Fotografar palavras # 4569

Filme de Pele

pele
nosso milagrosamente
multifacetado
manto opaco
abraça-nos com firmeza
como um escudo protetor
da cabeça aos pés
contra uma coreografia
de danos

pele
revela em parte
a jornada do nosso corpo
do nascimento à morte
e o seu abuso
tatuado
com cicatrizes e manchas
gravado com rugas

pele
imagine fotos
antigas e recentes
seguidas
de um vídeo
escaneando
lentamente
os contornos da pele
ao longo do corpo
da cabeça aos pés

uma marca registrada e um lembrete
nada dura para sempre.

Skin Flick

skin
our miraculously
multifaceted
opaque cloak
hugs us firmly
shielding
from head to toe
against a choreography
of damages

skin
reveals in part
our body’s journey
from birth to death
and its abuse
tattooed
with scars and spots
etched with wrinkles

skin
imagine still photos
old and recent
followed
by a video shot
scanning
ever so slowly
skin’s contours
along the body
from head to toe

a hallmark and reminder
nothing endures forever.

Texto | text: Fred Fullerton

Fotografia | Photograph: Ana Gilbert

Fotografar palavras, um projeto do Paulo Kellerman. Dose diária de arte.

Fotografar palavras # 4542

Ano novo, colaboração nova no FOTOGRAFAR PALAVRAS # 4542: Rúben Marques

@palavras_resgatadas
@fotografarpalavras

Ramo despido:
Cai a última folha
De outro tempo.

Naked branch:
The last leaf
From another time
Falls.

Texto | Text: Rúben Marques
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Fotografar palavras, projeto bonito criado pelo Paulo Kellerman e recriado diariamente por todxs nós.

[Fotografar palavras, a beautiful project created by Paulo Kellerman and recreated daily by all of us. Since 2016.]

Fotografar palavras # 4494

Ela fica nua diante de mim

Ela abre a porta da casa de banho
e a luz invade o quarto
ela parece uma sombra ambulante
e fica nua junto à escrivaninha
então, timidamente, vira as costas para se vestir.

Contemplo sua nudez de marfim
e reconheço como o tempo
roubou nossos anos
nossas décadas juntos.

Quantas vezes
eu a segurei em meus braços
beijei seus lábios, acariciei seu corpo
e fiz amor com ela?

Ela fica nua diante de mim
reacendendo desejos da juventude
mas o que resta são as memórias.


She Stands Naked Before Me

She opens the bathroom door
and light streams into the bedroom
she appears as a walking shadow
and stands naked at her bureau
then coyly turns her back to dress.

I ponder her ivory nakedness
and recognize how time
has snatched our years
our decades together.

How many times
had I held her in my arms
kissed her lips, fondled her body
and made love to her?

She stands naked before me
rekindling youthful desires
but what remains are memories.


Texto | Text: Fred Fullerton
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

FOTOGRAFAR PALAVRAS, nosso projeto bonito, criado pelo Paulo Kellerman

Fotografar palavras # 4467

Liturgias

Poemas são orações que se escutam nas ruínas de um convento
São rezas matinais em busca da salvação
Poemas são murmúrios de monjas enclausuradas
Que escrevem palavras ilegíveis com os pés no chão de pedra
São como credos depositados no altar para dizer a nossa solidão
Poemas são cânticos de louvor entoados por anjos exilados
Em igrejas à espera de libertação
Anunciações de uma verdade pura e redentora
No ventre impossível de uma virgem estéril
Contas de um rosário de Ave Marias
A procurar narrar o mistério do mundo
Poemas são flagelos
Chagas abertas em corpos incomunicáveis e crucificados como o meu
Sem sacrifício ou Agnus Dei profético que o consiga resgatar
Poemas são rituais litúrgicos
Pautas de música gregoriana com o som da tua voz a ecoar dentro de mim
Livro de Salmos de um amor impossível.

Liturgies

Poems are prayers heard in the ruins of a convent
They are morning prayers in search of salvation
Poems are the murmurs of cloistered nuns
Who write illegible words with their feet on the stone floor
They are like creeds placed on the altar to tell of our loneliness
Poems are songs of praise sung by exiled angels
In churches waiting for liberation
Announcements of a pure and redeeming truth
In the impossible womb of a sterile virgin
Beads from a rosary of Hail Marys
Trying to narrate the mystery of the world
Poems are scourges
Open wounds on incommunicable and crucified bodies like mine
With no sacrifice or prophetic Agnus Dei to rescue it
Poems are liturgical rituals
Staves of Gregorian music with the sound of your voice echoing inside me
A book of Psalms for an impossible love.

Texto | Text: Ana Paula Jardim
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

FOTOGRAFAR PALAVRAS, este nosso projeto bonito, criado e dinamizado pelo Paulo Kellerman

Fotografar palavras # 4448

Volto a ti como se de um reflexo pavloviano se tratasse. Tens razão, somos mesmo como cães. Se calhar devia aprender a rosnar.

I come back to you as if it were a pavlovian reflex. You’re right, we really are like dogs. Maybe I should learn to growl.

Texto | Text: Márcia Oliveira
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Fotografar palavras, projeto criado pelo Paulo Kellerman e recriado diariamente por nós.

Fotografar palavras # 4398

Questionamento

A imortalidade da alma?
Só penso nisso quando estou distraída
E nunca ao amanhecer e antes de tomar café
Que ainda carrego as ideias doentes de noites mal dormidas
A minha noção de alma é mais homérica
Tipo fumaça ou sombra que se desprende do corpo
Ou então um sopro em vão à maneira de Anaxímenes
Também tenho almas místicas, órficas e pitagóricas
Depende dos dias
Nunca platónicas de forma imortal
Não vá a reminiscência de algum marginal
Criminoso ou esquizofrénico fazer ninho dentro de mim para sempre
Não sei nada sobre estas questões
Nem tenho paciência para as discutir em dias que tenho a mente do avesso
Só sentir a alma em quedas verticais dentro de mim.

Questioning

The immortality of the soul?
I only think about it when I’m distracted
And never at dawn and before drinking coffee
Because I’m still carrying the sick ideas of bad nights
My notion of the soul is more homeric
Like smoke or a shadow that detaches itself from the body
Or a breath in vain in the manner of Anaximenes
I also have mystical, Orphic and Pythagorean souls
It depends on the day
Never platonic in an immortal way
Don’t go reminiscing about some outcast
Criminal or schizophrenic nest inside me forever
I don’t know anything about these issues
Nor do I have the patience to discuss them on days when my mind is inside out
I can only feel my soul falling vertically inside me.

Texto | Text: Ana Paula Jardim
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Fotografar palavras, a nossa casa de criação. Projeto criado e coordenado por Paulo Kellerman. Publicações diárias, desde 2016.

Fotografar palavras # 4286

HISTÓRIAS
São as pequenas coisas
que fazem as grandes memórias.
Somos a soma do que vivemos
e não esquecemos.
Somos histórias.

STORIES
It is the little things
that create the great memories.
We are the sum of what we have lived
and will not forget.
We are stories.

Texto | Text: Maria Ervilha
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Fotografar palavras, projeto criado pelo Paulo Kellerman. Este nosso lugar de liberdade de criação.

Fotografar palavras # 4215

Se eu fosse uma coisa,
que tipo de coisa
seria?
Se eu fosse um animal,
que tipo de criatura
seria?
Se eu pudesse ser eu mesmo,
que tipo de humano
poderia ser?

If I only were a thing,
what kind of thing
would I be?
If I only were an animal,
what kind of creature
would I be?
If I only could be myself,
what kind of human
could I be?

Texto | Text: Ray Meller
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Fotografar palavras # 4087

A respiração é um mecanismo. O batimento regular do coração é um mecanismo. O orgasmo é um mecanismo. O arrepio da pele é um mecanismo. A digestão da comida é um mecanismo. Dormir é um mecanismo. Acordar é um mecanismo. Sonhar é um mecanismo. O corpo é feito de mecanismos; e ainda assim, por vezes a máquina consegue ser humana.

[Breathing is a mechanism. The regular beating of the heart is a mechanism. An orgasm is a mechanism. The shivering of the skin is a mechanism. The digestion of food is a mechanism. To sleep is a mechanism. Waking up is a mechanism. Dreaming is a mechanism. The body is made of mechanisms; and yet, sometimes the machine manages to be human.]

Texto | Text: Paulo Kellerman
Fotografia | Photograph: Ana Gilbert

Fotografar palavras , dose diária de arte.

Fotografar palavras # 4041

“Será que se deixarmos de falar da tristeza ela desaparece? Cessa de existir? Será que é a nossa voz que dá existência à tristeza, como a nossa respiração numa manhã de frio causa pequenas nuvens de vapor à nossa frente? A tristeza existe porque, simplesmente, respiramos?”

[If we stop talking about sadness, does it disappear? Does it cease to exist? Does our voice give sadness existence, like our breath on a cold morning causes little clouds of vapor in front of us? Does sadness exist because we simply breathe?]

Texto | Text: Ana Miguel Socorro
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

FOTOGRAFAR PALAVRAS, o bonito projeto criado pelo Paulo Kellerman e recriado por todos nós. Diariamente, desde 2016. Uma produção bilíngue.

Fotografar palavras #3888

“saí para ver o mundo
mas a cada passo
descubro universos dentro de mim.”

[I went out to see the world
but with every step
I discover universes within myself.]

Texto | Text: Andreia Peixoto
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Fotografar palavras

Projeto criado pelo Paulo Kellerman em 2016.
Diferentes estilos, diferentes países, diferentes processos criativos. Dose diária de arte.

Diferentes estilos, diferentes países, diferentes processos criativos. Dose diária de arte.

Fotografar palavras #3834

Dizes que o teu corpo sonha,
Que os teus dedos sonham
A tua pele,
Os teus lábios.

Dizes que o teu coração sonha.

E os teus olhos.
Dizes que os teus olhos sonham tanto,
Mas tanto,
Mesmo quando estão fechados.
Especialmente quando estão fechados.

Como sangue,
Dizes tu.

Sorris e explicas
Que o teu corpo está repleto de multidões de sonhos
Entranhados nas tuas células.
Do lado de dentro das células.
Na alma de cada uma das células.

Sorris
E explicas que são esses sonhos que te dão vida.
Como se fossem sangue.

Um fluxo permanente e imparável
De sonhos.

Gostava de te fazer uma pergunta:

Se o teu corpo tem em si todos esses sonhos,
Porque não os sinto quando me beijas?

Apenas me dás saliva.
Não sinto sangue
Nem sonhos.


[You say your body dreams,
your fingers dream
Your skin,
Your lips.

You say your heart dreams.

And your eyes.
You say your eyes dream so much.
But so much,
Even when they are closed.
Especially when they are closed.

Like blood,
You say.

You smile and explain
That your body is full of multitudes of dreams
Ingrained in your cells.
Inside the cells.
In the soul of each of the cells.

You smile
And explain that those dreams are what give you life.
As if they were blood.

A permanent and unstoppable flow
Of dreams.
I would like to ask you a question:

If your body has all those dreams in it,
Why can’t I feel them when you kiss me?

You just give me saliva.
I do not feel blood
Nor dreams.]

Texto | Text: Paulo Kellerman
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Fotografar palavras

Cumplicidade bonita entre palavra e imagem, entre literatura e fotografia, entre escritores e fotógrafos. Dose diária de poesia, desde 2016.

Fotografar palavras #3768

É sabido que nas horas incertas os fios da imaginação tecem mantos que embrulham o coração no medo e que o medo, por espiralados enigmas que regem o universo infinito dos pensamentos, ganha voz e fala como gente.”

[It is known that in uncertain hours the threads of imagination weave cloaks that wrap the heart in fear and that fear, through spiraling enigmas that govern the infinite universe of thoughts, gains voice and speaks like people.]

Texto | Text: Joana M. Lopes
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Fotografar palavras, o projeto bonito do Paulo Kellerman. A nossa casa criativa.

Fotografar palavras #3689

E se o tempo for como um corredor?
Estou aqui e olho lá para o fundo. Avanço. Tenho pressa, mas não quero chegar. Hesito. Ou quero chegar, mas não tenho pressa. Hesito. Preocupa-me que o tempo se esgote.
Quando chegar lá ao fundo, terminará a viagem. O tempo.
Porque tudo o que tenho é este corredor. Este tempo.
Mas.
E se quando chegar lá ao fundo, regressar aqui?
Poderia navegar no corredor, daqui para lá e de lá para aqui. Não estaria a ultrapassar os limites do espaço (tempo), mas apenas a gerir o tempo (espaço) que tenho.
E se.

What if time is like a hallway?
I’m here and I’m looking at the end of the hallway. I come forward. I’m in a hurry, but I don’t want to arrive. I hesitate. Or I want to arrive, but I’m in no hurry. I hesitate. I worry that time is running out.
When I reach the end, the journey will be over. Time will be over. Because all I have is this hallway. This time.
But.
What if when I get to the end, I come back here?
I could navigate down the hallway, from here to there and from there to here. I would not be going beyond the limits of space (time), but just managing the time (space) that I have.
What if.

Fotografar palavras

Texto: Paulo Kellerman