FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5585

Hoje, no FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5585, a minha leitura em três atos do belo poema da Diana Erduíno.

Fotografar palavras, este espaço de arte, criado e coordenado pelo Paulo Kellerman, e que nos permite ser inúmeras ficções de nós, num processo de tradução inesgotável entre palavra-imagem-palavra.

Ela regressa lá.
Muitas vezes.
Todos os dias.
Aproxima-se da beira do poço. Olha-o com os mesmos olhos que o gato olha a sardinha: pretos, gordos, reluzentes, famintos.

Apetece-lhe saltar.
Muitas vezes.
Todos os dias.
Lençóis de alta linhagem para a receber. Brancos. Macios.

Quer sentir.
Muitas vezes.
Todos os dias.
Mas recua sempre, com a certeza de que parece fácil de mais.

Recua muitas vezes. Todos os dias.

Algum dia saltará.

…..

She returns there.
Often.
Every day.
She comes to the edge of the well. She looks at it with the same eyes a cat fixes on a sardine: black, round, gleaming, hungry.

She feels like jumping.
Often.
Every day.
Sheets of a noble kind to receive her. White. Soft.

She wants to feel.
Often.
Every day.
But she always steps back, certain it seems too easy.

She steps back often. Every day.

One day she will jump.


Texto | Text: Diana Erduino
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Abraço líquido

no cibercafé e-amantes
aberto vinte e quatro horas
um homem alista-se
defronte do ecră todas as noites
para morrer
não se lembra da última vez
que dormiu ou sonhou
talvez se lembre de ter sonhado
com a própria morte
às vezes a vida é um pedaço
de uma terra imaginária
onde não é preciso passaporte
para se ser livre
o sonho de uma fuga possível
para onde cintila
o abraço líquido das luzes.

Hélder Magalhães (Nunca estiveste aqui)

XII

I wake up and wonder
How many times I have already kissed you.

It is the first thought of the day,
And I dedicate myself to it for a few minutes.

I count kisses.

And you lay by my side.
I could kiss you,
But I do not do it because I prefer to keep thinking
About kissing you.

And this says so much about me.

Poem by Paulo Kellerman

Beijar-te

Beijar-te as costas
Com a pele. As horas
São segundos.
O teu suspiro a minha
Respiração. A espera
É o ponto de partida.
És o tempo em suspenso.

[o belo poema de Jorge VAz Dias]

O meu nome

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Mia Couto [poemas escolhidos]

A demora

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto [poemas escolhidos]