A partir de 1 de agosto de 2021, acontece a segunda de 4 exposições do projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS, no m|i|mo – museu da imagem em movimento, em Leiria, Portugal.
A iniciativa despretensiosa do Paulo Kellerman de unir escritores e fotógrafos em torno da paixão por texto e imagem revelou-se um projeto duradouro e potente na sua (trabalhosa) simplicidade. Exercício diário de criatividade desde 2016, o projeto conta hoje com 2928 publicações que podem ser apreciadas no blog de mesmo nome, em sequência temporal ou nas galerias dos diferentes fotógrafos e escritores. Reúne diferentes estilos e subjetividades artísticas, num ambiente experimental de respeito e liberdade; de profunda cumplicidade entre palavra e imagem.
Apesar de desenvolvido em plataforma virtual, o projeto promove e alimenta relações de amizade e colaboração artística que existem para além das telas dos dispositivos tecnológicos, habitando a dimensão essencial do contato humano e ultrapassando as distâncias geográficas entre os participantes.
Continua a ser um gosto e um orgulho participar. Continua a ser um exercício criativo estimulante e desafiador. Continua a envolver-me em afetos, parcerias e amizades bonitas.
Aguardamos por vocês na exposição. 40 artistas: 20 escritores, 20 fotógrafos
De 1 de agosto a 21 de novembro de 2021. Abertura: 1 de agosto, às 16 horas m|i|mo – museu da imagem em movimento
“As asas doíam-lhe, como se tivessem sido enterradas à força na carne. Eram vermelho-fogo. Lindas e brilhantes. Verdadeiras. Só a verdade dói.” (Mónia Camacho)
DOEM-ME AS ASAS
Uma das qualidades que me encanta na escrita da Mónia Camacho é a sua capacidade de criar ‘espaços’ entre as palavras que se percebem de forma sutil, indiciária. Esses espaços se abrem ao leitor e permitem que ele se espalhe; que os explore e percorra, criando suas próprias paisagens, vislumbrando outros mundos possíveis. E no romance Doem-me as Asas não é diferente: esta qualidade está presente de forma marcante, em especial nas frases curtas que a Mónia tão bem cria e faz uso. Frases que dizem muito mais do que se pode ler nas palavras impressas.
Ao avançar na leitura do romance, vou aos poucos registrando diferentes camadas que guiam o meu olhar. Camadas que se entrelaçam, sobrepõem ou seguem paralelas. Uma primeira camada é a do enredo propriamente dito, e que me leva a mergulhar na história que carrega um tom de ficção científica, ou de fantástico. Mas, principalmente, uma história que fala do sentir humano e que vai além dos rótulos.
Em simultâneo, percebo uma segunda camada que traz uma angústia subliminar porque toca de forma incisiva no que me parece ser um ‘futuro atual’. Apesar do texto ter sido escrito muito antes da pandemia do novo coronavírus e se referir a um futuro impreciso, ele traduz percepções que me ocorrem diante do nosso cenário hoje: término de um mundo conhecido, esgotamento de um excesso de racionalidade que se conecta à perda de certos valores humanos, relação íntima entre capitalismo, desastre ambiental e produção de ideias e imagens demasiado contundentes, tais como refugiado, imunidade, cisão do mundo.
Diante dessas reflexões sobre a nossa existência, deparo-me com a terceira camada: a de uma viagem interna em que a personagem feminina, Glória, vai em busca de conexão, de (re)encontro consigo mesma, guiada por uma imagem produzida por uma instância autônoma, fora da sua consciência. E é essa busca por compreender a imagem que a torna uma presença fundamental na (re)construção de uma outra forma de mundo, ou de consciência.
Há, ainda, uma quarta camada, a camada das referências (afetivas, talvez) não apenas literárias, mas artísticas de modo geral. Como pequenas marcações que me guiam no percurso da leitura e que trazem questionamentos sobre a arte e a escrita, sobre o papel e a importância da imaginação e da criatividade como sustentáculos da vida psíquica.
Os textos da Mónia traduzem a sua curiosidade pelo humano. O romance avança pela trajetória da nossa condição de seres individuais e coletivos e da responsabilidade pela forma como nos relacionamos com a alteridade; desdobra os desejos de luz e sombra, de vida e morte que nos habitam. Lembra-nos de que somos feitos de matéria opaca e transcendência. De efemeridade e eternidade.
Literatura e fotografia científica. Processos criativos que se encontram.
A Rede SciCom Pt (Rede de Comunicação de Ciência e Tecnologia de Portugal) fez um convite à Minimalista para participar no congresso SciCompPt 2021. O desafio era que cada um dos 12 autores criasse um texto literário (gravado em áudio) para imagens relacionadas com ciência ou com divulgação de ciência.
O resultado pode ser visto neste vídeo de boas-vindas ao congresso…
Estes são tempos difíceis… e a arte tem sido uma grande companheira. Muita coisa aconteceu neste ano: palavras, imagens, entrelaçamentos, parcerias… uma editora, a Minimalista.
O meu agradecimento aos que percorrem comigo este caminho; aos que me afetam e se deixam afetar pelo meu olhar…
“todas as guerras estão | infectadas pela | expectativa do amor”
“… a mente cheia, completamente cheia: pedaços de imagens irreconhecíveis e farrapos de sensações difusas misturando-se com fragmentos de passado e vislumbres de futuros que nunca se concretizarão (sonhos, acho que é como lhes chamam), memórias demasiado ténues (perenes, tão perenes que poderão ser imaginadas) de sorrisos e orgasmos e dores e toques e sabores e cheiros e carícias e choros e beijos e sons e mais sorrisos. Tudo indefinido e confuso, em constante movimento caleidoscópico; arrebatando-me e distraindo-me, devorando-me.”
Palavras | Paulo Kellerman (Francisco / Ângela, Chega de fado, Deriva , 2010)
Paulo Kellerman: 25 anos de literatura, 25 anos a criar beleza com as palavras
“Quando fiz seis anos, fui à escola. Dezassete anos depois,saí.
Sentia-me preparado. E, mais que isso, sentia-me ansioso. Passava os dias à espera que me chamassem, aguardando a minha vez.
Quando já desesperava, convocaram-me.
Nem quis acreditar. Verdadeiramente excitado, cheguei à fábrica e apresentei-me. Depois, tudo se precipitou. Mandaram-me para uma sala onde dezenas de outros aguardavam; começaram a chamar e fomos entrando nas caixas, escuras e apertadas.
Passaram meses. Então, alguém abriu a caixa, pegaram em mim e riscaram-me. Criei fogo. Sopraram-me e morri.
(O meu último pensamento: “Uma vida de preparação para isto!? Acabou tudo? Tão depressa?”).
Palavras | Paulo Kellerman (Miniaturas, Edições Colibri, 2001)
“Não há abraço que me doa mais do que o silencioso que me amordaça as palavras. Um vilão obscuro das minhas noites. Conheci-o em tempos. Apaixonou-se por mim. Mas eu não correspondo. Visita-me de noite. Peço que não o faça. Ele resiste. Tem um pacto com a noite. A noite tem um preço. O preço de a dormir sem a sentir. Não o consigo pagar. A dívida acumula-se. A minha incapacidade de saldar a dívida tem sido a maior declaração de amor daquele abraço. O abraço silencioso que me amordaça as palavras.”
“As coisas que guardei e as coisas que esqueci; no fundo é assim que construí aquilo que sou, a minha identidade; aquilo que guardo na memória acaba por ser aquilo que me define.”
“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.” . Clarice Lispector (Água viva)
Poeta só. Porque só é a solidão de um poema. Nevoeiro é o que vejo dentro do peito. Rarefeito o racional, banal o carnal. Bacanal de emoções vãs. Só está a solitude de uma prosa. Nua de versos ou ritmos. Crua e incerta inserta a solidão no poeta. Fico só com estas letras. Chove do lado de fora da janela, dentro do peito só nevoeiro, orvalho e melancolia. Só.
Ainda não tenho o novo romance da Joana Lopes comigo, mas pelo que fui lendo aqui e ali, entre excertos, resenhas e comentários, sinto que “A chama de Adrião Blávio” é profundamente poético e transbordante de imagens. Mesmo sabendo que a imagem fotográfica não dará conta das belíssimas imagens construídas pelas palavras, atrevi-me a fotografar o excerto abaixo…
“Cigarros
Sinto vontade de fumar. Imagino que fumo um SG Filtro enquanto pinto um quadro para ti. O tecto é a grande tela onde nos recrio. Pinto-nos corpos porosos, cubro-os com musgos mornos e húmidos. Depois, das nossas cabeças, faço voar uma rajada de pombas. Pombas límpidas feitas de cristais e da luz que chega ao quarto através da janela. Pombas levantadas das nossas ideias para voar em círculos no espaço. Aves alabastrinas que de súbito afundam os bicos e as garras nos nossos peitos. Lázara, há pássaros brancos ensanguentados; criaturas magnânimas que nos libertam da doença e, ao desaparecerem pela janela, levam-nos as almas nas asas.”
A chama de Adrião Blávio | Joana M. Lopes Alêtheia Editores
Um sonho, uma ideia, um grupo de amigos. Criatividade e cooperação. Talentos. Desafios.
Assim surgiu a Minimalista, uma editora independente e informal. Somos doze escritores e três profissionais do design e das artes plásticas de Portugal e do Brasil. Juntos, estamos realizando o sonho. Contribuímos com o que sabemos e gostamos de fazer para levar adiante uma proposta ousada.
Na contramão da crise e do desalento em que vivemos, a Minimalista encara o desafio e avança com vigor. É com grande alegria e orgulho que recebo no Brasil a nossa primeira publicação: o romance Aviões de papel, do Minimalista Paulo Kellerman, um livro que inquieta com a beleza.
A segunda publicação já está a caminho: o romance Florbela, da Minimalista Sandrine Cordeiro. Mais detalhes, em breve.
Encomendas pelo email: minimalista.editora@gmail.com