“Olharam-se nos olhos. Ficaram assim durante um instante que se estendeu até ao fim do tempo. Além do fim do tempo. Os dois conscientes de que aquele olhar os unira, os prendera um ao outro para sempre.”

Fotografar palavras

Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Ana Gilbert
 

Insignificância

“Há momentos que, com tão ínfima duração, são enormes na sua capacidade de nos reduzir a uma insignificância tremendamente dolorosa de sentir.
Carregamos toda a nossa existência no incerto de decisões nascidas no medo, trémulas em assertividade, que nos empurram para ir no simultâneo de ficar.
Viajamos até onde fomos mais, desejando voltar a ser e ter, enfrentando toda a impotência que nos cerca.
Percebemos que o pouco que éramos não somos, e que a única matéria que conseguimos arrastar é apenas, tanto e só, a que nos constitui.
Acordamos em nós, sedentos de viver pelo que permanece sempre connosco…
Há momentos, que de tanto os esquecer, ficarão em mim para sempre.”

Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Catarina Vale

“Ainda mal me conheces. Talvez nem me tenhas olhado bem. Passei por ti no turbilhão das emoções, estava em fogo ardente, a correr sem destino. Talvez nem me tenhas olhado bem. Sou eu. Eu mesma, meu amor. Não te lembras de mim? Um dia demos as mãos e caminhamos juntos. Um dia de verão na sombra daquele lugar só nosso, trocamos juras de amor eterno. Éramos crianças. Tão pequenos e tão grandes a imaginar o futuro.
Talvez não me tenhas olhado bem. Estou diferente. Mas lá no fundo sou a mesma pequena. A tua pequena.
Talvez não me tenhas sentido bem. Os anos passaram. Muitos anos passaram. Demasiados, diria. Talvez te falte a coragem. E te palpite o coração. Talvez te estremeça a mão quando procuras a minha. Ou te sequem as palavras com tanto calor que se não vê.
Talvez não tenhas lido as entrelinhas do meu ser. Nem as letrinhas pequenas. Mas tudo bem. Nada disso importa agora. É nas grandes que tudo está escrito. Basta ler, meu amor. É tudo tão simples e natural.
Talvez não me tenhas olhado bem. Mas eu passei a teu lado. Agora, já fui. Eu tinha que ir. Tinha mesmo que ir. Mas, em cada rabisco do nosso voo fica um rasto. Basta olhar o céu, meu amor. Basta olhar o céu…” 

Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Renata Barbosa

“… se me tivesses abraçado, se adivinhasses que um abraço era tudo o que desejava. Mas não adivinhaste. Não voltaste a tocar-me.”

Palavras: Paulo Kellerman (Diz-me o teu nome, pergunta-me o meu, Gastar palavras)

“Nunca tinha pensado que a solidão pudesse ser não uma ausência de tudo mas a saturação de presenças fantasmagóricas, de pensamentos solidificados, de imagens resplandecentes de cor e brilho e magnetismo.”

Projeto e texto: Paulo Kellerman

“De onde surgem os gritos, como nascem?”

Fotografar palavras
Projeto e texto: Paulo Kellerman
Foto: Ana Gilbert

Palavras fotografadas, fotografias narradas…

“A vulnerabilidade de um peito que esconde um coração, um coração que esconde medos e desesperos insuspeitos para quem olha e apenas vê um peito, apesar de saber que algures há um coração.”

(Paulo Kellerman, Almas desligadas)

Almas desligadas

Paulo Kellerman  escreveu o romance Serviços mínimos de felicidade. Escolhi e fotografei 27 excertos. A partir das fotos, o autor escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do livro.

Palavras fotogradas, fotografias narradas.

O resultado: um ebook, que pode ser lido e baixado aqui.

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“As esquinas de nossa cidade em que me aguardas a todo tempo deixaram de ser caminhos que se tocam. Lembras daquela brincadeira em que grudávamos tira sobre tira de papel com cola de água e farinha e criávamos cruzes, encruzilhadas, estrelas, raios de rotunda? Não. Não tens jeito de criança. Vi-te outro dia, nem cinco anos tinhas, jogando bolinhas de papel na contramão da escada rolante. O guarda brandiu o seu cassetete de borracha. Só querias ver se as bolinhas voltavam. Para ti.”

Fotografar palavras

Projeto: Paulo Kellerman

Texto: Lorena Kim Richter

Auscultadores

“O quarto estava escuro mas as cores pareceram ganhar uma estranha tonalidade nova, como se estivessem a ser recriadas, recalibradas, redimensionadas; o vermelho da porta do armário, o verde dos números (que não mudavam; seria isso bom, seria isso mau?) nas máquinas médicas a que a P. estava ligada, o azul do céu num quadro pendurado numa parede onde também havia um barco amarelo. (Faltava o cor-de-rosa de uns auscultadores.)”
…
Projeto e Texto: Paulo Kellerman