
Por quanto tempo consigo suspender os meus sonhos?
For how long can I bear to suspend my dreams?
Texto | Text: Ana Gilbert
Fotografia | Photography: Linus Wincenth
Fotografar palavras, projeto bonito do Paulo Kellerman, desde 2016

Por quanto tempo consigo suspender os meus sonhos?
For how long can I bear to suspend my dreams?
Texto | Text: Ana Gilbert
Fotografia | Photography: Linus Wincenth
Fotografar palavras, projeto bonito do Paulo Kellerman, desde 2016






I
Junto a velhos carris cravados nas lajes do cais do Ginjal
De vagões desativados
E murais com retratos de homens de rosto duro e olhos de carvão
Grafitados nas paredes
E que me ignoram
Caminho desengonçada como quem se procura a si mesma
Uma indígena suburbana de saias levantadas e pernas enfiadas
Numas botas
Beges
Sujas e desajustadas
Nas orelhas umas argolas largas e prateadas
Que fazem um estranho barulho batidas pelo vento
Como música esquecida de um continente
De onde fui deportada
II
Nas grandes estruturas navais
Enferrujadas pelo tempo e esquecidas pela ganância dos homens
A mente pendurada num áspero cordão de aço
Observo o que resta de uma grande herança de homens pescadores
Sentados em bancos e nos pontões
Lançam ao rio espetados em anzóis
Sonhos, quimeras, mágoas, desalentos
Em canas curvadas e gastas pelas horas
E uma vida inteira fechada dentro de uma lata
Como conserva que azedou
III
Nas falésias casas amontoadas em ruínas
Como uma memória em escada
Sem vidros nem olhos nas janelas
Profundas como um abismo
Portas entijoladas com restos de madeira desventradas
Paredes como telas decadentes, cheias de palavras pintadas
Pisos com histórias desmoronadas
E no chão um bosque de gente esquecida
Silvas e arbustos que crescem como um caos
Pelo meio o espectro de uma árvore magnífica
Cheia de frutos rubros como ginjas maduras
Escorrem sonhos viscosos e traídos
Com um perfume que nos embebeda os sentidos
IV
Entalada num pórtico elevatório de barcos
Os pés como rodas sobre barras de ferro que descarrilaram
E ficaram estacionadas no cais do esquecimento
Escuto sons metálicos que ficaram guardados no leito do rio
Mulheres de passo apressado com cestas cheias de artroses na cabeça
Ancas largas, seios fartos e saias rodadas
E um pescoço que ficou torto pelo peso da existência
Espalhados pelo chão como um teatro de sombras
Homens com a alma embarcada em grandes arrastões
Camisas de tecido grosso arregaçadas
Cheios de sal e escamas nos braços que brilham como prata
Um sabor a vinagre na boca
São como páginas de um livro que alguém escreveu
E sepultou nas águas
V
Presos por cordas nos velhos atracadouros
Alinhados no paredão como espectros de ferro
Canoas, fragatas, faluas como navios fantasmas
Velas recolhidas e passageiros em terra
São como uma gigantesca manifestação do passado
Amontoada sobre o cais
Os rostos iluminados pela dourada luz do pôr-do-sol
Como uma despedida
Ficam a olhar petrificados o estranho trânsito fluvial
Cheios de veleiros e embarcações de luxo
Com gente sorridente que lhes acena com a mão
VI
Nas cadeiras desmembradas e atadas com panos
Espalhadas nas grandes plataformas junto a um terminal
Com corpos afundados nos estofos gastos
Sinto-me como Briseida a contemplar o horizonte
Sequestrada como um troféu na guerra de Tróia
Entregue como despojo aos caprichos de um guerreiro
Deixo-me ir na corrente na superfície a boiar
Como uma anémona indiferente
Até desaparecer na foz
Para trás a flutuar gentilmente com boias de salvação
Um Cacilheiro velho
E um Mestre cansado de navegar
Liga o motor para alcançar a outra margem.
***
Ginjal Pier
I
Next to old rails embedded in the slabs of the Ginjal pier
Of decommissioned wagons
And murals with portraits of men with hard faces and charcoal eyes
Graffitied on the walls
And who ignore me
I walk awkwardly like someone looking for herself
A suburban indigenous woman with her skirts up and her legs tucked in
In boots
Beige
Dirty and mismatched
In her ears, wide silver rings
That make a strange noise when the wind hits them
Like forgotten music from a continent
From where I was deported
II
In the great naval structures
Rusted by time and forgotten by the greed of men
My mind hangs on a rough steel cord
I observe what remains of a great heritage of fishermen
Sitting on benches and piers
Throwing hooks into the river
Dreams, chimeras, sorrows, discouragements
On reeds bent and worn by the hours
And a lifetime locked up in a can
Like preserves that have gone sour
III
On the cliffs houses heaped in ruins
Like a memory on a staircase
Without glass or eyes in the windows
Deep as an abyss
Doors hinged with the remains of gutted wood
Walls like decaying canvases, full of painted words
Floors with crumbling stories
And on the ground a forest of forgotten people
Brambles and bushes that grow like chaos
In the middle the spectre of a magnificent tree
Filled with fruits as red as ripe sour cherries
Slimy, betrayed dreams drip down
With a perfume that drenches our senses
IV
Trapped in a boat lifting gantry
Feet like wheels on iron bars that have derailed
And were parked on the quay of oblivion
I hear metallic sounds that have been stored in the riverbed
Women in a hurry with baskets full of arthritis on their heads
Wide hips, full breasts and swirling skirts
And a neck that was twisted by the weight of existence
Scattered across the floor like a shadow theater
Men with their souls on large trawlers
Thick fabric shirts rolled up
Full of salt and scales on their arms that shine like silver
A taste of vinegar in the mouth
They’re like pages from a book that someone wrote
And buried in the waters
V
Bound by ropes on the old moorings
Lined up on the wall like iron spectres
Canoes, frigates, sloops like ghost ships
Sails down and passengers ashore
They are like a gigantic manifestation of the past
Piled up on the quay
Their faces illuminated by the golden light of sunset
Like a farewell
They stare petrified at the strange river traffic
Full of sailing ships and luxury boats
With smiling people waving their hands
VI
On the dismembered chairs tied with cloths
Spread out on the large platforms next to a terminal
With bodies sunk into the worn upholstery
I feel like Briseida gazing at the horizon
Kidnapped like a trophy in the Trojan War
Delivered as spoils to the whims of a warrior
I let myself go in the current, floating on the surface
Like an indifferent anemone
Until I disappear at the mouth
Back gently floating with lifebuoys
An old coxswain
And a Master tired of sailing
Starts the engine to reach the other shore.
O belo poema | the beautiful poem: Ana Paula Jardim
FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5043
Projeto | project: Paulo Kellerman

Parceria nova no FOTOGRAFAR PALAVRAS: Cristiana Ribeiro | Publicação # 5029
Dança, que o corpo descongela, o coração aquece e a alma reencontra-se.
Dance, and the body will unfreeze, the heart will warm up and the soul will find itself again.
Fotografar palavras, projeto do Paulo Kellerman e de todos nós. Uma casa onde cabem muitos afetos e encontros. E é assim desde 2016.

Seremos capazes de sentir para além da nossa loucura branca?
Texto | Text: Ana Gilbert
Fotografia | Photography: Rui Santos
Fotografar palavras, o nosso projeto artístico criado pelo Paulo Kellerman, e que emociona desde 2016. Diariamente.

Vês o hálito que se desprende do mar quando estás distraída?
Fotografia | photograph by Matteo Magni (Ubris Project)
Fotografar palavras | transformar palavra em fotografia (to turn word into photography)
Projeto criado pelo Paulo Kellerman. Distribuindo arte e beleza desde 2016. Diariamente.

Na publicação # 4999 do Fotografar palavras, a parceria é com o querido Jorge VAz Dias.
Há sempre alguma solidão
Em quartos de hotel
Tal como um prenúncio
De escandaleira.
Há quem se suicide
Neles
E há que morra por segundos
Por prazer.
There is always a certain loneliness
In hotel rooms
Like a prelude
To scandal.
Some people commit suicide
There
And some die for seconds
For pleasure.
Texto | Text: Jorge VAz Dias
Fotografar palavras, projeto bonito do Paulo Kellerman. Nossa casa poética; lugar de encontros e afetos. Desde 2016.

Há dias em que a linguagem é inútil.
[foto minha para o texto da Mónia Camacho]
É sempre uma alegria receber um texto, saboreá-lo até desdobrá-lo em imagens e escolher uma (ou mais) que irá se coagular em fotografia.
É sempre uma alegria quando, ao ver a publicação no Fotografar Palavras, descubro que a autora é a querida Mónia Camacho.
Obrigada, Paulo Kellerman, por este lugar de encontros e afetos bonitos.
Projeto Fotografar Palavras, diariamente, desde 2016.

– Ouves o sussurro do tempo?
Texto | Text: Ana Gilbert
Fotografia | Photography: Peter A. Gilbert
Fotografar palavras, um projeto criado pelo Paulo Kellerman, que mantém seu frescor como espaço poético. Desde 2016.



FOTOGRAFAR PALAVRAS é um projeto especial, criado pelo querido Paulo Kellerman em 2016, e que continua a empolgar e surpreender com as múltiplas imagens que as palavras revelam. Um orgulho enorme fazer parte do coletivo. Participar é sempre uma declaração de amor ao projeto.
[Fotografar palavras is a special project, created by dear Paulo Kellerman in 2016, and it continues to excite and surprise with the multiple images that words reveal. I’m immensely proud to be part of the collective. Participating is always a declaration of love for the project.
Today’s collaboration is with my friend Fred Fullerton | Photos by me]
——-
Amor como um Enigma
O amor
permanece um enigma
para muitas pessoas
porque ele pode trazer infinita
alegria para uma pessoa
e um sofrimento devastador
para outra.
O amor
pode acender
instantaneamente
quente e intenso
como um incêncio
e então extinguir-se
num instante
deixando em seu rastro
um deserto de aflição
e luto.
O amor
pode confundir e sobrecarregar
aqueles que lutaram
e falharam nesse trio
clichê-
casamento
separação
divórcio
enquanto testemunham casais
que se apaixonaram jovens
e permaneceram apaixonados
devotados um ao outro
até a morte.
Outros, ainda, vivem sem
essas buscas e escolhem
a abstinência ascética
ou se acomodam com amizades
coloridas.
Love As An Enigma
Love
remains an enigma
to many people
because it can bring infinite
joy to one
and devastating misery
to another.
Love
can flare
instantaneously
hot and intense
as a wildfire
then burn itself out
in a flash
leaving in its wake
a wasteland of woe
and mourning.
Love
can puzzle and burden
those who’ve floundered
and failed in that clichéd
trifecta—
marriage
separation
divorce
while witnessing couples
who fell in love young
and remained in love
devoted to each other
until they died.
Still others do without
such quests and choose
ascetic abstinence
or settle with friendships
with benefits.

Com quantas linhas se constrói uma pausa?
How many lines does it take to build a pause?
A fotografia é da Joana Neves para o meu texto.
Fotografar palavras, um projeto bonito e generoso, criado pelo Paulo Kellerman em 2016, e que reúne artistas dos mais variados estilos em diálogos criativos.

O Sol quando se põe, desce devagar e sem pressa, mas mais depressa do que quando nasce, a queda é sempre mais veloz.
The Sun, when it sets, descends slowly and without haste, yet swifter than when it rises; the fall is always faster.
Texto | Text: Sara Viscondessa
Fotografia | Photography: Ana Gilbert
—————
O nosso querido projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS é uma criação do amigo Paulo Kellerman, que edifica diariamente (com muito trabalho e arte) esta moldura onde podemos existir com as nossas obras e as de outra(o)s artistas.
Desde 2016.
Visitem!

Cato lixo. Desde pequena transito entre a dor de perder o meu pequeno paraíso e o fascínio de dar novos significados ao que restou. Atravessamos o mar. Chegamos à restinga da Marambaia. Encontro uma bonequinha cheia de água e areia e o pedaço de um galho retorcido. Amarro um barbante na madeira e tenho um cachorro. Da boneca viro mãe. Ninguém me diz “larga isso, é sujo.” Há descuidos que libertam.
I collect rubbish. Since I was little, I’ve navigated between the pain of losing my little paradise and the fascination of giving new meanings to what remains. We crossed the sea. We arrived at the Marambaia sandbank. I find a little doll full of water and sand and a piece of a twisted branch. I tie a string to the wood and now I have a dog. With the doll, I become a mother. No one tells me “put that down, it’s dirty.” There are carelessnesses that set us free.
Texto | Text: Lorena Kim Richter
Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Fotografar Palavras, projeto bonito do Paulo Kellerman e de toda(o)s nós.
m|i|mo – museu da imagem em movimento, 2023.

Texto: Paulo Kellerman | Foto minha



Texto meu | Foto: Alon Goldsmith

Texto meu | Foto: Dean Garlick


“Existe liberdade sem vulnerabilidade?”
Texto | text: Paulo Kellerman
Exposição 2024, até 31/10/2024, no m|i|mo – museu da imagem em movimento.



É sempre uma alegria estrear parceria no projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS. Receber o texto, desdobrar algumas das múltiplas imagens que ele contém e coagulá-las em fotografias. Depois, descobrir a autoria ao ver a publicação.
Hoje, o autor parceiro é o Vinícius Dias.
……….
cadernos: palavras de plástico escritas nas asas dos sonhos
notebooks: plastic words written in the wings of dreams
Texto | Text: Vinícius Dias
Fotografia | Photography: Ana Gilbert
……….
Vale a pena lembrar que a exposição FOTOGRAFAR PALAVRAS pode ser visitada até 31 de outubro, no m|i|mo – museu da imagem em movimento, Leiria, Portugal.
Fotografar palavras, projeto criado e dinamizado pelo Paulo Kellerman. Sempre uma aventura poética. Diariamente, desde 2016.

Foto minha para o belo poema da Isabel Pires.
porque não me canso
da geometria do teu corpo?
why can’t I get enough
of the geometry of your body?
Texto | Text: Isabel Pires
Fotografia | Photography: Ana Gilbert
FOTOGRAFAR PALAVRAS, encontro entre fotografia e literatura. Dose diária de arte, criado em 2016 pelo Paulo Kellerman.
Para visitar e revisitar.

certas memórias existem apenas no corpo.
some memories exist only in the body.
Texto | Text: Ana Gilbert
Fotografia | Photography: Gunlög Mjörnheden
Fotografar Palavras, a casa que nos recebe. Um projeto criado pelo Paulo Kellerman em 2016.


É sempre uma alegria fazer parte da exposição do projeto Fotografar Palavras, a quinta que acontece no m|i|mo – museu da imagem em movimento, entre 18 de maio e 31 de outubro de 2024.
É estimulante participar de um projeto que continua a nos desafiar depois de tantos anos. Assim é o Fotografar Palavras e assim é o Paulo Kellerman, que o concebeu de forma despretensiosa e que o mantém em sua complexidade crescente, conciliando talentos, estilos e geografias, como uma casa artística para toda(o)s nós.
Obrigada, Paulo, sempre, pelos voos que o projeto nos permite.
Um abraço a todas e todos que partilham dessa alegria como vivência diária.
E até breve!

A parceria de hoje no FOTOGRAFAR PALAVRAS é com a querida Andreia Azevedo Moreira.
Entre o que de especial me acontece e acreditar que o sou, habita a subtileza de um desacerto incurável.
Between what special happens to me and believing that I am, lies the subtlety of an incurable mismatch.
Texto | Text: Andreia Azevedo Moreira
Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Fotografar Palavras, um projeto bonito criado pelo Paulo Kellerman em 2016. Dose diária de arte.
331 escritores e fotógrafos
35 países
4700 publicações +
Em breve, nova exposição em Leiria, Portugal.
[a beautiful project created by Paulo Kellerman in 2016. Daily dose of art.
331 writers and photographers
35 countries
4700+ publications
Coming soon, new exhibition in Leiria, Portugal.

Hoje, no FOTOGRAFAR PALAVRAS, a parceria é com o amigo Paulo Kellerman, criador e coordenador deste espaço de conversa entre fotografia e literatura que sentimos como a nossa casa de criação.
——-
Dentro de mim permanece a minha liberdade, intensa e caótica. Em ebulição permanente. À procura de uma janela.
Within me remains my freedom, intense and chaotic. In permanent ebullition. Looking for a window.
Texto | Text: Paulo Kellerman
Fotografia | Photography: Ana Gilbert