O primeiro azul do ano… que se descortina deste meu espaço de criação. Em 2025, comemoro 20 anos da defesa do meu mestrado, o primeiro degrau na trajetória acadêmica. Ele foi a porta de entrada para as leituras teóricas sobre fotografia e para o meu exercício fotográfico. São também 20 anos de autorretratos. Neste ano de 2025, há muito o que comemorar… novas parcerias, novos projetos acadêmicos e trabalhos artísticos. E há este espaço, ao mesmo tempo vazio e pulsante, externo e interno, que me desafia a criar e a ir além do que sei de mim.
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The first blue of the year… which unfolds from this creative space of mine. In 2025, I celebrate 20 years since defending my master’s dissertation, the first step in my academic journey. It was the gateway to theoretical readings on photography and to my photographic practice. These are also 20 years of self-portraits. This year, there is much to celebrate—new partnerships, new academic projects, and artistic works. And there is this empty yet vibrant space, both external and internal, challenging me to create and to go beyond what I know about myself.
If I stopped looking at myself in the mirror, would I be able to forget my face? Would I be able to forget how I am, what I am, who I am? Would I be able to forget myself?
Será que se deixar de me olhar ao espelho conseguirei esquecer o meu rosto? Conseguirei esquecer como sou, o que sou, quem sou? Conseguirei esquecer-me?
There is a certain way of breathing in which the body enters into perfect harmony with the universe; a way in which they breathe together. It’s something you practice. Or that you imagine.
Acordo sobressaltada de madrugada. Tento identificar alguma dor no meio deste mal-estar difuso, mas o que sinto é solidão. Estive sempre sozinha. E hoje não poderia ser diferente. A barriga de nove meses é acanhada, como que a desculpar-se por existir. E não deveria mesmo existir. O que aconteceu naquele momento era para ser esquecido. Mas não foi. Está aqui. Inteiro. Pulsante.
Algo se mexe por dentro: ossos se afastam, a estrutura se modifica, lenta. Pequeno terremoto interno. Queres nascer. Meu corpo quer te expulsar. A ti, que estiveste comigo durante estas trinta e oito bem contadas semanas. A cama está molhada e fria. As comportas se abriram e a água encharcou os lençóis. Respiro com dificuldade; os dedos tateiam a pele como olhos.
Levanto um pouco atordoada, sei de memória o que é preciso ser feito: mala, táxi, médico. Os gestos trêmulos percorrem a casa guiados apenas pela luz que entra da rua. Os pés descalços caminham, incertos, e sentem o incômodo áspero do piso.
Tenho medo. Acho que tenho muito medo.
Visto o casaco que foi da mãe. Lembro dela, evoco o seu cheiro e tento imaginar o que sentiu quando eu estava para nascer. Embrulho-me na lã gasta, tantas vezes lavada, e quero que ela me agasalhe como o meu ventre faz contigo. A mãe, mistura de cuidado e distância. Busco o retrato na gaveta. Desejo súbito de tocá-lo neste momento. Estamos as duas. Ela sorri comigo nos braços. Eu sorrio ao olhar a foto. Esforço-me por apreender o que é essencial; não sei se consigo. Retardo a saída, procuro adiar o inevitável.
Dentro do elevador, o espelho observa-me, insensível.
Quando chega o carro, vejo nos olhos do taxista as dúvidas sobre aceitar-me como passageira. É apenas um lampejo e, afinal, permite que entre no carro. Diminui o volume do rádio que despeja notícias da madrugada numa voz pastosa. O trajeto é feito de lembranças dispersas que deslizam pelos fios da iluminação urbana. Reparo nas janelas acesas e imagino vidas. Penso nos bebês que nascem neste exato momento; nos casais que trepam, ou discutem. Nas crianças que acordam de pesadelos e chamam pela mãe. Nas mulheres que sonham em voltar enquanto observam a vista. Voltar para onde?
O desconforto aumenta. A realidade me invade em contrações.
O táxi para diante da emergência do hospital. Percebo que o motorista quer me despachar logo, não vá ter que fazer um parto no meio da madrugada. E, ainda por cima, sujar o banco todo de sangue. Desço com dificuldade e me encaminho para a entrada. Sou recebida ainda na rampa e colocada numa cadeira de rodas. O edifício me engole e eu mal consigo engolir o choro.
Peregrino pelas salas, vou ouvindo coisas a meu respeito que não identifico bem. Sou tocada, perfurada, verificada, medida. Anônima em meio aos números. Distante de ser pessoa. Aperto as coxas involuntariamente. Por vergonha ou porque, agora descubro, não te quero perder. Penso que ainda é cedo; quero contar as histórias de que sou feita. Desenhar as fronteiras da tua existência. Saber-te na imagem refletida, ainda que eu não te possa ver; perceber a presença na ausência.
Ainda não sei como é ser mãe.
Sou despida das roupas e das palavras que balbucio ofegante sem ser ouvida. Faz frio e o lençol branco e brando que agora me cobre é como a luz infinita que existe na sombra. Os olhos são puro espanto. Mas ninguém repara. Sou um corpo desordenado, a reproduzir espasmos imemoriais que seguem um roteiro que me é desconhecido. O coração acelera com o esforço. O suor escorre. A dor que sinto existe para além do anteparo de pano azul que parece separar a parte instintiva da pensante. Penso o meu corpo ou ele me pensa a mim?
– Respira, força, falta pouco! – ouço.
Algo se rasga dentro de mim e o meu grito não tem som. É um grito feito de certeza e dor. A dor que é nada se comparada ao medo. Acordo para um outro estado de percepção. Sinto as ínfimas sensações. Frementes. O espaço ondula. Mãos trabalham no meu corpo e no teu. As minhas apertam com força as bordas da mesa. Os movimentos são intensos e eu perco o controle.
Nasces. Como um poema. Lápis em atrito, a despejar palavras desordenadas no papel. Arranhaduras de pele com pele, em abalos convulsivos. A sensação viscosa de morte iminente. A explosão que te leva a uma outra vida num mundo aterrador. Fio que se espalha e nos mantém unidas, mas que carrega o prenúncio da separação. Escrever é saber cortar. Nascer é aprender a ser só. Separada de mim. Apesar de mim. Comigo. Sorrio. Como se fosse a primeira vez. É a primeira vez. Para ti.
Leio-te em voz alta. Reconheço-te. Poema escorreito que desembocou na margem, enfim
(A hora, in A respiração do tempo, Minimalista, 2022)
FOTOGRAFAR PALAVRAS é um projeto especial, criado pelo querido Paulo Kellerman em 2016, e que continua a empolgar e surpreender com as múltiplas imagens que as palavras revelam. Um orgulho enorme fazer parte do coletivo. Participar é sempre uma declaração de amor ao projeto.
[Fotografar palavras is a special project, created by dear Paulo Kellerman in 2016, and it continues to excite and surprise with the multiple images that words reveal. I’m immensely proud to be part of the collective. Participating is always a declaration of love for the project.
Today’s collaboration is with my friend Fred Fullerton | Photos by me]
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Amor como um Enigma
O amor permanece um enigma para muitas pessoas porque ele pode trazer infinita alegria para uma pessoa e um sofrimento devastador para outra.
O amor pode acender instantaneamente quente e intenso como um incêncio e então extinguir-se num instante deixando em seu rastro um deserto de aflição e luto.
O amor pode confundir e sobrecarregar aqueles que lutaram e falharam nesse trio clichê- casamento separação divórcio
enquanto testemunham casais que se apaixonaram jovens e permaneceram apaixonados devotados um ao outro até a morte.
Outros, ainda, vivem sem essas buscas e escolhem a abstinência ascética ou se acomodam com amizades
coloridas.
Love As An Enigma
Love remains an enigma to many people because it can bring infinite joy to one and devastating misery to another.
Love can flare instantaneously hot and intense as a wildfire then burn itself out in a flash leaving in its wake a wasteland of woe and mourning.
Love can puzzle and burden those who’ve floundered and failed in that clichéd trifecta— marriage separation divorce
while witnessing couples who fell in love young and remained in love devoted to each other until they died.
Still others do without such quests and choose ascetic abstinence or settle with friendships