Extensão

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(Projeto com Paulo Kellerman)

Cena

No estúdio improvisado a câmera percorre o espaço distraidamente, parando aqui e ali sem se deter. O olho por detrás dela busca algo que o capture, há muito tempo busca. Já nem sabe quanto. Percorreu espaços, encontrou ângulos mas nenhum que o arrebatasse. Ao olho por detrás da lente. Gira… pára… torna a começar… insaciável… desamparado porque não encontra, nada-ninguém-amor-azul. Pulsa. Líquido, escorre-sofre. Pensa no que olha, não, não pensa, apenas percorre, desliza lentes como dedos, afaga, apalpa, quer ser tocado como a lente ao focar o espaço. Mas não é assim, é apenas a frieza do obturador que clique claque abre e fecha sem piedade. Comentários soltos, quase vazios. Como o olho que olha e que parece vazado.

De repente a câmera se detém.

O que tanto buscava o encontrou. O olho por detrás da câmera. Paralisado, muda o plano ajustando o foco, diminui a abertura, o tempo de exposição. O tripé, sabe que não conseguirá sustentar o olhar sem ele. A câmera escuta a si mesma e o olho no jogo dos espelhos se reconhece. Esconde-se, fecha-se, o olho que olha por detrás da câmera. Teme ser visto. Sente-se perseguido ao descobrir-se no outro.

O tempo se esgota. Pinga lentamente da torneira semi-aberta. Escoa de um reservatório que nunca é alimentado. Escoará até acabar.

Sabe que não há mais tempo. De recuperar o amor perdido, o tempo gasto em buscar, que o esgarçou até onde não podia mais e o reduziu a um olho que olha através e que busca incessantemente algo que olhar.

Texto: Ana Gilbert

Reservatório

Toca-me, diz ela.
Apenas assim me podes conhecer, diz ela.

Há pessoas que são como máquinas fotográficas, não achas? Captam tudo, captam a realidade nas suas ínfimas nuances e delicadezas, captam a luz e a sombra e tudo o que há entre luz e sombra, captam um beijo de dois amantes e o voo de um pássaro, captam a sombra de um nuvem e a magnificência do grão de areia na praia, captam a textura da pele do pescoço e da coxa e da mão daqueles que amam, captam a imutabilidade e a passagem do tempo, captam a suavidade das rugas de um velho que vai morrer mas ainda ri uma última vez, captam as dobras de um lençol impregnado com o cheiro a sexo, captam o momento mágico em que uma folha se solta da árvore e se lança no abismo da liberdade. Há pessoas que captam tudo, porque tudo é captável, tudo é fixável, tudo é registável. Basta olhar. Olhas, logo captas. Mas tal como as máquinas fotográficas que tudo captam, há pessoas incapazes de sentir, de interiorizar, de incorporar aquilo que olham e vêem. Pessoas que são como máquinas. Apenas captam e registam. Acumulam. Coleccionam. Mas não sentem. E ainda assim sorriem. Como é possível que as máquinas fotográficas sorriam? De que sorriem elas, se não sentem? Porque sorriem? Como sorriem? Não entendo. Mas sei que há pessoas que são como máquinas fotográficas. Assustam-me muito, estas pessoas.

O que pensa o teu nariz quando respira o meu cheiro? O que pensa o teu coração quando perscrutas o meu rosto? Percebo que estranhas as minhas perguntas. Talvez não saibas que cada pedaço do teu corpo tem pensamentos autónomos. O teu coração pensa, o teu sexo pensa, as tuas mãos pensam, a tua boca pensa. Infinitos pensamentos cruzam-se no teu interior, faíscam por um instante ou eternizam-se entre as células, arrastam-se, combatem-se, anulam-se, misturam-se, morrem e renascem. E tudo converge para o cérebro, onde toda essa imensidão de pensamentos antagónicos é recolhida, analisada, conjugada, resumida. E aquilo que julgas ser o teu pensamento – o teu pensamento oficial – é apenas uma breve e tosca súmula da infinidade de pensamentos que o teu corpo produz.

– Queres dizer que o cérebro aprisiona os pensamentos?

Penso com todo o corpo. Vejo com todo o corpo. Sinto com todo o corpo. Emociono-me com todo o corpo. E apenas depois fotografo. As fotografias são uma extensão de mim, do que penso e vejo e sinto e sonho e imagino e fantasio e questiono com o corpo; sempre com o corpo. Tal como um abraço é uma extensão de mim, de todo o meu corpo. Ou a dança. Gosto de dançar, tu não? Há uma convergência de tudo o que o corpo é e emana: carne, emoção, sentimento, alma; tudo convertido em movimento, em beleza, em harmonia, em liberdade. E quem me vir dançar fica a conhecer-me melhor. Quem me abraçar fica a conhecer-me melhor. Não sei se faz sentido para ti. Mas pensa assim: quando vês uma foto tirada por mim é como se me tocasses; em mim própria, no meu corpo. Olhar é tocar. Isto parece-te muito louco? Pode ser loucura. E talvez tenha havido um tempo em que me protegia atrás da máquina fotográfica; como se fosse uma cortina. Isso passou, o tempo é outro, a cena mudou. Agora: a máquina não me esconde; revela-me.

Deixa que os teus dedos me conheçam, diz ela.
Ele pega a fotografia que ela lhe estende. Vê-a com os olhos, vê-a com os dedos. Sente-a com os olhos, sente-a com os dedos. Pensa-a com os olhos, pensa-a com os dedos. Conhece-a com os olhos, conhece-a com os dedos.
É só uma foto, pensaria ele antes.
Agora sabes que não é apenas uma foto, diz ela.
E sorriem.

O tempo se esgota. Pinga lentamente da torneira semi-aberta. Escoa de um reservatório que nunca é alimentado. Escoará até acabar. Por isso é tão importante fixá-lo. Com o corpo. No corpo: é esse o verdadeiro reservatório.

Texto: Paulo Kellerman

Almas desligadas

23. Deixar de me olhar

“Será que se deixar de me olhar ao espelho conseguirei esquecer o meu rosto? Conseguirei esquecer como sou, o que sou, quem sou? Conseguirei esquecer-me?”

Texto: Paulo Kellerman

O autor escreveu o romance Serviços mínimos de felicidade. Escolhi e fotografei 27 excertos. O texto acima é um desses excertos. A partir das fotos, o autor escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do livro.

Palavras fotografadas, fotografias narradas…

“Um rosto escondido pela escuridão porque a luz que ilumina a vida nunca é suficiente.”

Texto: Paulo Kellerman (Almas desligadas)

Bicho

Bicho

Dizem que à noite o bicho vem
E vem.
Abre sua larga garganta e me expulsa do sono
Faz-me rondar pela noite insone,
palpitar angústia aguda
Encharca a cama com cheiro de morte
E os meus olhos vivos
enxergam finitude
Dizem que à noite o bicho vem
E vem.
Mas
às vezes
apenas se deita ao meu lado
e chora
por ser tão bicho assim.

Palavras: Lorena Richter

“Nunca tinha pensado que a solidão pudesse ser não uma ausência de tudo mas a saturação de presenças fantasmagóricas, de pensamentos solidificados, de imagens resplandecentes de cor e brilho e magnetismo.”

Projeto e texto: Paulo Kellerman

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“Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada ser, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silêncio teias de escuridão e de silêncio.”

Texto: Raul Brandão (Húmus)

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“Andávamos como pessoas com luzes acesas dentro. As palavras como lâmpadas na boca. Iluminando tudo no interior da cabeça.”

(Valter Hugo Mãe, A desumanização, p. 125)

Novo, de novo…

Primeiro azul do ano…

Céu e sombra

 

Borboletas

Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens 
e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta –
Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras 
do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças 
do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do 
que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que 
os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do 
ponto de vista de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.
(Manoel de Barros, Ensaios fotográficos)

 

 


… suspensa, toco o vento, pressinto o vazio do espaço, disponho a trajetória da queda livre imaginada, mas livre de quê, se tenho medo da morte… e mais ainda de viver.

 

“Olhei o mar com a intensidade dos desesperados, dos loucos, dos idiotas: à procura de uma resposta, de uma fuga, de uma anestesia, de uma morte. Depois, sem coragem para me continuar a martirizar, levantei-me e caminhei alguns passos, lentos e contrariados: afastando-me de ti, do passado, da minha vida.”

Texto: Paulo Kellerman  (Areia | lado B, Os mundos separados que partilhamos)