Us | Maps of Confinement

Translated by Han Hu

I don’t know your name, I never had the courage to ask. But we are neighbours. Of life. We live under the same skin, even though many meters of frayed fabric separate us. I don’t know where you are; I pass through our usual haunts and all I can see is your absence. Which pavement are you sitting on now? What have you been jotting down in your torn notebooks? I would love to read your notebooks, your words. Or could they be drawings? They might be scribbles, barely suggested forms, expressing nothing to me but vital to you. (I dreamed of them.) Your latent story, waiting to be told; and I would suffer from my inability to decipher you.

I miss how you wave wearing all those rings, the overlaid clothes that wrap you up on days of intense heat and that are like many layers protecting something very delicate you carry on the surface of your skin. I miss the bags that transport your world and contain your dreams; your mobile home. And I miss your smile, conquered with the daily exchange of shy looks. I never had the courage to stop and photograph you, to ask for your permission to choose the best angle, the one which shows your beauty blossoming forth. Permission to freeze your pulsation in time; to touch you with my body turned lens.

I review the sinuous choreography of those who cross your path, the averted gazes and steps demarcating territories of existence, and I ask myself which path could lead me to you. I don’t know where you are and yet I believe I can find you in some corner of myself. I’m afraid to sit next to you and see the world unveiling itself at your eye level. I’m afraid of what you carry in your body (or soul?) would, I sense, flow over me at the first touch. I’m afraid of inoculating myself with your humanity and being mortally wounded in my arrogance. I try, in vain, to protect myself with the safe distance of anesthesia.

I think our conversation would be made up of discomfort and restrained gestures; traversed by the unpleasant smell of abandonment, which trails behind you and which I can’t bear to inhale. (Would you be able to smell my antiseptic scent of sanity?) And our farewell, a mixture of relief and pain. I don’t know where you are; I don’t know your name. Would I ask, if I saw you today?

(My text to the Maps of Confinement Project)

Fotografar palavras # 3468

Será que o tempo apenas existe para que possamos ordenar a memória dos prazeres?

[Could it be that time only exists for organizing the memories of pleasure?]

fotos minhas para o texto do Paulo Kellerman

O projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS completou seis anos de vida, graças ao esforço bonito e generoso do Paulo Kellerman para juntar pessoas, talentos e afetos.

Como funciona o projeto?
Os escritores enviam excertos dos seus textos e os fotógrafos desdobram as palavras para encontrar uma (ou mais de uma) imagem. Coagulam a imagem em fotografia. A cumplicidade palavra/imagem é publicada aqui:

Todos nós, fotógrafos e escritores, formamos uma rede com o compromisso de manter acesa a chama do projeto, para levar uma dose diária de arte a quem estiver disponível para ser tocado pelas imagens e pelas palavras.

São 3469 publicações até hoje. E a partir da publicação #3462, o blog se tornou bilíngue (português/inglês).

Visitem, deixem-se afetar!

Exposição FOTOGRAFAR PALAVRAS #3

“Agora, sente o toque da liberdade: no espírito, no pensamento, no corpo. Nunca lhe ocorrera antes que a liberdade pudesse ser apenas isso: leveza. Mas agora sabe.”

foto minha, texto do Paulo Kellerman

O projeto Fotografar Palavras propõe como exercício criativo transformar palavras em imagens. Foi criado em 2016 pelo amigo Paulo Kellerman e conta hoje com 3381 publicações.

O que se vê no blog é uma declaração de amor às palavras e às imagens; à literatura, à fotografia e à arte em geral, numa colaboração instigante e harmoniosa que carrega a marca do Paulo: generosidade, amizade e capacidade de conciliar talentos e estilos. Afeta, emociona, faz pensar… realiza-se como arte.

A partir do dia 5 de junho, acontece no m[i]mo, em Leiria, a terceira das quatro exposições do projeto.

É um gosto e um orgulho fazer parte dela. E, principalmente, é uma felicidade ter podido estar presente no dia da inauguração, depois de dois anos de pandemia.

Aos companheiros de projeto, meu afeto e minha admiração. Ao Paulo, um obrigada gigante. Apareçam!

Até 20 de agosto de 2022

Fotografia:Ana França | Ana Gilbert | Ana Isa | Ana Leiria | Ana Marques | Ana Moderno | Ana Paula Fadoni | António Carreira | Carla de Sousa | Catarina Casaca | Célia Góis | Cristina Vicente | Diana R. Castro | Elsa Arrais | Flávia Barros | Francisco Válga | Frankie Boy | Goretti Pereira | João Antunes | João Oliveira | José Luís Jorge | Maria Augusta | Maria João Dias | Maria Jorge Soares | Mariana Costa | Mário Teixeira | Raquel Ferreira Coimbra | Renata Barbosa | Selma Preciosa | Sílvia Bernardino | Sónia Silva | Tânia Silva | Teresa Bret Afonso | Teresa David | Teresa Maria dos Santos | Teresa Marques dos Santos | Vanda Cristina | Vilma Serrano

Palavras: Ana Miguel Socorro | Andreia Azevedo Moreira | Carina Martinho Coelho | Catarina Vale | Clara Ribeiro | Elisabete Neves | Elsa Margarida Rodrigues | Helder Magalhães | Isabel Pires | Joana Gonçalves | Joana M. Lopes | Liliana Silva | Maria João Faísca | Maria João Rocha | Mónia Camacho | Nuno Pinto Bastos | Paulo Kellerman | Renata Barbosa | Sandra Francisco | Sara Viscondessa | Teresa Bret Afonso

5 anos de sutilezas…

SUTILEZAS DO OLHAR | 5

Este foi um ano especial, apesar das sombras da pandemia: além da produção fotográfica, o meu livro de contos pela Minimalista materializou-se. Ambos me ajudaram a continuar criativa acima de tudo. Ajudaram-me a respirar.

Um enorme agradecimento a todos os que acompanham este processo; aos que voltam por sentirem que há algo aqui que faz sentido. Aos que passam de forma breve, por curiosidade ou acaso.

“O clique acontece por dentro e o dedo aciona o disparador.
Não sei o que fotografei.
(nunca sei. iludo-me)”

Thoughts

“Thoughts do not follow predictable directions; and the best ones are those that surprise us; the ones that force us to move in a new direction.”

Text by Paulo Kellerman | portable link

[portable link is a collaborative account with Paulo Kellerman on Ello]

Sempre eu

“Importa que em tudo o que eu venha a ser, seja sempre eu.”

Mónia Camacho (Partes íntimas)

Sonho

“Todas as noites sonho memórias novas.”

Fotografar palavras
Projeto e texto | Paulo Kellerman
Fotos | Ana Gilbert

Cumplicidade entre imagens e palavras, entre afetos e talentos

Paulo Kellerman: 25 anos de atividade literária e de parcerias e projetos bonitos

Ilustração do postal comemorativo: Maraia (@hopefulngold)

Sonho

“O sonho é a minha casa.”

Paulo Kellerman

Paulo Kellerman: 25 anos de atividade literária, 25 anos a espalhar beleza em forma de palavras-imagens.

Postal comemorativo
Ilustração: Maraia

Conversas Literárias: Clarice Lispector | Água Viva

O evento CONVERSAS LITERÁRIAS: CLARICE LISPECTOR | Água Viva – desdobramentos aconteceu hoje, 01 de outubro de 2021, com a participação de Sigrid Haikel, Maria Lúcia Lorêdo Jorge, Aurea C. Torres e eu.

Conversas Literárias é o núcleo de literatura do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro (IJRJ /AJB), e o evento aconteceu no âmbito das CONVERSAS JUNGUIANAS.

A renda do evento será revertida para a Casa das Palmeiras – Nise da Silveira.

O vídeo e o texto abaixo são a minha contribuição para o evento.

Comecei a participar do grupo Conversas Literárias há pouco tempo. Quando entrei, o livro Água Viva, de Clarice Lispector, avançava para o seu final. Porém, ele já reverberava dentro mim: vinha fotografando suas frases, usando, por vezes, a vertente do autorretrato como forma de expressão. Assim, quando surgiu a ideia de apresentarmos os nossos desdobramentos do livro, compreendi que só poderia trazer a vivência da leitura através destas imagens-palavras.

Falar de Água Viva é falar do entrelaçamento entre palavra e imagem, relação essa que me é tão cara como terapeuta e artista. Em um texto que escapa à definição de romance, no sentido de uma história mais estruturada, com personagens e ações mais claramente delimitadas, Clarice dá vazão a um fluxo de consciência de extrema beleza e profundidade. Convida-nos ao mergulho e avisa-nos dos perigos. O perigo das palavras e suas sombras. Da tensão que existe entre as palavras e as imagens que delas emanam. O fascínio exercido por essa zona limítrofe, a superfície da água, que demarca a fronteira entre a vigília e o sono, entre as instâncias da psique (consciência e inconsciente).

E nós aceitamos o convite. Sabedoras do que nos espera. Nunca preparadas. Acompanhamos a personagem/narradora, um eu feminino, que escreve a um tu masculino, um tu que é também cada uma de nós, leitoras. Percorremos trilhas de qualidade aquática, fragmentadas e poéticas, marcadas pelo tempo lento da alternância entre movimento e quietude. Experimentamos, em nós, o assombro do instante-já de que fala a narradora, a vivência de algo que escapa à racionalidade e se manifesta como fluxo. Experienciamos a relação com o espaço que nos circunda. Um espaço que é, ao mesmo tempo, externo e interno. Cheio e vazio. Um espaço que se descortina estranho e ampliado quando vislumbrado na superfície refletora da água ou do espelho. Múltiplos espelhos, múltiplas imagens: de nós e do mundo que habitamos e que nos habita. Instantes-já da relação eu-tu, coagulados como fotografias. Cenas e, com elas, a profundidade das palavras que nos leva ao seu outro lado: à sua sombra, ao seu avesso. À realidade enviesada. Da água morna e convidativa à queimadura dolorosa da água-viva.

Contudo, ela, a personagem (e a própria Clarice, talvez), precisa respirar; a intensidade pode ser demasiadamente cansativa e é preciso repousar. Deste modo, a experiência pura desse fluxo de vida oferece-nos, a cada tanto, uma pausa, um olhar para o que há de mais banal no cotidiano, uma respiração mais longa, um relaxar de músculos que nos prepara para o mergulho seguinte. Para o milagre seguinte. Para o que há “detrás do pensamento”.

A personagem/narradora é pintora e quer escrever como pinta: com o corpo todo. Quer escrever com as palavras que estão justamente aí, atrás do pensamento, como quem fotografa o instante, instante esse que é como o silêncio que está no silêncio das coisas e não pode ser ouvido, a não ser com o corpo inteiro; como uma realidade que se cria a partir da escuridão e do sonho. A partir da imaginação.

É assim que li Água Viva, com o corpo todo. E da imaginação surgiram pinturas. Pinturas feitas com luz. Fotografias. Água, ar, planta, corpo. A alternância entre a sensação de dissolução que o texto, por vezes, suscita e a aventura arriscada de fixar a delicadeza do encontro eu-outro, eu-mundo.

O que vai ser apresentado a seguir é um vídeo feito com estas imagens-palavras; uma tentativa de capturar o incapturável: a respiração que rege a ordem do mundo, do meu mundo. O ritmo da pulsação. A liberdade de vida e morte. O seu mistério. Efemeridade e eternidade em mim.