A cada leitura do livro da Andreia Azevedo Moreira, vou descobrindo camadas, retirando véus de desconforto para encontrar a crueza de realidades psíquicas traumáticas e a busca por paredes (concretas ou imaginárias) que possam conter a dor. A escrita da Andreia explicita aquilo que não pode ser pronunciado em voz alta.
“14 dias a conta gotas. Cada dia é uma gota. 24 horas a cair e a desaparecer. Gosto de fingir que não entendo a sua finitude, a sua não importância, explicando-a desta forma: 24 horas a cair e a desaparecer. Afinal, o que é uma gota num oceano? É um oceano mais uma gota. Simples.
Lá fora, o frio e as feridas em sangue, em patas que já não suportam o peso. Amor sem retorno que já não se queixa de dor. Cá dentro, a lareira, dois gatos e a falsa sensação de calor. Do outro lado da rua, a insegurança. O tempo em modo decrescente. Fora dos limites geográficos do meu ninho, a ideia vaga de um oxigénio rarefeito em bolha de marfim. Impossível de respirar. O marfim é uma pedra. A pedra não tem pulmões. Nem cérebro. Nem coração. Tem apenas um corpo frio e duro. Um corpo sem pulmões não mexe. Move-se apenas com a ação conjugada de forças, mas não dança.
24 horas a cair e a desaparecer. Os meus dias em forma de gota. A ideia bonita dos dias transformados num imenso azul. É nisso que me detenho enquanto violento as insónias, quase diárias. Talvez assim custe menos ignorar a trágica ideia da gravidade. Recordo a ironia da maçã na vida de Newton. Poderia ter sido uma laranja, mas não foi. Uma melancia certamente seria uma falácia científica. Não levaria a lado nenhum. As melancias crescem na terra. As abóboras também. Ambas flores de uma terra que engole e deglute, mais tarde, corpos que não são pedras. Muito menos pedras de marfim. Essas ficam inalteráveis. Corpos quentes e moles. Corpos providos de pulmões que respiram. Uma idiossincrasia humana, enquanto a sorte o ditar. Questiono-me se os pensamentos também podem cair e desaparecer. A Elis Regina e o Nick Cave no gira-discos e um estômago alérgico a noticiários, dizem-me que sim.”
“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.” . Clarice Lispector (Água viva)
Paulo Kellerman escreve sobre a alma humana, no que ela tem de belo e sombrio. E não é diferente em Aviões de papel (seu 2º romance e 14º livro), um romance de contos que inquieta com a beleza; um texto diáfano que mistura suavidade e crueza.
Uma menina faz um avião de papel e o lança da varanda com uma frase escrita numa das asas. Espera que algo aconteça. O seu avião rasga o ar e o silêncio do domingo. A sua imaginação rasga a falta de sentido do mundo e, por um momento, suspende o tempo. Por essa fresta aberta pela imaginação passeiam desígnios, possibilidades, lampejos que ficam à espera de que alguém os perceba. E alguém percebe. Há sempre alguém capaz de reconhecer os sinais, de dar continuidade a esse fio invisível que nos conecta como seres humanos: a imaginação, ou a capacidade de criar imagens. Contudo, apesar de ser inerente ao humano, essa capacidade imaginativa pode sofrer um declínio em decorrência dos afazeres e exigências da vida cotidiana, dos estados anímicos e da intolerância com os nossos ritmos internos. Aos poucos, as imagens nos abandonam, perdemos o poder do espanto e nos tornamos literais e enrijecidos, desconectados desse fio criativo invisível. Demasiado adultos, talvez. Vazios.
Os vinte e sete contos são pequenos universos independentes dentro de um todo que é o romance. Eles nos oferecem paisagens de silêncio e dor, de dúvida e inquietude, de contentamento e otimismo, processos de diferenciação psíquica e de construção de imagens do eu. Somos guiados por um avião de papel, frágil e delicada testemunha das vidas e seus dramas, e que é o elo de ligação entre as histórias, numa costura precisa que é característica marcante de Kellerman. Objeto banal e concreto, o avião de papel (e o ato de lançá-lo ao espaço) é também uma bela e potente metáfora do imprevisível, e nem sempre bem-sucedido, processo de restauração da imaginação, tanto em termos psíquicos quanto corporais. Em seu voo efêmero e instável, a leveza do avião contrasta com o peso da realidade; o lúdico dialoga com as perturbadoras vozes que habitam as personagens e, por onde passa, o avião de papel afeta, desassossega, alimenta, traz esperança. Traduz-se em acasos, sorrisos, toques. Acrescenta alguma cor à monotonia dos dias. Provoca o surgimento de imagens.
O romance Aviões de papel delineia a sutileza do sonho em contraste com a melancolia do cotidiano sem sentido, numa multiplicidade de vozes que reverberam em nós como um labirinto de espelhos a devolver-nos inúmeras imagens do eu. Alerta para o risco da aridez e da fragmentação decorrente do declínio da imaginação, e aponta uma saída possível. Poético, incisivo e cativante, o texto emociona e nos ampara diante da inevitabilidade da queda.
“Não era isso que eu queria dizer, queria dizer que na alma (tu é que falaste da alma), no fundo da alma e no fundo da ideia de alma, há talvez alguma vibrante música física que só a Matemática ouve, a mesma música simétrica que dançam o quarto, o silêncio a memória, a minha voz acordada, a tua mão que deixou tombar o livro sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada; e que o sentido que tudo isto possa ter é ser assim e não diferentemente, um vazio no vazio, vagamente ciente de si, não haver resposta nem segredo.”
Palavras | Manuel António Pina (O coração pronto para o roubo)
Paulo Kellerman escreve sobre a alma humana, no que ela tem de belo e sombrio. Com sua escrita poética e incisiva, percorre paisagens de silêncio e dor, de dúvida e inquietude; delineia a sutileza do sonho e a melancolia do cotidiano sem sentido, numa multiplicidade de vozes que reverberam em nós como um labirinto de espelhos a devolver-nos inúmeras e perturbadoras imagens do eu.
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Em breve, o seu novo romance, Aviões de papel. Uma edição Minimalista.
os dias as cores os medos a respiração
parados, à espera
à espera dos dias das cores dos medos da respiração
livres
das angústias medidas
das dores mediadas