
XIV
Uma árvore
Não saberia o que fazer
Com um espelho.
Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas? Edição Sem Editora, 2022)

XIV
Uma árvore
Não saberia o que fazer
Com um espelho.
Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas? Edição Sem Editora, 2022)

É a poesia que nos sustenta.

Gosto de te beijar.
Gosto de escutar a tua respiração
E sentir o teu sopro quente nos meus lábios.
Gosto de centenas de coisas assim:
Banalidades
Sem as quais a vida não faz sentido.
Centenas.
Mas todas se resumem ao teu toque.
Podia detalhá-las uma a uma,
Podia listá-las demoradamente.
Mas basta dizer
Que gosto do teu toque.
E tu:
Também tens saudade do que não acontece?
Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas?)

“other echoes inhabit the garden. shall we follow?”
Palavras | T.S. Eliot


Da minha janela vejo um campo verde
Com flores amarelas.
Toda a gente diz: que flores tão bonitas.
E eu concordo.
Gosto de as olhar
E de apreciar a sua beleza.
Serenam-me.
Mas as flores não sabem que são observadas
Nem sabem que são bonitas.
As flores estão-se a foder para o mundo,
E para a sua própria beleza.
E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora
[o desassossego na poesia de Paulo Kellerman]

XXIV
Finalmente entendi
Por que motivo algumas pessoas se suicidam.
Foi ontem:
Acordei abruptamente e soube que não conseguiria voltar a dormir.
Soube que tudo o que havia a fazer era deixar-me estar quieto.
Esperar.
Sentir o tempo passar
E remoer os pensamentos.
Os mesmos pensamentos de sempre,
Um após outro.
O desfile completo,
Previsível,
Imparável.
Remoê-los devagarinho uma vez mais.
E uma vez mais,
Chegar a lado nenhum.
Será que algum pensamento pode
Algum dia
Conduzir a algum lado?
O meu sonho maior é conseguir dormir
E durante o sono sonhar que estou acordado e livre de pensamentos.
Mas o desfile nunca pára.
E há momentos,
Como ontem,
Quando acordei abruptamente e percebi que não conseguiria voltar a dormir,
Há momentos
Em que fico um pouco desesperado.
Só um pouco.
Mas e se um dia ficar muito?
Foi então que telefonei para te dizer:
Finalmente entendi
Por que motivo algumas pessoas se suicidam.
É quando o pouco se transforma em muito.
Sim,
Eram quatro da manhã e estavas a dormir.
Mas a pergunta não me saía da cabeça,
Precisava de verbalizá-la:
E se um dia ficar muito desesperado?
Desligaste o telefone,
Voltaste a dormir.
O que sonhaste?
E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora
[a poesia inquietante de Paulo Kellerman]


E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora
O Paulo tem a poesia no olhar, e tem a capacidade de criar inúmeras imagens com as palavras: imagens belas, todas, algumas terríveis em sua beleza. Gosto de como fala das relações humanas (e nos poemas não é diferente); de como o relacionar-se com o outro envolve o relacionar-se consigo mesmo. E do tom melancólico que os poemas carregam, mesmo que de forma muito sutil (junto com a sedução, a paixão, a curiosidade, a leveza). No livro, há uma busca interna profunda, desesperançada até, mas há também a vontade de seguir… porque não se pode abandonar a morte (das coisas, das relações, dos momentos, a nossa), porque isso seria abandonar a vida (com tudo o que ela provoca e permite). Vida e morte, sempre juntas; a angústia disso, a plenitude disso.
Ilustração: Maraia

XXXIX
Não sei o que prefiro:
Se o beijo
Ou aqueles três segundos que antecedem o beijo.
Aqueles três segundos em que tudo é certeza
E desejo,
Destino e inevitabilidade.
Os três segundos que parecem explicar e justificar
A existência do Universo,
E dar sentido à vida.
Preferes o beijo ou os três segundos que o antecedem?
____________
E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora
[a delicada poesia do Paulo Kellerman]

XLII
O prazer é luz
E o pensamento é sombra.
Quero arder.
E tu?
E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora
[a poesia de Paulo Kellerman]

“sinto qualquer coisa extraordinária
quando nos desenhamos em desalinho
da pele alinhada com o coração”
Fotografar palavras, projeto do Paulo Kellerman e que sentimos como nosso. Dose diária de arte.
A parceria de hoje é com a querida Isabel Pires

“mas cada sílaba que nascia
trazia consigo uma maneira diferente e inútil
de te esquecer”
Alice Vieira (Os armários da noite)

“Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo”
Mia Couto [poemas escolhidos]

“Pensar que a gente cessa é íngreme. Minha alegria ficou sem voz.”
Manoel de Barros (Livro sobre nada)



Do encontro e da cumplicidade entre palavras e imagens.
Um enorme obrigada ao Breve Leonardo por esta sintonia espontânea, delicada e bela.
sabe a poema inocente
o murmúrio de luz que
se inclina nas manhãs raras
estas – onde corpo ainda está aberto ao mundo – esta
onde o corpo acorda sereno,
não resiste.
por assim dizer,
a espessa álgebra do dia ainda não se fez sentir na rotina inquieta
da voz – como osso dormente e demais,
no corpo.
por assim dizer,
nesta manhã rara
as diminutas sílabas – soltas da palavra – ainda não ocupam espaço
como a pedra brisa
ou cinza vaga que
suspensos
sabem a poema. sabem
a luz ou poema – tão intacto
inocente.

Sustentar a poesia
2022

“Qual é, afinal, a diferença entre vento e poesia?”
O gato e o vento, de Paulo Kellerman, na Antologia Minimalista (2020)

“estou a plantar florinhas nas cavidades
dos olhos para não ver mais para ver jardins”
Valter Hugo Mãe (Publicação da mortalidade)


“e as palavras que ninguém quis
silenciaram a festa do meu corpo”
(Alice Vieira)

“Como se a poesia fosse a linha mais curta entre duas almas.”
(Pedro Machado)