Geografias Corporais

A cortina abre… o espetáculo vai começar…

Sou o primeiro a chegar à sala de
espectáculos. Enquanto espero vou
pensando em coisas sem importância.
Pergunto-me se as árvores terão frio à noite ou se os livros que estão nas livrarias ficarão muito nervosos por não saberem quem os levará para casa ou se no falar dos cães haverá um ladrar para dizer a palavra “borboleta” ou se será possível os pássaros darem abraços ou porque nunca se escuta o som das nuvens quando passam pelo céu.
A minha cabeça é o único sítio onde sou realmente livre, e lá posso pensar coisas palermas sem que ninguém me chateie ou ria. Posso pensar em pássaros ou livros, posso pensar na angústia que as canetas sentirão quando se lhes acaba a tinta; ou em cadeiras. Porque enquanto espero outra coisa que me pergunto é se haverá um motivo para me ter sentado na cadeira onde estou, quando todas as outras estavam livres e poderiam ser uma opção. O que terão pensado de mim as cadeiras que não escolhi?

É nisto que estou a pensar quando ela entra e olha a sala. Depois de uma breve hesitação, avança rapidamente entre as cadeiras e senta-se. Poderia escolher qualquer outro lugar mas senta-se mesmo ao meu lado, ignorando todas as outras cadeiras livres.
Fico quieto, à espera. É bom esperar, mesmo quando se sabe que não irá acontecer nada.
Na liberdade da minha cabeça penso: cheira tão bem, que perfume usará?
Mas tudo o que a minha voz é capaz de dizer é:

Boa noite.


GEOGRAFIAS CORPORAIS

Fotografia: Ana Gilbert | Texto: Paulo Kellerman

Alter Edições, 2022.

Design Gráfico: Licínio Florêncio | Coordenação Editorial: Eder Ribeiro

encomendas: geografiascorporais@gmail.com

[ENGLISH VERSION AVAILABLE]

O canto

Há sempre um momento em que sente no seu corpo: vão cantar; e nesse instante, os pássaros cantam. Serão eles que mantêm o mundo em movimento com o seu canto?

[There is always a moment when she feels in her body: they are going to sing; and in that instant, the birds sing. Are they the ones who keep the world moving with their singing?]

Paulo Kellerman

Lançamento

Lançamento do livro GEOGRAFIAS CORPORAIS, Casa das Palmeiras (3 Dez 2022)

com a Pulsar Companhia de Dança

Ana Gilbert & Paulo Kellerman

Alter Edições, 2022.

Projeto Gráfico: Licínio Florêncio | Coordenação Editorial : Eder Ribeiro

E chegaram a Portugal…

GEOGRAFIAS CORPORAIS

Uma colaboração Brasil-Portugal

Fotografia: Ana Gilbert
Texto: Paulo Kellerman

Alter Edições, 2022

Projeto Gráfico: Licínio Florêncio
Coordenação Editorial: Eder Ribeiro

encomendas / orders:
geografiascorporais@gmail.com

[ENGLISH VERSION AVAILABLE]

Fotografar palavras #3689

E se o tempo for como um corredor?
Estou aqui e olho lá para o fundo. Avanço. Tenho pressa, mas não quero chegar. Hesito. Ou quero chegar, mas não tenho pressa. Hesito. Preocupa-me que o tempo se esgote.
Quando chegar lá ao fundo, terminará a viagem. O tempo.
Porque tudo o que tenho é este corredor. Este tempo.
Mas.
E se quando chegar lá ao fundo, regressar aqui?
Poderia navegar no corredor, daqui para lá e de lá para aqui. Não estaria a ultrapassar os limites do espaço (tempo), mas apenas a gerir o tempo (espaço) que tenho.
E se.

What if time is like a hallway?
I’m here and I’m looking at the end of the hallway. I come forward. I’m in a hurry, but I don’t want to arrive. I hesitate. Or I want to arrive, but I’m in no hurry. I hesitate. I worry that time is running out.
When I reach the end, the journey will be over. Time will be over. Because all I have is this hallway. This time.
But.
What if when I get to the end, I come back here?
I could navigate down the hallway, from here to there and from there to here. I would not be going beyond the limits of space (time), but just managing the time (space) that I have.
What if.

Fotografar palavras

Texto: Paulo Kellerman

VII

VII
Consegues explicar o amor?

Pergunta ela,
Com um sorriso esperançoso.

Fecho os olhos e abano a cabeça,
Porque há respostas que não podem ser verbalizadas.

Apenas os loucos conseguem explicar o amor,
Porque apenas os loucos compreendem a vida.

Apenas os loucos encontram sentido
No que não tem lógica.

Diz ela,
Com um sorriso decepcionado.

Ou talvez nem chegue a ser um sorriso.

————————

Can you explain love?

She asks,
With a hopeful smile.

I close my eyes and shake my head,
Because there are answers that cannot be verbalized.

Only mad people can explain love,
Because only mad people understand life.

Only mad people find meaning
In what has no logic.

She says,
With a disappointed smile.

Or maybe it is not even a smile.

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas?)

Reality

One does not run away: one imagines or dreams that runs away. And sometimes what one imagines or dreams almost seems like reality.”

Words | Paulo Kellerman

Fotografar palavras # 3468

Será que o tempo apenas existe para que possamos ordenar a memória dos prazeres?

[Could it be that time only exists for organizing the memories of pleasure?]

fotos minhas para o texto do Paulo Kellerman

O projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS completou seis anos de vida, graças ao esforço bonito e generoso do Paulo Kellerman para juntar pessoas, talentos e afetos.

Como funciona o projeto?
Os escritores enviam excertos dos seus textos e os fotógrafos desdobram as palavras para encontrar uma (ou mais de uma) imagem. Coagulam a imagem em fotografia. A cumplicidade palavra/imagem é publicada aqui:

Todos nós, fotógrafos e escritores, formamos uma rede com o compromisso de manter acesa a chama do projeto, para levar uma dose diária de arte a quem estiver disponível para ser tocado pelas imagens e pelas palavras.

São 3469 publicações até hoje. E a partir da publicação #3462, o blog se tornou bilíngue (português/inglês).

Visitem, deixem-se afetar!

Olhar, ver, sentir

XX

Quando olho,
Vejo o que sinto.

E tu?

Sentes o que vês
Ou apenas olhas?

Como um espelho que se limita a reflectir a luz que recebe.

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas? Edição Sem Editora, 2022)

O amor

II

Talvez o amor
Seja feito de tempo.

Tal como de tempo são feitas algumas árvores, Daquelas que vivem duzentos anos
Ou mais.

Será que o amor também morre de pé?

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas?)

Árvore

XIV
Uma árvore
Não saberia o que fazer
Com um espelho.

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas? Edição Sem Editora, 2022)

VIII

Gosto de te beijar.
Gosto de escutar a tua respiração
E sentir o teu sopro quente nos meus lábios.

Gosto de centenas de coisas assim:
Banalidades
Sem as quais a vida não faz sentido.

Centenas.
Mas todas se resumem ao teu toque.

Podia detalhá-las uma a uma,
Podia listá-las demoradamente.
Mas basta dizer
Que gosto do teu toque.

E tu:
Também tens saudade do que não acontece?

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas?)