obrigada.
A performance aconteceu ontem, 19 de setembro, no m|i|mo, em diálogo com a bela exposição do nosso projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS, em Leiria, Portugal, essa cidade que também é casa. …..
“Olha as estrelas e pensa: são minhas testemunhas. Pensa: estão a ver tudo o que sinto e faço. Tal como viram tudo o que biliões de outras mulheres sentiram e fizeram. Desde a primeira mulher que viveu. As estrelas são as mesmas. Aquelas que tu própria podes olhar enquanto pensas: são minhas testemunhas.”
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Texto: Paulo Kellerman Encenação e Dramaturgia: Cátia Ribeiro Interpretação: Andreia Mateus, Catarina Mamede, Cátia Ribeiro e Rita Rosa Movimento coreográfico: Cátia Ribeiro e Rita Rosa Ilustração ao vivo: Maraia Música: Nelson Brites Vídeo: Milady Artes manuais: Cátia Ribeiro e Sandra Ribeiro
Círculo: Daniela Mateus, Dora Fonseca, Fátima Gonçalves e Mariana Lourenço
Fotografia: Ana Gilbert, Andreia Mateus, Anna Monica Rigon, Anna Papachristou, Carina Martinho Coelho, Carolina Geiger, Cristina Vicente, Elsa Arrais, Fabiana Fraga, Federica (Final Girl 7), Jelena Stankovic, Joana Neves, Julie Flam, Martha Takahashi, Nadir Social Lens, Sêmmada Arrais, Sílvia Bernardino, Teresa Santos e Vanda Cristina
O blog FOTOGRAFAR PALAVRAS comemora 9 anos neste mês de agosto. Criado pelo querido amigo Paulo Kellerman e cuidado por tod@s nós, o projeto é uma casa artística que nos abriga e alimenta em tempos sombrios. Espaço de resistência poética, o blog une fotógrafos e escritores no amor partilhado por palavras e imagens. É uma galeria de arte que nos oferece a oportunidade de contemplação silenciosa; um outro tempo, fora da volatilidade das redes. Visitem; há muito o que ler e ver por lá.
A parceria de hoje na publicação # 5274 é com o Paulo:
Disse: o mundo está a desmoronar e ninguém o pode impedir. Disse: essa sensação de impotência é tão dolorosa. Disse: gostaria muito que alguém pudesse reverter as desgraças que vemos dia após dia. Disse: mas já não acredito mais que isso seja possível. Disse: o mundo está a morrer e ninguém pode fazer nada. Respondi: então agora sabes como deus se sente desde que o mundo existe. Agora sabes como é ser deus. Gostas?
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He said: the world is collapsing and no one can stop it. He said: this feeling of powerlessness is so painful. He said: I wish so much that someone could reverse this disgrace that we see day after day. He said: but I no longer believe it’s possible. He said: the world is dying and nobody can do anything about it. I replied: so now you know how god has felt since the world existed. Now you know what it’s like to be god. Do you like it?
-com bosques dourados, falésias amaciantes, templos, rios, lagos e estradas sem cavalos voadores ou torangeiras, onde palácios vermelhos, jardins suspensos e torres de cúpulas brancas espelhavam as nossas malváceas damascenas –
Nessa praia, estas palavras. De musselina tridente têm-nos presas a nenhum lírio fixo.
Pequenas mordidelas atlântidas de plâncton saciante que não ficaram presas ao anzol de frésia.
Deitadas, agachadas, hirtas como a renda que ainda não madrugou na água Mulheres algodoeiras do mar colhem palavras abracadabrantes
O poema acontece na costura a linha de peixe onde penduram pedras preciosas, quase invisíveis.
E o som é de figo maduro tragado a meia romã Porque é na Pangeia da manhã que se provam as despedidas e os orvalhos.
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Them, cotton-harvester women of the sea
Spread across a vast shore
—with golden woods, softening cliffs, temples, rivers, lakes, and roads untraveled by flying horses or grapefruit trees, where crimson palaces, hanging gardens, and white-domed towers mirrored our damascene mallows—
On that shore, these words. Of trident muslin, they keep us bound to no fixed lily.
Small Atlantidean nibbles of satiating plankton never caught on a freesia fishhook.
Reclining, crouched, upright— like lace not yet awakened in water— Cotton-harvester women of the sea gather abracadabra-like words.
The poem takes shape along the fishline-made seam where they hang near-invisible gems.
And the sound is that of ripe fig swallowed with half a pomegranate— For it is in each morning’s Pangaea that farewells and dewdrops are tasted.
Texto | Text: Ana Sofia Elias (com interferência de | with interference by Ana Gilbert)
Fotografia | Photography: Ana Gilbert (com interferência de | with interference by Ana Sofia Elias)
Catavento de papel para apanhadoras de tulipas nova-iorquinas
Os buses vermelhos na nuca crespa dos arvoredos carapinhudos
Onde os deuses dão umbigadas aos marsupiaizinhos.
Musseques e mussiros.
Paper pinwheel for New York tulip catchers
Red buses on the curly nape of the bushy treetops
Where gods bump bellies with tiny marsupials.
Musseques and mussiros.
Fotografar Palavras, coletivo artístico, criado pelo Paulo Kellerman, que amplifica talentos, promove encontros e parcerias. E, principalmente, alimenta afetos. Diariamente, desde 2016.
O livro “Para onde vai o tempo? Relatos e ficções à volta de contextos de vulnerabilidade”, foi publicado em 2020 pela EAPN Portugal / Rede Europeia Anti-Pobreza, Núcleo Distrital de Leiria, e conta histórias sobre as histórias que são contadas em primeira pessoa.
Aos relatos pessoais escritos por Alice, Beatriz e Jorge, integrantes do Conselho Local de Cidadãos do Núcleo Distrital de Leiria da (EAPN Portugal), juntaram-se as narrativas construídas por escritores, jornalistas, ilustradores e por mim. Numa espécie de costura teórica, escrevi um ensaio sobre o processo de ‘ficcionar-se’, isto é, de construir narrativas no presente sobre a história pessoal, ou sobre algum recorte específico dessa história.
Publicado em 2025 e apresentado no dia 1 de junho, no m|i|mo, em Leiria, o livro “Para onde vai o tempo? Olhares de diferentes geografias” parte dos relatos originais e traz narrativas fotográficas de 48 fotógrafos de 17 nacionalidades associados ao projeto Fotografar Palavras.
É uma alegria e um privilégio fazer parte também do segundo livro, agora como fotógrafa, e de ter estado presente no lançamento do livro no m|i|mo, como estive em 2020, logo antes da pandemia que tanto nos mudou a vida.
Além dos autores e de alguns fotógrafos participantes, esteve lá a Companhia Teatral Nem Marias Nem Manéis.
Hoje, no FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5133, a minha leitura fotográfica do belo poema de Ana Paula Jardim.
24 MM
É bem melhor fechar um por-do-sol dentro dos olhos Abrir planícies infinitas dentro da íris Como uma lente com 24mm de diâmetro E dez mil cores todas diferentes Fotografar esse instante dentro da córnea Para sempre Ver sobreiros como desenhos irreais espalhados pela paisagem Mulheres gigantes com ventres volumosos encostadas No meio postes de alta tensão Iluminados A disparar balas de eletricidade como farpas Que nos atingem o peito E nos deixam eletrocutadas contra o banco Ficar quieta como uma gazela amarrada no tejadilho Depois de um dia de caça Passar por pastagens e ver rebanhos de animais Reconhecê-los como iguais Comendo a mansidão e a erva do chão Na engorda À espera de ir para o matadouro Para serem degolados.
24 MM
It’s much better to close a sunset inside your eyes Open infinite plains inside the iris Like a lens with a diameter of 24mm And ten thousand different colors Photographing that instant inside the cornea Forever Seeing cork oaks as unreal drawings scattered across the landscape Giant women with bulging bellies leaning against In the middle of high-voltage poles Illuminated Firing bullets of electricity like barbs That hit us in the chest And leave us electrocuted against the bench Standing still like a gazelle tied to the roof After a day’s hunting Passing pastures and seeing herds of animals Recognizing them as equals Eating the gentleness and the grass on the ground Fattening up Waiting to go to the slaughterhouse To be beheaded.
Fotografar palavras, uma casa poética onde habitam múltiplas vozes que podem se expressar com liberdade. Criada pelo Paulo Kellerman e cuidada por todos nós. Diariamente, desde 2016.
Não me lembro de ti Nem do teu rosto Nem da tua voz ou de te ouvir rezar Não me lembro das tuas mãos no meu cabelo Nem do teu colo Nem do som dos teus passos Nem do teu cheiro Não me lembro da cor dos teus olhos a olhar para os meus Cheios de orações e de infinito Cheios de cansaço Não me lembro do teu terço pendurado no teu pescoço antes de ser meu Não me lembro do teu nome nem do meu nome na tua boca Nem de me chamares Nem de me abençoares com palavras antigas ditas em latim Benedicat tibi Dominus Não me lembro de seres o meu anjo Nem do arrastar das tuas asas Nem de me velares o sono e me guardares dentro da tua alma Sossegada Não me lembro se fui um poema casto Inacabado, intraduzível, dissonante Ditado por Deus em aramaico e que recitaste por acaso na penumbra da tua cela Como uma profecia que não se cumpriu Não me lembro de ser contigo o que não nunca cheguei a ser O que nunca consegui ser Só me lembro da tua sombra A caminhar Do barulho das tuas vestes num corredor imenso a ecoar como um cântico.
Maria dos Anjos
I don’t remember you Or your face Or your voice or hearing you pray I don’t remember your hands in my hair Or your lap Nor the sound of your footsteps Or the smell of you I don’t remember the color of your eyes looking into mine Full of prayers and infinity Full of weariness I don’t remember your rosary hanging around your neck before it was mine I don’t remember your name or my name on your lips Nor your calling me Nor blessing me with ancient words spoken in Latin Benedicat tibi Dominus I don’t remember you being my angel Nor the flutter of your wings Or watching over my sleep and keeping me in your soul Quiet I don’t remember if I was a chaste poem Unfinished, untranslatable, dissonant Dictated by God in Aramaic and which you recited by chance in the penumbra of your cell Like a prophecy that didn’t come true I don’t remember being with you what I never got to be What I never managed to be I only remember your shadow Walking The rustle of your clothes in an immense corridor echoing like a song.