Fotografar palavras # 4467

Liturgias

Poemas são orações que se escutam nas ruínas de um convento
São rezas matinais em busca da salvação
Poemas são murmúrios de monjas enclausuradas
Que escrevem palavras ilegíveis com os pés no chão de pedra
São como credos depositados no altar para dizer a nossa solidão
Poemas são cânticos de louvor entoados por anjos exilados
Em igrejas à espera de libertação
Anunciações de uma verdade pura e redentora
No ventre impossível de uma virgem estéril
Contas de um rosário de Ave Marias
A procurar narrar o mistério do mundo
Poemas são flagelos
Chagas abertas em corpos incomunicáveis e crucificados como o meu
Sem sacrifício ou Agnus Dei profético que o consiga resgatar
Poemas são rituais litúrgicos
Pautas de música gregoriana com o som da tua voz a ecoar dentro de mim
Livro de Salmos de um amor impossível.

Liturgies

Poems are prayers heard in the ruins of a convent
They are morning prayers in search of salvation
Poems are the murmurs of cloistered nuns
Who write illegible words with their feet on the stone floor
They are like creeds placed on the altar to tell of our loneliness
Poems are songs of praise sung by exiled angels
In churches waiting for liberation
Announcements of a pure and redeeming truth
In the impossible womb of a sterile virgin
Beads from a rosary of Hail Marys
Trying to narrate the mystery of the world
Poems are scourges
Open wounds on incommunicable and crucified bodies like mine
With no sacrifice or prophetic Agnus Dei to rescue it
Poems are liturgical rituals
Staves of Gregorian music with the sound of your voice echoing inside me
A book of Psalms for an impossible love.

Texto | Text: Ana Paula Jardim
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

FOTOGRAFAR PALAVRAS, este nosso projeto bonito, criado e dinamizado pelo Paulo Kellerman

Mixture of memory

As for me I am neither happy nor unhappy; I lie suspended like a hair or a feather in the cloudy mixtures of memory.

Lawrence Durrell (The Alexandria Quartet)

there

“I stand up and look in the mirror and think: There she is. She’s looking at you.”

Lydia Davis (Examples of confusion)

Estilhaços de luz

Aguardo a hora do dia em que a luz explode sobre a tua pele e me atinge o olhar com os seus estilhaços. O desejo cega-me.

Memórias

certas memórias existem apenas no corpo.

some memories exist only in the body.

Lançamento

Ontem, no m[i]mo – museu da imagem em movimento, aconteceu a apresentação do livro GEOGRAFIAS CORPORAIS, com o Paulo Kellerman. Não poderia ser mais significativo: apresentar este livro na sala onde decorre a exposição do Fotografar Palavras, projeto que deu início a esta parceria e amizade.
Obrigada a quem participou!

Sonhando rajadas

O livro A chama de Adrião Blávio (2020), de Joana M. Lopes, é hipnótico em sua beleza poética e cortante. É inesgotável na capacidade de suscitar imagens em mim. A cada leitura, uma torrente de possibilidades imagéticas se apresenta e, eventualmente, sinto vontade de coagular uma delas em fotografia. Como agora. Mesmo sabendo que é apenas uma leitura parcial e imprecisa de algo muito maior.

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Sonhando rajadas

Dissolução e êxtase. Verdade ancestral, antes do pensamento. Pássaros com olhos feitos de vento. Asas sou e nuvens e um bico flamejante atravessando um tecto em absoluta expansão. É o perfume da Tília que se espalha, é o pólen que em ti dança e explode, Lázara, hipnótica brisa na seara. Toco-te em toda parte, pois és em todo o lado. Orgia intocável do tudo. Pulmões como grutas insufladas do teu nome. Vento inaugurando o mundo. Respiro-te, Lázara: hálito quente, palpitação carnívora, eco cardíaco repercutido no ar. Rajada absoluta onde me desagrego.

Associazione Culturale Focus

15/03/2023 | 17 horas (Brasil)

A convite da Associazione Culturale Focus, conversarei sobre fotografia e o livro Geografias Corporais, com Fabiana Mingoni e Paulo Kellerman.

(acesso livre – o link será disponibilizado próximo à hora do evento)