Almas desligadas

23. Deixar de me olhar

“Será que se deixar de me olhar ao espelho conseguirei esquecer o meu rosto? Conseguirei esquecer como sou, o que sou, quem sou? Conseguirei esquecer-me?”

Texto: Paulo Kellerman

O autor escreveu o romance Serviços mínimos de felicidade. Escolhi e fotografei 27 excertos. O texto acima é um desses excertos. A partir das fotos, o autor escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do livro.

Palavras fotografadas, fotografias narradas…

“Um rosto escondido pela escuridão porque a luz que ilumina a vida nunca é suficiente.”

Texto: Paulo Kellerman (Almas desligadas)

“Olharam-se nos olhos. Ficaram assim durante um instante que se estendeu até ao fim do tempo. Além do fim do tempo. Os dois conscientes de que aquele olhar os unira, os prendera um ao outro para sempre.”

Fotografar palavras

Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Ana Gilbert
 

Toda eu

“… estava permanentemente ocupada em querer e não querer ser o que eu era, não me decidia por qual de mim, toda eu é que não podia…”

Palavras: Clarice Lispector (A legião estrangeira, Os desastres de Sofia)

Escrita

Escrita

“escrever começa na margem”

Texto: Luísa Benevides
da palavra à imagem, da imagem à palavra

escrevo no teu corpo com as mãos
escrita trêmula, a princípio
firme, depois
inscrevo-me na tua pele
e mais fundo.
memorizo teus poros, percorro geografias,
lentamente.
aquilo que conhecerei de ti me será contado pelos meus dedos
para que possa sonhar contigo.
saberás o sonho.

Texto: Ana Gilbert

Soluços entrecortados chegam aos meus ouvidos, cansados, do esforço de tentar entender entre sussurros as perguntas para as minhas respostas.

Para os comboios não há escolha

Crônica 1
 …
Crônica 2
 …
Crônica 3
Os pássaros começam a cantar. E só depois o dia nasce. Só depois o sol aparece. Só depois o mundo começa a rodar, levando consigo as pessoas e as suas vidas. Mas no início de tudo está o cantar dos pássaros. Sente-os do lado de lá da janela do seu quarto, distribuídos pelos ramos das árvores do jardim (são três árvores, trinta e cinco ramos; por várias vezes pensou em contar também as folhas mas ainda não teve coragem); quietos e serenos, à espera do momento em que começarão a cantar. Ouve-os, e desse modo conhece-os. Sabe que a segunda melhor forma de conhecer alguém é escutar. E como os conhece já consegue antecipar o momento em que o silêncio se vai converter em canto. Gosta dessa rotina, e chamar-lhe rotina é uma forma de dizer que é algo que se tornou essencial para si (como respirar ou sorrir, duas rotinas fundamentais): abre os olhos, deambula ao acaso entre o mundo dos sonhos que acabou de abandonar e o mundo da realidade a que está a regressar, respira devagar, sente o cheiro da manhã que entra pela janela entreaberta. Depois, há sempre um momento em que sente no seu corpo: vão cantar; e nesse instante, os pássaros cantam. Serão eles que mantêm o mundo em movimento com o seu canto? Acredita que sim. Levanta-se da cama, caminha até à janela, espreita as árvores; e ouve. O canto dos pássaros é uma linguagem que desconhece mas, apesar disso, sente nela uma alegria que a contamina, que lhe transmite ânimo. O que pensarão os pássaros quando olham das suas árvores e a vêem à janela? Talvez pensem que ela esteja dentro de uma gaiola e, por isso, cantam para lhe trazer um pouco de alegria. E é com alegria que se entrega às primeiras tarefas da manhã, sentindo que a vida começa a arrancar; como se o mundo fosse um comboio a sair da estação, preparando-se para recolher passageiros e, depois, distribuí-los pelos locais onde querem estar ou precisam estar ou sonham estar. Quando entra na cozinha, o mundo está em pleno andamento. A luz do sol entra pela janela, há um cheiro a chá que demora a identificar, misturado com o cheiro a laranja. Os cheiros fazem-na sentir parte do universo; é como se a essência das coisas entrasse em si, e assim as coisas passassem a fazer parte do seu corpo. Distrai-se a tentar perceber qual será o chá do dia e, por isso, demora um instante a perceber que a mãe, sentada à mesa segurando uma laranja, está triste. Aproxima-se e toca-a na mão com suavidade (sabe que a melhor forma de conhecer alguém é tocar-lhe); a mãe olha-a, corresponde ao seu toque, tenta sorrir; quase consegue, mas depois há um momento em que o quase-sorriso se pode transformar em choro. Ficam em silêncio, unidas pelas mãos. É como se o comboio tivesse subitamente parado, indeciso sobre que caminho seguir; mas para os comboios não há escolha, o único caminho possível é apenas um: em frente. Levanta-se e aproxima-se da janela, puxando a mãe consigo; olham as árvores, o céu, as nuvens; e escutam o canto dos pássaros. O tempo passa devagar, o chá arrefece. O comboio arranca, ganha velocidade. A mãe diz: «Sabes o que devíamos fazer, um dia destes? Contar quantas folhas existem nestas árvores. Sempre quis fazer isso, tu não?»
Paulo Kellerman (Crônica para o Jornal de Leiria)

Auto-retrato 12

“Já que não me entendes, não me julgues
não me tentes…”

Palavras: Renato Russo

Lembrança alada

Ave

“Em alguma vida fui ave.
 
Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.
 
E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.
 
Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.
 
Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.
 
Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.
 
Em alguma ave fui vida.”

Palavras: Mia Couto [poemas escolhidos]

Insignificância

“Há momentos que, com tão ínfima duração, são enormes na sua capacidade de nos reduzir a uma insignificância tremendamente dolorosa de sentir.
Carregamos toda a nossa existência no incerto de decisões nascidas no medo, trémulas em assertividade, que nos empurram para ir no simultâneo de ficar.
Viajamos até onde fomos mais, desejando voltar a ser e ter, enfrentando toda a impotência que nos cerca.
Percebemos que o pouco que éramos não somos, e que a única matéria que conseguimos arrastar é apenas, tanto e só, a que nos constitui.
Acordamos em nós, sedentos de viver pelo que permanece sempre connosco…
Há momentos, que de tanto os esquecer, ficarão em mim para sempre.”

Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Catarina Vale

Unhas

“Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem.”

Texto: Clarice Lispector (A legião estrangeira, Os desastres de Sofia)

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“Perguntei: por que estamos tão tristes? Respondeu: é assim mesmo.”

Texto: Clarice Lispector (A descoberta do mundo)

Um ano de sutilezas…

1 ano 2

O blog Sutilezas do olhar nasceu do meu interesse por imagens e por palavras e pelas possibilidades infinitas de entrelaçamento entre elas… Com as imagens e as palavras vieram as pessoas; e com as pessoas, os sonhos, as ideias, as parcerias, os projetos, os sorrisos e os abraços… Também chegaram pessoas que nunca encontrei; pessoas que passam por aqui, demoram-se mais ou menos e deixam suas marcas, não apenas sob a forma de curtidas ou comentários, mas marcas silenciosas dos seus olhares, como se fossem toques sutis, que impregnam as imagens e me devolvem algo sobre mim, algo apreendido e filtrado pelos seus olhos.

Obrigada a todos os que por aqui passam; a todos os que dedicam algum tempo a descobrir e apreciar a forma como vejo o mundo…

… porque “às vezes o que eu vejo quase ninguém vê.” (Renato Russo)

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Tempo da ausência

“Tenho as pessoas à mão. Sei o que comem, a hora que acordam. Vejo luzinhas verdes acesas. Já estão na linha.

Sei que, às vezes, estão tristes. Quando pousam com aquele sorriso brilhante de selfie no meio de meu display. Nunca me vi no espelho dos olhos de uma selfie. Nessas horas de tristeza inconfessa, quero estender o braço. Tocá-las no ombro, sentar ao lado de seu denso silêncio. Mas o whatsapp, o messenger e o raio que o parta andam vazios de cadeiras.

Mando áudio de voz. Fecho os olhos enquanto gravo. Falo sozinha. Faço, escrevo, curto, soliloquio. Porque também tenho faltas. Falta-me a festa a que não fui. Vi toda a minha ausência pendurada nas fotos da corda de alguma rede. Falta-me a poesia que não ouvi a minha amiga dizer. O momento em que esqueceu a estrofe. Entre o desastre e a retomada do fio, pude ver o seu re-verso. Faltam-me os esquecimentos. Todos os enterros a que não fui. Li dezenas de homenagens em páginas e páginas de tela líquida. Serena-me um pouco o buraco.

Falta-me a ausência dos que mais quero, ouço, leio. Da tua prosa. Quero ler-te com o assombro de quem não foi preparado. Faltam-me os dez dias em que não vi a sombra de tua voz, o rastro amado de tua silhueta.

Como a de minha avó. Ligo toda semana.

– Como passou os dias? Está frio? Usou casaco? Comeu o quê de mais saboroso?- pergunto.

-Tudo na mesma – ela diz.

Conta-me. Sempre pela primeira vez.

Quero-te ausente. A festa, a letra, o amor.

Quanto tempo, direi. Quanto tempo, dirás. E nesse abismo entre a tua solidão e a minha angústia, te falarei, te verei o rosto. Te lerei a prosa no emaranhado das linhas da palma da mão.

E se, por acaso, este texto saltar-te aos olhos em tua imensa linha do tempo, saberás de minha enorme contradição.

O que faltar, te conto ao vivo.”

Texto: Lorena Kim Richter

O lugar do carinho é onde me sinto mais vulnerável, aconchegada, exposta… é onde recebo pétalas, agulhas, pedras…

Palavras

Vento 4

“As palavras nada têm a ver com as sensações. Palavras são pedras duras e as sensações delicadíssimas, fugazes, extremas.”

Texto: Clarice Lispector (Para não esquecer)