Toda eu

“… estava permanentemente ocupada em querer e não querer ser o que eu era, não me decidia por qual de mim, toda eu é que não podia…”

Palavras: Clarice Lispector (A legião estrangeira, Os desastres de Sofia)

Escrita

Escrita

“escrever começa na margem”

Texto: Luísa Benevides
da palavra à imagem, da imagem à palavra

escrevo no teu corpo com as mãos
escrita trêmula, a princípio
firme, depois
inscrevo-me na tua pele
e mais fundo.
memorizo teus poros, percorro geografias,
lentamente.
aquilo que conhecerei de ti me será contado pelos meus dedos
para que possa sonhar contigo.
saberás o sonho.

Texto: Ana Gilbert

Auto-retrato 12

“Já que não me entendes, não me julgues
não me tentes…”

Palavras: Renato Russo

Tempo da ausência

“Tenho as pessoas à mão. Sei o que comem, a hora que acordam. Vejo luzinhas verdes acesas. Já estão na linha.

Sei que, às vezes, estão tristes. Quando pousam com aquele sorriso brilhante de selfie no meio de meu display. Nunca me vi no espelho dos olhos de uma selfie. Nessas horas de tristeza inconfessa, quero estender o braço. Tocá-las no ombro, sentar ao lado de seu denso silêncio. Mas o whatsapp, o messenger e o raio que o parta andam vazios de cadeiras.

Mando áudio de voz. Fecho os olhos enquanto gravo. Falo sozinha. Faço, escrevo, curto, soliloquio. Porque também tenho faltas. Falta-me a festa a que não fui. Vi toda a minha ausência pendurada nas fotos da corda de alguma rede. Falta-me a poesia que não ouvi a minha amiga dizer. O momento em que esqueceu a estrofe. Entre o desastre e a retomada do fio, pude ver o seu re-verso. Faltam-me os esquecimentos. Todos os enterros a que não fui. Li dezenas de homenagens em páginas e páginas de tela líquida. Serena-me um pouco o buraco.

Falta-me a ausência dos que mais quero, ouço, leio. Da tua prosa. Quero ler-te com o assombro de quem não foi preparado. Faltam-me os dez dias em que não vi a sombra de tua voz, o rastro amado de tua silhueta.

Como a de minha avó. Ligo toda semana.

– Como passou os dias? Está frio? Usou casaco? Comeu o quê de mais saboroso?- pergunto.

-Tudo na mesma – ela diz.

Conta-me. Sempre pela primeira vez.

Quero-te ausente. A festa, a letra, o amor.

Quanto tempo, direi. Quanto tempo, dirás. E nesse abismo entre a tua solidão e a minha angústia, te falarei, te verei o rosto. Te lerei a prosa no emaranhado das linhas da palma da mão.

E se, por acaso, este texto saltar-te aos olhos em tua imensa linha do tempo, saberás de minha enorme contradição.

O que faltar, te conto ao vivo.”

Texto: Lorena Kim Richter

Palavras

Vento 4

“As palavras nada têm a ver com as sensações. Palavras são pedras duras e as sensações delicadíssimas, fugazes, extremas.”

Texto: Clarice Lispector (Para não esquecer)

“De onde surgem os gritos, como nascem?”

Fotografar palavras
Projeto e texto: Paulo Kellerman
Foto: Ana Gilbert

Palavras fotografadas, fotografias narradas…

“A vulnerabilidade de um peito que esconde um coração, um coração que esconde medos e desesperos insuspeitos para quem olha e apenas vê um peito, apesar de saber que algures há um coração.”

(Paulo Kellerman, Almas desligadas)