sabe a poema inocente

Do encontro e da cumplicidade entre palavras e imagens.

Um enorme obrigada ao Breve Leonardo por esta sintonia espontânea, delicada e bela.

sabe a poema inocente

o murmúrio de luz que
se inclina nas manhãs raras

estas – onde corpo ainda está aberto ao mundo – esta
onde o corpo acorda sereno,
não resiste.

por assim dizer,
a espessa álgebra do dia ainda não se fez sentir na rotina inquieta
da voz – como osso dormente e demais,
no corpo.

por assim dizer,
nesta manhã rara
as diminutas sílabas – soltas da palavra – ainda não ocupam espaço

como a pedra brisa
ou cinza vaga que
suspensos

sabem a poema. sabem
a luz ou poema – tão intacto

inocente.

Para ver jardins

estou a plantar florinhas nas cavidades
dos olhos para não ver mais para ver jardins

Valter Hugo Mãe (Publicação da mortalidade)

Vazio

“e as palavras que ninguém quis
silenciaram a festa do meu corpo”

(Alice Vieira)

Sobrevivo, mas é insensatez.”

Lya Luft (O lado fatal, Siciliano, 1991)

continuas aí

“continuas aí
uma fotografia em contínua revelação
maravilho-me quando emerges
líquida resplendecendo sob o vermelho
da câmara escura
estás aqui nas minhas mãos
toco-te acaricio-te
sinto as propriedades de quem vem
do fundo das entranhas de ser
és existes já
imprimindo tacto a toda a extensão
da pele o corpo move-se
numa autêntica nova forma.”

Palavras | Helder Magalhães (Nunca estiveste aqui, Edições Húmus, 2020)

Lembrança

O movimento inicia lento,
sístoles e diástoles,
numa respiração eterna
que rege o ritmo do universo.
Cor, textura,
invisível aos olhos,
apenas respirável.
Dita com precisão o tempo dos meus dias

Nava

“já há um relâmpago ao
invés do homem
que combate à noite
a tua ausência “


Valter Hugo Mãe (Nava, Publicação da mortalidade)

Finitude

“Porque o barro que nos compõe,
é esse que nos desintegra.”


Luiz Ruffato (As máscaras singulares)