O projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS completou seis anos de vida, graças ao esforço bonito e generoso do Paulo Kellerman para juntar pessoas, talentos e afetos.
Como funciona o projeto? Os escritores enviam excertos dos seus textos e os fotógrafos desdobram as palavras para encontrar uma (ou mais de uma) imagem. Coagulam a imagem em fotografia. A cumplicidade palavra/imagem é publicada aqui:
Todos nós, fotógrafos e escritores, formamos uma rede com o compromisso de manter acesa a chama do projeto, para levar uma dose diária de arte a quem estiver disponível para ser tocado pelas imagens e pelas palavras.
São 3469 publicações até hoje. E a partir da publicação #3462, o blog se tornou bilíngue (português/inglês).
“Agora, sente o toque da liberdade: no espírito, no pensamento, no corpo. Nunca lhe ocorrera antes que a liberdade pudesse ser apenas isso: leveza. Mas agora sabe.”
foto minha, texto do Paulo Kellerman
O projeto Fotografar Palavras propõe como exercício criativo transformar palavras em imagens. Foi criado em 2016 pelo amigo Paulo Kellerman e conta hoje com 3381 publicações.
O que se vê no blog é uma declaração de amor às palavras e às imagens; à literatura, à fotografia e à arte em geral, numa colaboração instigante e harmoniosa que carrega a marca do Paulo: generosidade, amizade e capacidade de conciliar talentos e estilos. Afeta, emociona, faz pensar… realiza-se como arte.
A partir do dia 5 de junho, acontece no m[i]mo, em Leiria, a terceira das quatro exposições do projeto.
É um gosto e um orgulho fazer parte dela. E, principalmente, é uma felicidade ter podido estar presente no dia da inauguração, depois de dois anos de pandemia.
Aos companheiros de projeto, meu afeto e minha admiração. Ao Paulo, um obrigada gigante. Apareçam!
Até 20 de agosto de 2022
Fotografia:Ana França | Ana Gilbert | Ana Isa | Ana Leiria | Ana Marques | Ana Moderno | Ana Paula Fadoni | António Carreira | Carla de Sousa | Catarina Casaca | Célia Góis | Cristina Vicente | Diana R. Castro | Elsa Arrais | Flávia Barros | Francisco Válga | Frankie Boy | Goretti Pereira | João Antunes | João Oliveira | José Luís Jorge | Maria Augusta | Maria João Dias | Maria Jorge Soares | Mariana Costa | Mário Teixeira | Raquel Ferreira Coimbra | Renata Barbosa | Selma Preciosa | Sílvia Bernardino | Sónia Silva | Tânia Silva | Teresa Bret Afonso | Teresa David | Teresa Maria dos Santos | Teresa Marques dos Santos | Vanda Cristina | Vilma Serrano
Palavras: Ana Miguel Socorro | Andreia Azevedo Moreira | Carina Martinho Coelho | Catarina Vale | Clara Ribeiro | Elisabete Neves | Elsa Margarida Rodrigues | Helder Magalhães | Isabel Pires | Joana Gonçalves | Joana M. Lopes | Liliana Silva | Maria João Faísca | Maria João Rocha | Mónia Camacho | Nuno Pinto Bastos | Paulo Kellerman | Renata Barbosa | Sandra Francisco | Sara Viscondessa | Teresa Bret Afonso
Trabalho, muito trabalho; esforço conjunto. O resultado: um espetáculo multimídia, complexo e denso, como o tema, envolvendo músicos profissionais e jovens detentos, atuações presenciais e remotas. O tema é o tempo, em seus desdobramentos de espera e viagem. O contexto onde esse tema se desenrola é a prisão: a externa, palpável, do domínio da justiça (o Estabelecimento Prisional de Leiria, Portugal), onde jovens estão à espera. E também a(s) interna(s): a das escolhas, a das ilusões, a da inconsciência, a dos valores coletivos. As portas que se nos apresentam no decorrer da vida.
“Estou farto de portas fechadas”, diz o coro.
Mas como abrir as portas? Como perceber que estamos a atravessar portas, ou a fechá-las? Como suportar ver as possibilidades e os limites? As seduções, os enganos, as necessidades, as insatisfações?
Tendo o mito de Ulisses e Penélope como fio condutor, a ópera nos guia por entre símbolos e metáforas e nos oferece a oportunidade de refletir sobre a forma como existimos no mundo, sobre a nossa relação com o tempo (ser humano é existir no tempo e no espaço), sobre a perspectiva de diferenciação entre indivíduo e coletividade. Sobre as nossas certezas protetoras. Sobre as nossas fraquezas. O espetáculo nos desestabiliza e emociona. E também nos faz sorrir em seus momentos de leveza.
O coro repete:
“Abre os olhos.” | “Estás preso e nem sabes.”
As tentações para não ver são muitas. O trabalho de consciência é constante. Exige esforço, exige escuta; é solitário. Ser cego pode ser, aparentemente, mais fácil. A lembrança de onde estamos nos faz pensar em voos, em fuga (em algum momento, fugimos todos), em regresso. Para enfrentar.
O amor surge como a luz da consciência, que não nos deixa esquecer quem somos; como a conexão com a alma, essa instância profunda do humano, capaz de nos libertar da prisão do tempo.
“Somos nós que fazemos o tempo. Nós é que somos a consciência do tempo.”
[assisti à estreia do espetáculo, no dia 4 de junho, no Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens. E, para mim, o espaço foi consciência.]
Finalmente entendi Por que motivo algumas pessoas se suicidam.
Foi ontem: Acordei abruptamente e soube que não conseguiria voltar a dormir. Soube que tudo o que havia a fazer era deixar-me estar quieto. Esperar. Sentir o tempo passar E remoer os pensamentos. Os mesmos pensamentos de sempre, Um após outro. O desfile completo, Previsível, Imparável.
Remoê-los devagarinho uma vez mais. E uma vez mais, Chegar a lado nenhum.
Será que algum pensamento pode Algum dia Conduzir a algum lado?
O meu sonho maior é conseguir dormir E durante o sono sonhar que estou acordado e livre de pensamentos.
Mas o desfile nunca pára. E há momentos, Como ontem, Quando acordei abruptamente e percebi que não conseguiria voltar a dormir, Há momentos Em que fico um pouco desesperado.
Só um pouco. Mas e se um dia ficar muito?
Foi então que telefonei para te dizer: Finalmente entendi Por que motivo algumas pessoas se suicidam.
É quando o pouco se transforma em muito.
Sim, Eram quatro da manhã e estavas a dormir. Mas a pergunta não me saía da cabeça, Precisava de verbalizá-la: E se um dia ficar muito desesperado?
Desligaste o telefone, Voltaste a dormir. O que sonhaste?
E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS? Edição Sem Editora
O Paulo tem a poesia no olhar, e tem a capacidade de criar inúmeras imagens com as palavras: imagens belas, todas, algumas terríveis em sua beleza. Gosto de como fala das relações humanas (e nos poemas não é diferente); de como o relacionar-se com o outro envolve o relacionar-se consigo mesmo. E do tom melancólico que os poemas carregam, mesmo que de forma muito sutil (junto com a sedução, a paixão, a curiosidade, a leveza). No livro, há uma busca interna profunda, desesperançada até, mas há também a vontade de seguir… porque não se pode abandonar a morte (das coisas, das relações, dos momentos, a nossa), porque isso seria abandonar a vida (com tudo o que ela provoca e permite). Vida e morte, sempre juntas; a angústia disso, a plenitude disso.
Não sei o que prefiro: Se o beijo Ou aqueles três segundos que antecedem o beijo.
Aqueles três segundos em que tudo é certeza E desejo, Destino e inevitabilidade. Os três segundos que parecem explicar e justificar A existência do Universo, E dar sentido à vida.
Preferes o beijo ou os três segundos que o antecedem?
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E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS? Edição Sem Editora