VII

VII
Consegues explicar o amor?

Pergunta ela,
Com um sorriso esperançoso.

Fecho os olhos e abano a cabeça,
Porque há respostas que não podem ser verbalizadas.

Apenas os loucos conseguem explicar o amor,
Porque apenas os loucos compreendem a vida.

Apenas os loucos encontram sentido
No que não tem lógica.

Diz ela,
Com um sorriso decepcionado.

Ou talvez nem chegue a ser um sorriso.

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Can you explain love?

She asks,
With a hopeful smile.

I close my eyes and shake my head,
Because there are answers that cannot be verbalized.

Only mad people can explain love,
Because only mad people understand life.

Only mad people find meaning
In what has no logic.

She says,
With a disappointed smile.

Or maybe it is not even a smile.

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas?)

Reality

One does not run away: one imagines or dreams that runs away. And sometimes what one imagines or dreams almost seems like reality.”

Words | Paulo Kellerman

Fotografar palavras # 3468

Será que o tempo apenas existe para que possamos ordenar a memória dos prazeres?

[Could it be that time only exists for organizing the memories of pleasure?]

fotos minhas para o texto do Paulo Kellerman

O projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS completou seis anos de vida, graças ao esforço bonito e generoso do Paulo Kellerman para juntar pessoas, talentos e afetos.

Como funciona o projeto?
Os escritores enviam excertos dos seus textos e os fotógrafos desdobram as palavras para encontrar uma (ou mais de uma) imagem. Coagulam a imagem em fotografia. A cumplicidade palavra/imagem é publicada aqui:

Todos nós, fotógrafos e escritores, formamos uma rede com o compromisso de manter acesa a chama do projeto, para levar uma dose diária de arte a quem estiver disponível para ser tocado pelas imagens e pelas palavras.

São 3469 publicações até hoje. E a partir da publicação #3462, o blog se tornou bilíngue (português/inglês).

Visitem, deixem-se afetar!

Olhar, ver, sentir

XX

Quando olho,
Vejo o que sinto.

E tu?

Sentes o que vês
Ou apenas olhas?

Como um espelho que se limita a reflectir a luz que recebe.

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas? Edição Sem Editora, 2022)

O amor

II

Talvez o amor
Seja feito de tempo.

Tal como de tempo são feitas algumas árvores, Daquelas que vivem duzentos anos
Ou mais.

Será que o amor também morre de pé?

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas?)

Árvore

XIV
Uma árvore
Não saberia o que fazer
Com um espelho.

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas? Edição Sem Editora, 2022)

VIII

Gosto de te beijar.
Gosto de escutar a tua respiração
E sentir o teu sopro quente nos meus lábios.

Gosto de centenas de coisas assim:
Banalidades
Sem as quais a vida não faz sentido.

Centenas.
Mas todas se resumem ao teu toque.

Podia detalhá-las uma a uma,
Podia listá-las demoradamente.
Mas basta dizer
Que gosto do teu toque.

E tu:
Também tens saudade do que não acontece?

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas?)

Exposição FOTOGRAFAR PALAVRAS #3

“Agora, sente o toque da liberdade: no espírito, no pensamento, no corpo. Nunca lhe ocorrera antes que a liberdade pudesse ser apenas isso: leveza. Mas agora sabe.”

foto minha, texto do Paulo Kellerman

O projeto Fotografar Palavras propõe como exercício criativo transformar palavras em imagens. Foi criado em 2016 pelo amigo Paulo Kellerman e conta hoje com 3381 publicações.

O que se vê no blog é uma declaração de amor às palavras e às imagens; à literatura, à fotografia e à arte em geral, numa colaboração instigante e harmoniosa que carrega a marca do Paulo: generosidade, amizade e capacidade de conciliar talentos e estilos. Afeta, emociona, faz pensar… realiza-se como arte.

A partir do dia 5 de junho, acontece no m[i]mo, em Leiria, a terceira das quatro exposições do projeto.

É um gosto e um orgulho fazer parte dela. E, principalmente, é uma felicidade ter podido estar presente no dia da inauguração, depois de dois anos de pandemia.

Aos companheiros de projeto, meu afeto e minha admiração. Ao Paulo, um obrigada gigante. Apareçam!

Até 20 de agosto de 2022

Fotografia:Ana França | Ana Gilbert | Ana Isa | Ana Leiria | Ana Marques | Ana Moderno | Ana Paula Fadoni | António Carreira | Carla de Sousa | Catarina Casaca | Célia Góis | Cristina Vicente | Diana R. Castro | Elsa Arrais | Flávia Barros | Francisco Válga | Frankie Boy | Goretti Pereira | João Antunes | João Oliveira | José Luís Jorge | Maria Augusta | Maria João Dias | Maria Jorge Soares | Mariana Costa | Mário Teixeira | Raquel Ferreira Coimbra | Renata Barbosa | Selma Preciosa | Sílvia Bernardino | Sónia Silva | Tânia Silva | Teresa Bret Afonso | Teresa David | Teresa Maria dos Santos | Teresa Marques dos Santos | Vanda Cristina | Vilma Serrano

Palavras: Ana Miguel Socorro | Andreia Azevedo Moreira | Carina Martinho Coelho | Catarina Vale | Clara Ribeiro | Elisabete Neves | Elsa Margarida Rodrigues | Helder Magalhães | Isabel Pires | Joana Gonçalves | Joana M. Lopes | Liliana Silva | Maria João Faísca | Maria João Rocha | Mónia Camacho | Nuno Pinto Bastos | Paulo Kellerman | Renata Barbosa | Sandra Francisco | Sara Viscondessa | Teresa Bret Afonso

O TEMPO (Somos Nós)

O TEMPO (Somos Nós)

Ópera na Prisão | Traction – SAMP

Libretista: Paulo Kellerman

“Porque vamos? Porque ficamos? Porque esperamos?”

Porta e viagem. Tempo e memória. Espera.

Trabalho, muito trabalho; esforço conjunto. O resultado: um espetáculo multimídia, complexo e denso, como o tema, envolvendo músicos profissionais e jovens detentos, atuações presenciais e remotas. O tema é o tempo, em seus desdobramentos de espera e viagem. O contexto onde esse tema se desenrola é a prisão: a externa, palpável, do domínio da justiça (o Estabelecimento Prisional de Leiria, Portugal), onde jovens estão à espera. E também a(s) interna(s): a das escolhas, a das ilusões, a da inconsciência, a dos valores coletivos. As portas que se nos apresentam no decorrer da vida.

“Estou farto de portas fechadas”, diz o coro.

Mas como abrir as portas? Como perceber que estamos a atravessar portas, ou a fechá-las? Como suportar ver as possibilidades e os limites? As seduções, os enganos, as necessidades, as insatisfações?

Tendo o mito de Ulisses e Penélope como fio condutor, a ópera nos guia por entre símbolos e metáforas e nos oferece a oportunidade de refletir sobre a forma como existimos no mundo, sobre a nossa relação com o tempo (ser humano é existir no tempo e no espaço), sobre a perspectiva de diferenciação entre indivíduo e coletividade. Sobre as nossas certezas protetoras. Sobre as nossas fraquezas. O espetáculo nos desestabiliza e emociona. E também nos faz sorrir em seus momentos de leveza.

O coro repete:

“Abre os olhos.” | “Estás preso e nem sabes.”

As tentações para não ver são muitas. O trabalho de consciência é constante. Exige esforço, exige escuta; é solitário. Ser cego pode ser, aparentemente, mais fácil. A lembrança de onde estamos nos faz pensar em voos, em fuga (em algum momento, fugimos todos), em regresso. Para enfrentar.

O amor surge como a luz da consciência, que não nos deixa esquecer quem somos;  como a conexão com a alma, essa instância profunda do humano, capaz de nos libertar da prisão do tempo. 

“Somos nós que fazemos o tempo. Nós é que somos a consciência do tempo.”

[assisti à estreia do espetáculo, no dia 4 de junho, no Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens. E, para mim, o espaço foi consciência.]

VI

Da minha janela vejo um campo verde
Com flores amarelas.

Toda a gente diz: que flores tão bonitas.
E eu concordo.

Gosto de as olhar
E de apreciar a sua beleza.
Serenam-me.

Mas as flores não sabem que são observadas
Nem sabem que são bonitas.

As flores estão-se a foder para o mundo,
E para a sua própria beleza.

E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

[o desassossego na poesia de Paulo Kellerman]

XXIV

XXIV

Finalmente entendi
Por que motivo algumas pessoas se suicidam.

Foi ontem:
Acordei abruptamente e soube que não conseguiria voltar a dormir.
Soube que tudo o que havia a fazer era deixar-me estar quieto.
Esperar.
Sentir o tempo passar
E remoer os pensamentos.
Os mesmos pensamentos de sempre,
Um após outro.
O desfile completo,
Previsível,
Imparável.

Remoê-los devagarinho uma vez mais.
E uma vez mais,
Chegar a lado nenhum.

Será que algum pensamento pode
Algum dia
Conduzir a algum lado?

O meu sonho maior é conseguir dormir
E durante o sono sonhar que estou acordado e livre de pensamentos.

Mas o desfile nunca pára.
E há momentos,
Como ontem,
Quando acordei abruptamente e percebi que não conseguiria voltar a dormir,
Há momentos
Em que fico um pouco desesperado.

Só um pouco.
Mas e se um dia ficar muito?

Foi então que telefonei para te dizer:
Finalmente entendi
Por que motivo algumas pessoas se suicidam.

É quando o pouco se transforma em muito.

Sim,
Eram quatro da manhã e estavas a dormir.
Mas a pergunta não me saía da cabeça,
Precisava de verbalizá-la:
E se um dia ficar muito desesperado?

Desligaste o telefone,
Voltaste a dormir.
O que sonhaste?

E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

[a poesia inquietante de Paulo Kellerman]

E quando acabarem as perguntas?

E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

de Paulo Kellerman


O Paulo tem a poesia no olhar, e tem a capacidade de criar inúmeras imagens com as palavras: imagens belas, todas, algumas terríveis em sua beleza. Gosto de como fala das relações humanas (e nos poemas não é diferente); de como o relacionar-se com o outro envolve o relacionar-se consigo mesmo. E do tom melancólico que os poemas carregam, mesmo que de forma muito sutil (junto com a sedução, a paixão, a curiosidade, a leveza). No livro, há uma busca interna profunda, desesperançada até, mas há também a vontade de seguir… porque não se pode abandonar a morte (das coisas, das relações, dos momentos, a nossa), porque isso seria abandonar a vida (com tudo o que ela provoca e permite). Vida e morte, sempre juntas; a angústia disso, a plenitude disso.

Ilustração: Maraia

XXXIX

XXXIX

Não sei o que prefiro:
Se o beijo
Ou aqueles três segundos que antecedem o beijo.

Aqueles três segundos em que tudo é certeza
E desejo, 
Destino e inevitabilidade.
Os três segundos que parecem explicar e justificar 
A existência do Universo,
E dar sentido à vida.

Preferes o beijo ou os três segundos que o antecedem?

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E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

[a delicada poesia do Paulo Kellerman]