“Distanciamento necessário ou social, respeitando a fila já acostumada ao nosso quotidiano. À minha frente, um livro gasto e cansado nas mãos de um rapaz que se adivinham beber-lhe a história. Ri-se apenas de olhos, franze o sobreolho, olha para o ar à sua volta na esperança de encontrar um olhar cúmplice e encontra. Ri-se apenas de olhos novamente. À sua frente constrói-se uma conversa de telemóvel sobre o futuro do dia que ainda é apenas de manhã. Atrás de si, eu, de ouvidos postos na música e de olhos postos no vazio da chuva que retoma a sua missão de repovoar o chão de gotas e os cabelos de água. A fila avança sem destruir as horas, já faz parte delas, como o tempo.”
“Desligo-te. A vaga ideia de ti, paira como um novelo de ontens. Promessas de páginas confinadas na agenda. Da mão, caem-me as massinhas da canja que te faria amanhã. Baralham-se as letras, Esqueço o teu nome.”
“Não há abraço que me doa mais do que o silencioso que me amordaça as palavras. Um vilão obscuro das minhas noites. Conheci-o em tempos. Apaixonou-se por mim. Mas eu não correspondo. Visita-me de noite. Peço que não o faça. Ele resiste. Tem um pacto com a noite. A noite tem um preço. O preço de a dormir sem a sentir. Não o consigo pagar. A dívida acumula-se. A minha incapacidade de saldar a dívida tem sido a maior declaração de amor daquele abraço. O abraço silencioso que me amordaça as palavras.”
“Hora para acordar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para defecar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para tomar o pequeno almoço. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para apanhar um transporte. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para começar a trabalhar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para tomar um café. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para regressar ao trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para almoçar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para voltar ao trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para largar o trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para ir para casa. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para… Hora para tudo e para nada. Até existe a hora da morte. Já não somos prisioneiros…”
É sempre um desafio receber um texto (desconhecendo a autoria) e fazer uma leitura fotográfica das palavras. Muitas imagens surgem, mas apenas uma (às vezes, mais de uma) vai se coagular como fotografia. Este é o exercício criativo diário do Fotografar palavras, de Paulo Kellerman, projeto vigoroso e estimulante que reúne fotógrafos e escritores em torno do fascínio por palavras e imagens.
“Hoje caminhei por entre os teus pés sem que os pisasse. Não deste por mim. Respirei-te no mesmo compasso que faz dos dias noites. Não me sentiste. Fiz-me escura na brancura da tua pele, quando se encheu de luz. Persegui-te. Tentei libertar-me de ti. Não permitiste, continuaste a encher-te de luz, mesmo na podridão do dia acabado, no artificial do teu leito. Fixei-me sobre as palavras que lias, murmurei-as contigo, sem que me ouvisses. Fiz-te cansar sobre o desvanecer das horas e finalmente apagaste a luz. E finalmente fui.”
“Encosto o meu peito no teu e oiço a força do mar rebentar nas rochas… Não é tempo de atracar. Ainda não é chegado o momento de deslizar os dedos nas dunas de areia.”
“14 dias a conta gotas. Cada dia é uma gota. 24 horas a cair e a desaparecer. Gosto de fingir que não entendo a sua finitude, a sua não importância, explicando-a desta forma: 24 horas a cair e a desaparecer. Afinal, o que é uma gota num oceano? É um oceano mais uma gota. Simples.
Lá fora, o frio e as feridas em sangue, em patas que já não suportam o peso. Amor sem retorno que já não se queixa de dor. Cá dentro, a lareira, dois gatos e a falsa sensação de calor. Do outro lado da rua, a insegurança. O tempo em modo decrescente. Fora dos limites geográficos do meu ninho, a ideia vaga de um oxigénio rarefeito em bolha de marfim. Impossível de respirar. O marfim é uma pedra. A pedra não tem pulmões. Nem cérebro. Nem coração. Tem apenas um corpo frio e duro. Um corpo sem pulmões não mexe. Move-se apenas com a ação conjugada de forças, mas não dança.
24 horas a cair e a desaparecer. Os meus dias em forma de gota. A ideia bonita dos dias transformados num imenso azul. É nisso que me detenho enquanto violento as insónias, quase diárias. Talvez assim custe menos ignorar a trágica ideia da gravidade. Recordo a ironia da maçã na vida de Newton. Poderia ter sido uma laranja, mas não foi. Uma melancia certamente seria uma falácia científica. Não levaria a lado nenhum. As melancias crescem na terra. As abóboras também. Ambas flores de uma terra que engole e deglute, mais tarde, corpos que não são pedras. Muito menos pedras de marfim. Essas ficam inalteráveis. Corpos quentes e moles. Corpos providos de pulmões que respiram. Uma idiossincrasia humana, enquanto a sorte o ditar. Questiono-me se os pensamentos também podem cair e desaparecer. A Elis Regina e o Nick Cave no gira-discos e um estômago alérgico a noticiários, dizem-me que sim.”
“Como são os teus medos? Quanto medem? Têm cores? São diários ou intermitentes? Duram muito ou pouco tempo? A que sabem? São partilhados ou enterrados?“
“A minha casa existe em partes de luz e sombra, de ausência e dor. Existe à beira do mundo, das coisas, assim, em pedaços. Como uma flecha que se divide ao ser lançada ao espaço, num gesto autônomo que acontece por si.
Escrevo em busca da casa inteira, das imagens que levantarão as paredes, que completarão a costura, que anteciparão a quebra.”
Poeta só. Porque só é a solidão de um poema. Nevoeiro é o que vejo dentro do peito. Rarefeito o racional, banal o carnal. Bacanal de emoções vãs. Só está a solitude de uma prosa. Nua de versos ou ritmos. Crua e incerta inserta a solidão no poeta. Fico só com estas letras. Chove do lado de fora da janela, dentro do peito só nevoeiro, orvalho e melancolia. Só.