XXIV

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Finalmente entendi
Por que motivo algumas pessoas se suicidam.

Foi ontem:
Acordei abruptamente e soube que não conseguiria voltar a dormir.
Soube que tudo o que havia a fazer era deixar-me estar quieto.
Esperar.
Sentir o tempo passar
E remoer os pensamentos.
Os mesmos pensamentos de sempre,
Um após outro.
O desfile completo,
Previsível,
Imparável.

Remoê-los devagarinho uma vez mais.
E uma vez mais,
Chegar a lado nenhum.

Será que algum pensamento pode
Algum dia
Conduzir a algum lado?

O meu sonho maior é conseguir dormir
E durante o sono sonhar que estou acordado e livre de pensamentos.

Mas o desfile nunca pára.
E há momentos,
Como ontem,
Quando acordei abruptamente e percebi que não conseguiria voltar a dormir,
Há momentos
Em que fico um pouco desesperado.

Só um pouco.
Mas e se um dia ficar muito?

Foi então que telefonei para te dizer:
Finalmente entendi
Por que motivo algumas pessoas se suicidam.

É quando o pouco se transforma em muito.

Sim,
Eram quatro da manhã e estavas a dormir.
Mas a pergunta não me saía da cabeça,
Precisava de verbalizá-la:
E se um dia ficar muito desesperado?

Desligaste o telefone,
Voltaste a dormir.
O que sonhaste?

E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

[a poesia inquietante de Paulo Kellerman]

E quando acabarem as perguntas?

E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

de Paulo Kellerman


O Paulo tem a poesia no olhar, e tem a capacidade de criar inúmeras imagens com as palavras: imagens belas, todas, algumas terríveis em sua beleza. Gosto de como fala das relações humanas (e nos poemas não é diferente); de como o relacionar-se com o outro envolve o relacionar-se consigo mesmo. E do tom melancólico que os poemas carregam, mesmo que de forma muito sutil (junto com a sedução, a paixão, a curiosidade, a leveza). No livro, há uma busca interna profunda, desesperançada até, mas há também a vontade de seguir… porque não se pode abandonar a morte (das coisas, das relações, dos momentos, a nossa), porque isso seria abandonar a vida (com tudo o que ela provoca e permite). Vida e morte, sempre juntas; a angústia disso, a plenitude disso.

Ilustração: Maraia

XXXIX

XXXIX

Não sei o que prefiro:
Se o beijo
Ou aqueles três segundos que antecedem o beijo.

Aqueles três segundos em que tudo é certeza
E desejo, 
Destino e inevitabilidade.
Os três segundos que parecem explicar e justificar 
A existência do Universo,
E dar sentido à vida.

Preferes o beijo ou os três segundos que o antecedem?

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E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS?
Edição Sem Editora

[a delicada poesia do Paulo Kellerman]

Sílabas

mas cada sílaba que nascia
trazia consigo uma maneira diferente e inútil
de te esquecer

Alice Vieira (Os armários da noite)

sabe a poema inocente

Do encontro e da cumplicidade entre palavras e imagens.

Um enorme obrigada ao Breve Leonardo por esta sintonia espontânea, delicada e bela.

sabe a poema inocente

o murmúrio de luz que
se inclina nas manhãs raras

estas – onde corpo ainda está aberto ao mundo – esta
onde o corpo acorda sereno,
não resiste.

por assim dizer,
a espessa álgebra do dia ainda não se fez sentir na rotina inquieta
da voz – como osso dormente e demais,
no corpo.

por assim dizer,
nesta manhã rara
as diminutas sílabas – soltas da palavra – ainda não ocupam espaço

como a pedra brisa
ou cinza vaga que
suspensos

sabem a poema. sabem
a luz ou poema – tão intacto

inocente.

Para ver jardins

estou a plantar florinhas nas cavidades
dos olhos para não ver mais para ver jardins

Valter Hugo Mãe (Publicação da mortalidade)

Vazio

“e as palavras que ninguém quis
silenciaram a festa do meu corpo”

(Alice Vieira)

Sobrevivo, mas é insensatez.”

Lya Luft (O lado fatal, Siciliano, 1991)

continuas aí

“continuas aí
uma fotografia em contínua revelação
maravilho-me quando emerges
líquida resplendecendo sob o vermelho
da câmara escura
estás aqui nas minhas mãos
toco-te acaricio-te
sinto as propriedades de quem vem
do fundo das entranhas de ser
és existes já
imprimindo tacto a toda a extensão
da pele o corpo move-se
numa autêntica nova forma.”

Palavras | Helder Magalhães (Nunca estiveste aqui, Edições Húmus, 2020)