
Um beijo.
Paulo Kellerman (Dicionário improvisado)

há sempre uma nota
que escapa
e arranha
o corpo da música
[there is always a note
that escapes
and claws
the body of the music]

“I said to my soul, be still, and wait without hope
For hope would be hope for the wrong thing; wait without love
For love would be love of the wrong thing; there is yet faith
But the faith and the love and the hope are all in the waiting.”
T.S. Eliot (Four quartets)

Questionamento
A imortalidade da alma?
Só penso nisso quando estou distraída
E nunca ao amanhecer e antes de tomar café
Que ainda carrego as ideias doentes de noites mal dormidas
A minha noção de alma é mais homérica
Tipo fumaça ou sombra que se desprende do corpo
Ou então um sopro em vão à maneira de Anaxímenes
Também tenho almas místicas, órficas e pitagóricas
Depende dos dias
Nunca platónicas de forma imortal
Não vá a reminiscência de algum marginal
Criminoso ou esquizofrénico fazer ninho dentro de mim para sempre
Não sei nada sobre estas questões
Nem tenho paciência para as discutir em dias que tenho a mente do avesso
Só sentir a alma em quedas verticais dentro de mim.
Questioning
The immortality of the soul?
I only think about it when I’m distracted
And never at dawn and before drinking coffee
Because I’m still carrying the sick ideas of bad nights
My notion of the soul is more homeric
Like smoke or a shadow that detaches itself from the body
Or a breath in vain in the manner of Anaximenes
I also have mystical, Orphic and Pythagorean souls
It depends on the day
Never platonic in an immortal way
Don’t go reminiscing about some outcast
Criminal or schizophrenic nest inside me forever
I don’t know anything about these issues
Nor do I have the patience to discuss them on days when my mind is inside out
I can only feel my soul falling vertically inside me.
Texto | Text: Ana Paula Jardim
Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Fotografar palavras, a nossa casa de criação. Projeto criado e coordenado por Paulo Kellerman. Publicações diárias, desde 2016.

Vem lentamente o sono
Premeditando o sonho.
O sonho que filma
O desejo.
O desejo que alimenta
O futuro.
A vida que é o teu fruto
E o mundo ser
A terra onde a árvore
Cresce, sendo esse futuro.
Lentamente nos encontramos
Na natureza de assim sermos.
Basta tornares-te
Para a luz.
Eu estarei no beijo,
Essa brisa que faz
Tilintar os ramos
As folhas e as raízes.
Amaciar também a pele
Do fruto.
Enquanto teço
Este desejo me pergunto:
E não basta isto tudo
Para nos termos
Para sempre?
Jorge Vaz Dias [@livre_no_vento_das_palavras]

“Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta.”
Hilda Hilst

Desvelar-te o caminho.
Chover em terra árida
E sermos mar
Por vir.
Semear o mundo
Com prazer.
Tomar-lhe o peito
Pulsar
E vir-nos.
Sermos a tempestade
E a quimera.
O leito
E o assunto.
O silêncio
E os beijos
À chuva.
Entranhar-nos
E humedecer
Nas dobras do calor
A que chamo
Teu corpo.


They don’t understand
They don’t understand
They don’t understand
They don’t understand
And all I need is you
Just all I need is you
They don’t understand
‘Cause they don’t talk for me
There ain’t no master plan
I came here to make peace
I’m only made to suffer
I’m only made to care
And all the time in the world
Gonna wish until it hurts
‘Cause they don’t understand
And all I need is you
But you don’t know it’s true
And all I need is you
But you don’t know it’s true
It’s impossible
Unbelievable
Do you see it now?
Do you see it now?
And our lives coming back to the start
Back to the start
Back to the start
Back to the start
Back to the start
(Anathema)


“mas quem ficará com os meus abismos se os pobres-diabos não ficarem?”
(Manoel de Barros)

Mais um ano… mais pessoas que se aproximam… e isso faz todo o trabalho valer a pena.
Um obrigada gigante a quem se mantém por perto e frequenta regularmente esta minha casa… mas também a quem se aventura e chega aqui por acaso ou acidente, mesmo que não se demore. Porque este espaço só se completa com a sua presença e o seu olhar. Espero que faça sentido…
“Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.” (Manoel de Barros)


“Cada um está só no coração da terra
traspassado por um raio de sol:
e de repente é noite.”
Salvatore Quasimodo
Meu ensaio fotográfico CLARICEANA está na Revista Tangerine # 10, na companhia de outros trabalhos lindos.


Este ensaio foi inspirado no livro Água Viva, de Clarice Lispector. Nele, autorretratos dialogam com paisagens aquáticas, oníricas em sua fluidez e atemporalidade, onde o dentro e o fora se confundem e se complementam. Juntos, formam paisagens internas, imagens-palavras que convidam à experiência sensorial, ao mergulho em águas profundas, onde luz e sombra se fazem presentes e explicitam tensões.
O fascínio exercido por essa zona limítrofe, a superfície da água, demarca a fronteira entre a vigília e o sono, entre as instâncias da psique (consciência e inconsciente). As imagens nos levam a percorrer trilhas fragmentadas e poéticas, marcadas pela alternância entre movimento e quietude. Experienciamos a relação com o espaço que nos circunda. Um espaço que é ao mesmo tempo externo e interno, Cheio e vazio. Um espaço que se descortina estranho e ampliado quando vislumbrado na superfície refletora da água ou do espelho. Múltiplos espelhos, múltiplas imagens: de nós e do mundo que habitamos e que nos habita. Instantes- já da relação “eu-tu”, coagulados como fotografias. Cenas e o seu avesso. A realidade enviesada.
O ensaio oferece a experiência pura do fluxo de vida, do instante que é como o silêncio que está no silêncio das coisas e não pode ser ouvido, a não ser com o corpo inteiro; como uma realidade que se cria a partir da escuridão e do sonho. A partir da imaginação.
Água, ar, planta, corpo. A alternância entre a sensação de dissolução e a aventura arriscada de fixar a delicadeza do encontro eu-outro, eu-mundo. Clariceana é uma tentativa de capturar o incapturável: a respiração que rege a ordem do mundo, do meu mundo. O ritmo da pulsação. A liberdade de vida e morte. O seu mistério. Efemeridade e eternidade em mim.


observo a lentidão do teu gesto.
[o toque suave da renda]
a mão pequena
[onde cabe o mundo]
o corpo desnudo
[o desejo a descoberto]
observo as articulações que se movem
[hipnótico]
dedilham memórias que espreitam inocentes
[indecentes]
feitas de luz
[sombra]
deixam a pele marcada
[cicatrizes inexistentes]
pela eternidade
[dolorosa]
dos encontros imprecisos
[improváveis]


“White room whose walls,
having neither planes nor curves nor angles,
are composed of a continuous satiny white membrane
like the flesh of some interior organ of the moon.
It is a living surface, almost wet.
Lucency breathes in and out.”
words by Anne Carson (Glass, Irony & God)

o jeito que o vento agita os cabelos
o brotar de um sorriso no canto da boca
o olhar de espanto de uma criança quando descobre o ir e vir do mar
o toque dos lábios noutros lábios pela primeira vez
e a pele que arrepia
o encontro do abraço
e as pulsações que se alinham
o sussurro do medo no meio da noite
a leitura daquele poema que me faz chorar
o raio do início dos tempos, do tempo do amor
e o teu rastro em mim
o pânico antes da queda
a dor da despedida
e a excitação da chegada
quando o dedo aciona o disparador da câmera
porque sabe que é o momento
quando fecho os olhos e vejo a luz que atravessa o tecido no varal
a palavra coagulada no papel
o exato instante em que sei que me chamas do outro lado do mundo
e o estalo de uma folha seca que se desprende do galho
o som da respiração do tempo
o último suspiro da minha mãe
e a primeira inspiração da minha menina
tudo o que me atravessa a alma é efemeramente eterno.
a alma é onde (im)permaneço.
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(im)permanence
the way the wind ruffles someone’s hair
the sprout of a smile in the corner of the mouth
the look of amazement on a child when she discovers the coming and going of the sea
the touch of lips to other lips for the first time
and the skin that shivers
the encounter of a hug
and the pulses that align
the whisper of fear in the middle of the night
the reading of that poem that makes me cry
the ray of the beginning of time, the time of love
and your trace in me
the panic before the fall
the pain of parting
and the excitement of arrival
when the finger triggers the camera shutter
because it knows it is time
when I close my eyes and see the light that passes through the fabric on the clothesline
words coagulated on paper
the exact moment when I know you call me from the other side of the world
and the snapping of a dry leaf as it detaches itself from the branch
the sound of the breathing of time
my mother’s last breath
and my little girl’s first inspiration
everything that crosses my soul is ephemerally eternal.
the soul is where I am (im)permanent.
(Ana Gilbert)


XX
Quando olho,
Vejo o que sinto.
E tu?
Sentes o que vês
Ou apenas olhas?
Como um espelho que se limita a reflectir a luz que recebe.
Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas? Edição Sem Editora, 2022)