10 anos de criatividade, encontros, descobertas, talentos, afetos, construção conjunta, diversidade, desafios, expansão, olhares, cumplicidades, palavras, leituras, imagens, chegadas, pausas, novos projetos, celebração.
10 anos de casa poética.
E a comemoração vai ser bonita.
No dia 5 de setembro, inaugura a exposição comemorativa, a sétima, no m|i|mo museu, em Leiria, Portugal. E fica até 29 de novembro. Esperamos por vocês!
Obrigada, querida Silvia Bernardino, por fazeres a ponte, em 2017, para que eu chegasse.
Obrigada, querido Paulo Kellerman, pelo tempo e cuidado que dedicas a este projeto; por receberes estes olhos brasileiros (e palavras)… e por tudo o que se seguiu.
Obrigada, m|i|mo museu, pelo acolhimento sempre generoso; por ser casa para esta nossa casa.
Vida longa ao Fotografar palavras! Esta é, e será sempre, uma declaração de amor ao projeto.
Na publicação # 5403 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a companhia é do belo poema do ~nassr
Lar
Reconheci-te no instante em que te encontrei — o teu sorriso, rebeldia talhada em alegria contida, as conversas que murmuravas às folhas de chá, como se o futuro se escondesse no perfume do vapor. Conhecia a tua alma muito antes de a tua pele dizer o primeiro olá. Não foi fogo, nem carne, nem vertigem, foi apenas o ver através: as tuas inseguranças — disfarçadas de armadura, o teu perfume — um mapa sem destino.
Ergui um lar dentro de ti. Mas o chão tremia, o vidro partiu-se sob o nosso peso, e o lar desfez-se — um fantasma de abrigo, deixando-me órfão de um lugar onde nunca vivi.
Procurei-te noutros rostos, derramei-me em corações abertos, na esperança de que guardassem o eco da saudade. Mas cada casa onde entrei era um quarto sem ar, um corpo sem morada.
Ser refugiado ensinou-me que os lares não se talham em pedra — a pedra cede sob o peso do exílio. Um ano, um lugar, e recomeça-se. Mas a alma cansa-se de paredes que não escutam.
Uma casa pode conter o corpo, mas é o lar que contém o coração. E se os lares que ergui nos outros nunca pudessem suportar o peso da minha alma? E se todo o coração precisar de repouso, mas nem todo o lugar o puder acolher? Talvez o lar não seja um destino. Talvez seja o instante do reconhecimento, o breve pulsar onde duas almas murmuram: “Também eu te procurava.”
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Home
I recognised you when I met you, your grin—rebellion carved in quiet joy, your whispered debates with tea leaves as if they held your future in their scent. I knew your soul, long before your skin introduced itself. No fire of attraction, no storm of flesh, but I saw through the layers: your insecurities—dressed as armor, your perfume—a map to nowhere.
I built a home within you. The foundation trembled, glass fractured beneath our weight, and suddenly, the home dissolved— a phantom of safety, leaving me homesick for a place I’ve never been.
I searched for you in others, emptied myself into open hearts, hoping they’d catch the echo of longing, but every house I entered was a room empty of air.
Being a refugee taught me homes aren’t carved in stone; stone crumbles under the weight of exile. One year, one place, then you build again, but the soul grows weary of walls that don’t listen.
A house may hold the body, but a home holds the heart. What if the homes I’ve built in others could not hold my soul’s weight? What if every heart needs a place to rest, but not every place can carry the heart? Perhaps home isn’t a destination. Perhaps it’s the pulse of recognition, perhaps it’s the moment two souls whisper, “I’ve been looking for you, too.”
Texto | Text: ~nassr Fotografia | Photography: Ana Gilbert
O tempo é apenas uma sequência de acasos. A eternidade é apenas uma sequência de acasos. A existência é apenas uma sequência de acasos. Tu és apenas uma sequência de acasos.
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Time is just a sequence of coincidences. Eternity is just a sequence of coincidences. Existence is just a sequence of coincidences. You are just a sequence of coincidences.
A minha filha termina por estes dias o segundo ano de um curso de artes. Quando andava no secundário, ouviu de colegas que frequentavam outras áreas de estudo comentários sobre a irrelevância dos cursos de artes. Respondia algo do género: «Gostava de saber como aguentarias a tua vida sem música e cinema e pintura e literatura e jogos e fotografia e dança e todas as outras artes.» Costumam existir duas posições antagónicas: de um lado, um certo endeusamento dos criadores, como se fossem seres superiores a quem tudo é devido; do outro, um certo desprezo por quem cria, como se a arte nascesse do ar, dispensando a acção e o esforço. São os defensores desta última postura que vão perpetuando a velha ideia de que os criadores são pouco mais do que parasitas da sociedade; afinal, se neste momento parar de ser criada arte, no YouTube têm material suficiente para se entreterem durante uma vida ou duas. Que este pensamento subsista, é triste. Mas existe forma de o combater? Deverá haver por aí uma infinidade de propostas; portanto, não virá mal ao mundo se juntar a esse pacote mais algumas sugestões; simples e utópicas. Primeiro passo: perceber claramente que existe uma diferença entre cultura e entretenimento; não se chega a lado nenhum sem antes aceitar que uma coisa é estimular o pensamento, a acção, a curiosidade, as emoções, o sonho ou a liberdade e outra coisa é distrair ou divertir. Segundo passo: apelar àqueles criadores que se encontram em pedestais que desçam até cá abaixo e percebam que se os seus egos conversarem com os egos dos outros talvez possam nascer ideias bonitas. Terceiro passo: os defensores da teoria do artista-parasita compreenderem que o trabalho artístico é isso mesmo, trabalho; ou seja, merecedor de respeito e remuneração justa. Quarto passo: aproximar criadores e públicos numa relação de pares; nem o criador é um deus alvo de veneração, nem o público é uma entidade anónima e passiva; são pessoas. Como fazer isso? Por exemplo, criando residências artísticas de longa duração em que criadores e público-tornado-criador participam na concepção de projectos concretos (peças de teatro, exposições, livros, álbuns de música); em que todos são pagos e portanto igualmente responsabilizados e valorizados; em que todos contribuem com as suas experiências e conhecimentos; em que os trabalhos criados são públicos e sujeitos a opinião. E porquê? Porque fazer parte do processo criativo aumenta o espírito crítico; porque quem tem coragem de participar activamente deixa de veicular sentenças vazias, pois passa a conhecer na pele os desafios, as dores e os prazeres da criação e produção de algo; porque quem faz e não se limita a falar conquista liberdade e respeito. Mas quem paga? Voltamos ao início: aqueles que acham que os recursos públicos apenas devem ser canalizados para pontes e hospitais e bancos por acaso aguentariam a vida sem música e cinema e pintura e literatura e jogos e fotografia e dança e todas as outras artes? Utópico? Pois sou.