Roto

Roto está
o meu
mun do
e não há agulha
que o remende.

Lúcia Vicente, Do dia que passa e além-mar (2025)

da coleção de poesia da nossa Minimalista

encomendas: minimalista.editora@gmail.com ou por DM

Capella Magna

Pestanejamos nimbos e naipes inventraçados.

Simples escovadoras
a perolizar
a capela sistina
das palavras.

Escovamos com pestanas opala-arlequim.
Cardealinas, sangue-de-Adão.

Assim nascem(os) sonhos e perolices.

Poema | Ana Sofia Elias

As aldeãs

Como se estivéssemos sentadas
Nas escadas da casa do bairro
A cumprimentar as aldeãs aprilinas
Nácares perolizantes
cabelo de copas e espadas
Preso com um gancho
a lembrar os países que ainda não conheço.

Estadualizei o carpo negro na cruz opalina que levavam ao peito
Só a minha linchagem
era de cor anilada
Enrugamento no céu da boca

E pestanejámos palavras nimbadas enquanto os castores e as rosas-de-toucar azulinavam os valetes e as damas e toscanejavam num murmúrio verdeal.

[o belo poema de Ana Sofia Elias]

FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5101

Esta poesia que legas

Como sobreviver a toda a solidão?
Alguém amou o que pressentiu
ou alguém pressentiu o que amou?

Nos seus tentáculos rubros, a derrota
aguenta todo o volátil movimento.

Para que servem estes versos se são
como todos os outros, insondáveis
no corpo solar de um Portugal de mar?

Os dias, em sua ferocidade, iludiram-me;
as noites, em sua violência, acusaram-me.

Esta derrota que distribuis, esta poesia
que legas, sabes, criar a ilusão no mundo
foi profundo e imundo por entre açucenas. 

__________

This poetry you bequeath 

How to survive all loneliness?
Did someone love what they sensed
or did someone sense what they loved?

In its crimson tentacles, defeat
endures all volatile motion.

What use are these verses if they are
like all others, unfathomable
in the solar body of a Portugal of sea?

The days, in their ferocity, deceived me;
the nights, in their violence, accused me.

This defeat you disseminate, this poetry
you bequeath, you already know, to create an illusion in the world
was profound and filthy among lilies.

Fotografar palavras, desde 2016 a espalhar beleza. Projeto do Paulo Kellerman e de toda(o)s nós.

Text|o: João Rasteiro

Ama-me

“Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.”

Hilda Hilst (II, Júbilo, memória, noviciado da paixão)

real da vida

“No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam.”

João Guimarães Rosa (Grande sertão: veredas)

O meu nome

“O meu nome é essa cicatriz
que insistes que sabes ler
só porque a fizeste.”

[My name is that scar
you insist you know how to read
just because you made it.
]

Gisela Casimiro (Giz)

As imagens

“As imagems poéticas têm, também elas, uma matéria.”

Gaston Bachelard (A água e os sonhos)