
“Perguntei: por que estamos tão tristes? Respondeu: é assim mesmo.”
Texto: Clarice Lispector (A descoberta do mundo)

“Perguntei: por que estamos tão tristes? Respondeu: é assim mesmo.”
Texto: Clarice Lispector (A descoberta do mundo)

O blog Sutilezas do olhar nasceu do meu interesse por imagens e por palavras e pelas possibilidades infinitas de entrelaçamento entre elas… Com as imagens e as palavras vieram as pessoas; e com as pessoas, os sonhos, as ideias, as parcerias, os projetos, os sorrisos e os abraços… Também chegaram pessoas que nunca encontrei; pessoas que passam por aqui, demoram-se mais ou menos e deixam suas marcas, não apenas sob a forma de curtidas ou comentários, mas marcas silenciosas dos seus olhares, como se fossem toques sutis, que impregnam as imagens e me devolvem algo sobre mim, algo apreendido e filtrado pelos seus olhos.
Obrigada a todos os que por aqui passam; a todos os que dedicam algum tempo a descobrir e apreciar a forma como vejo o mundo…
… porque “às vezes o que eu vejo quase ninguém vê.” (Renato Russo)


“Tenho as pessoas à mão. Sei o que comem, a hora que acordam. Vejo luzinhas verdes acesas. Já estão na linha.
Sei que, às vezes, estão tristes. Quando pousam com aquele sorriso brilhante de selfie no meio de meu display. Nunca me vi no espelho dos olhos de uma selfie. Nessas horas de tristeza inconfessa, quero estender o braço. Tocá-las no ombro, sentar ao lado de seu denso silêncio. Mas o whatsapp, o messenger e o raio que o parta andam vazios de cadeiras.
Mando áudio de voz. Fecho os olhos enquanto gravo. Falo sozinha. Faço, escrevo, curto, soliloquio. Porque também tenho faltas. Falta-me a festa a que não fui. Vi toda a minha ausência pendurada nas fotos da corda de alguma rede. Falta-me a poesia que não ouvi a minha amiga dizer. O momento em que esqueceu a estrofe. Entre o desastre e a retomada do fio, pude ver o seu re-verso. Faltam-me os esquecimentos. Todos os enterros a que não fui. Li dezenas de homenagens em páginas e páginas de tela líquida. Serena-me um pouco o buraco.
Falta-me a ausência dos que mais quero, ouço, leio. Da tua prosa. Quero ler-te com o assombro de quem não foi preparado. Faltam-me os dez dias em que não vi a sombra de tua voz, o rastro amado de tua silhueta.
Como a de minha avó. Ligo toda semana.
– Como passou os dias? Está frio? Usou casaco? Comeu o quê de mais saboroso?- pergunto.
-Tudo na mesma – ela diz.
Conta-me. Sempre pela primeira vez.
Quero-te ausente. A festa, a letra, o amor.
Quanto tempo, direi. Quanto tempo, dirás. E nesse abismo entre a tua solidão e a minha angústia, te falarei, te verei o rosto. Te lerei a prosa no emaranhado das linhas da palma da mão.
E se, por acaso, este texto saltar-te aos olhos em tua imensa linha do tempo, saberás de minha enorme contradição.
O que faltar, te conto ao vivo.”
Texto: Lorena Kim Richter

Borboletas farfalham meus olhos…

O lugar do carinho é onde me sinto mais vulnerável, aconchegada, exposta… é onde recebo pétalas, agulhas, pedras…

“As palavras nada têm a ver com as sensações. Palavras são pedras duras e as sensações delicadíssimas, fugazes, extremas.”
Texto: Clarice Lispector (Para não esquecer)


“Tocar na falta seria a arte?”
Texto: Clarice Lispector (A maçã no escuro)

“me abrace, que no abraço mais do que em palavras, as pessoas se gostam.”
Texto: Clarice Lispector

“- O que faço com os teus sonhos?”
Texto: Eduardo Galeano (O livro dos abraços)

“Nunca tinha pensado que o silêncio de uma casa pudesse ser tão monótono, tão escuro, tão desolador.”

Dizem que à noite o bicho vem
E vem.
Abre sua larga garganta e me expulsa do sono
Faz-me rondar pela noite insone,
palpitar angústia aguda
Encharca a cama com cheiro de morte
E os meus olhos vivos
enxergam finitude
Dizem que à noite o bicho vem
E vem.
Mas
às vezes
apenas se deita ao meu lado
e chora
por ser tão bicho assim.
Palavras: Lorena Richter

Mas quais são as palavras que nunca são ditas?
(Renato Russo)

Você
tem que aprender
a respeitar a vida humana, disse o juiz.
Parecia justo.
Mas o juiz
não sabia que, para muitos,
a vida não é humana.
O prisioneiro retorquiu:
há muito me demiti de ser pessoa.
E proferiu, por fim:
um dia,
a nossa vida será, enfim,
viva e nossa.
Mia Couto [poemas escolhidos]

“Vou colhendo fragmentos de vida e guardo-os numa caixa. A essa caixa chamo alma.”

“… se me tivesses abraçado, se adivinhasses que um abraço era tudo o que desejava. Mas não adivinhaste. Não voltaste a tocar-me.”
Palavras: Paulo Kellerman (Diz-me o teu nome, pergunta-me o meu, Gastar palavras)

“Sinto a solidão na inteireza do corpo. Nas mãos o desamparo lê-se evidente.”

“Não estou perdida, mas parece que não consigo encontrar-me.”