Soluços entrecortados chegam aos meus ouvidos, cansados, do esforço de tentar entender entre sussurros as perguntas para as minhas respostas.
Para os comboios não há escolha




“Já que não me entendes, não me julgues
não me tentes…”
Palavras: Renato Russo
Lembrança alada

“Em alguma vida fui ave.
Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.
E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.
Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.
Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.
Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.
Em alguma ave fui vida.”
Palavras: Mia Couto [poemas escolhidos]

“Há momentos que, com tão ínfima duração, são enormes na sua capacidade de nos reduzir a uma insignificância tremendamente dolorosa de sentir.
Carregamos toda a nossa existência no incerto de decisões nascidas no medo, trémulas em assertividade, que nos empurram para ir no simultâneo de ficar.
Viajamos até onde fomos mais, desejando voltar a ser e ter, enfrentando toda a impotência que nos cerca.
Percebemos que o pouco que éramos não somos, e que a única matéria que conseguimos arrastar é apenas, tanto e só, a que nos constitui.
Acordamos em nós, sedentos de viver pelo que permanece sempre connosco…
Há momentos, que de tanto os esquecer, ficarão em mim para sempre.”

“Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem.”
Texto: Clarice Lispector (A legião estrangeira, Os desastres de Sofia)

Tão mais fácil seria
se não houvesse dor
se fôssemos insensíveis ao dilaceramento.

“Perguntei: por que estamos tão tristes? Respondeu: é assim mesmo.”
Texto: Clarice Lispector (A descoberta do mundo)
Um ano de sutilezas…

O blog Sutilezas do olhar nasceu do meu interesse por imagens e por palavras e pelas possibilidades infinitas de entrelaçamento entre elas… Com as imagens e as palavras vieram as pessoas; e com as pessoas, os sonhos, as ideias, as parcerias, os projetos, os sorrisos e os abraços… Também chegaram pessoas que nunca encontrei; pessoas que passam por aqui, demoram-se mais ou menos e deixam suas marcas, não apenas sob a forma de curtidas ou comentários, mas marcas silenciosas dos seus olhares, como se fossem toques sutis, que impregnam as imagens e me devolvem algo sobre mim, algo apreendido e filtrado pelos seus olhos.
Obrigada a todos os que por aqui passam; a todos os que dedicam algum tempo a descobrir e apreciar a forma como vejo o mundo…
… porque “às vezes o que eu vejo quase ninguém vê.” (Renato Russo)

Pele
Tempo da ausência

“Tenho as pessoas à mão. Sei o que comem, a hora que acordam. Vejo luzinhas verdes acesas. Já estão na linha.
Sei que, às vezes, estão tristes. Quando pousam com aquele sorriso brilhante de selfie no meio de meu display. Nunca me vi no espelho dos olhos de uma selfie. Nessas horas de tristeza inconfessa, quero estender o braço. Tocá-las no ombro, sentar ao lado de seu denso silêncio. Mas o whatsapp, o messenger e o raio que o parta andam vazios de cadeiras.
Mando áudio de voz. Fecho os olhos enquanto gravo. Falo sozinha. Faço, escrevo, curto, soliloquio. Porque também tenho faltas. Falta-me a festa a que não fui. Vi toda a minha ausência pendurada nas fotos da corda de alguma rede. Falta-me a poesia que não ouvi a minha amiga dizer. O momento em que esqueceu a estrofe. Entre o desastre e a retomada do fio, pude ver o seu re-verso. Faltam-me os esquecimentos. Todos os enterros a que não fui. Li dezenas de homenagens em páginas e páginas de tela líquida. Serena-me um pouco o buraco.
Falta-me a ausência dos que mais quero, ouço, leio. Da tua prosa. Quero ler-te com o assombro de quem não foi preparado. Faltam-me os dez dias em que não vi a sombra de tua voz, o rastro amado de tua silhueta.
Como a de minha avó. Ligo toda semana.
– Como passou os dias? Está frio? Usou casaco? Comeu o quê de mais saboroso?- pergunto.
-Tudo na mesma – ela diz.
Conta-me. Sempre pela primeira vez.
Quero-te ausente. A festa, a letra, o amor.
Quanto tempo, direi. Quanto tempo, dirás. E nesse abismo entre a tua solidão e a minha angústia, te falarei, te verei o rosto. Te lerei a prosa no emaranhado das linhas da palma da mão.
E se, por acaso, este texto saltar-te aos olhos em tua imensa linha do tempo, saberás de minha enorme contradição.
O que faltar, te conto ao vivo.”
Texto: Lorena Kim Richter

Borboletas farfalham meus olhos…

O lugar do carinho é onde me sinto mais vulnerável, aconchegada, exposta… é onde recebo pétalas, agulhas, pedras…
Palavras

“As palavras nada têm a ver com as sensações. Palavras são pedras duras e as sensações delicadíssimas, fugazes, extremas.”
Texto: Clarice Lispector (Para não esquecer)
Solidão

Toque

“Tocar na falta seria a arte?”
Texto: Clarice Lispector (A maçã no escuro)
Abraço

“me abrace, que no abraço mais do que em palavras, as pessoas se gostam.”
Texto: Clarice Lispector

“- O que faço com os teus sonhos?”
Texto: Eduardo Galeano (O livro dos abraços)

“Nunca tinha pensado que o silêncio de uma casa pudesse ser tão monótono, tão escuro, tão desolador.”



