Este foi um ano especial, apesar das sombras da pandemia: além da produção fotográfica, o meu livro de contos pela Minimalista materializou-se. Ambos me ajudaram a continuar criativa acima de tudo. Ajudaram-me a respirar.
Um enorme agradecimento a todos os que acompanham este processo; aos que voltam por sentirem que há algo aqui que faz sentido. Aos que passam de forma breve, por curiosidade ou acaso.
“O clique acontece por dentro e o dedo aciona o disparador. Não sei o que fotografei. (nunca sei. iludo-me)”
Ao escrever sobre o livro, “A respiração do tempo”, detenho-me no título. O tempo como organismo vivo. Que respira. Reparem que não há humanos sem tempo. O tempo é uma estrutura essencial. E este livro começa logo por evidenciar isso. O livro, muito cedo, entra pelo desejo, na sua relação com a imaginação, ou com a fantasia. Mostrando como o êxtase precisa dessa centelha para existir. E vai por ali fora, sempre poderoso. Mostra-nos não aquele humano perfeitinho, mas aquele que sofre e faz sofrer. Aquele que por vezes vive quase sem poder. O prazer e a dor estão muito presentes na narrativa. É um livro carregado de interioridade. Com a psique das personagens muito à mostra. Não estamos perante personagens planas, sentimos a sua riqueza e toda a força das suas circunstâncias. Vou dar um pequeno exemplo: “Uma mulher observa a cena e, como os cães, fareja a ameaça. Ela, uma dessas mulheres violadas por seu homem. Ela e o seu grito mudo. Ao sinal invisível, os homens começam a disparar. Descarregam armas, como uma ejaculação colectiva, fruto de um gozo inominável.” A água é também um elemento constante. Há uma qualquer relação entre o mar e a morte. Que vai sobrevindo. É um livro que tem arrojo, risco por parte da sua autora. Exposição. Verdade. Na linguagem tem a sua música. As suas escolhas. Uma pontuação própria. Um sentir da língua, em balanço, em movimento. Tenho uma teoria: um livro interessante tem de partir de alguém interessante. E este livro é mais uma demonstração desta minha teoria. Quanto deste livro é esta autora? O que pensa? Como pensa? O que observa? O que encontra? Que detalhes? Que linguagem? Que relações estabelece entre tudo? O livro beneficia de toda essa riqueza. Por todas estas razões, e aquelas ainda por descobrir (porque cada leitor fará o seu livro), é uma boa ideia ler este “A respiração do tempo”.
Finalmente entendi Por que motivo algumas pessoas se suicidam.
Foi ontem: Acordei abruptamente e soube que não conseguiria voltar a dormir. Soube que tudo o que havia a fazer era deixar-me estar quieto. Esperar. Sentir o tempo passar E remoer os pensamentos. Os mesmos pensamentos de sempre, Um após outro. O desfile completo, Previsível, Imparável.
Remoê-los devagarinho uma vez mais. E uma vez mais, Chegar a lado nenhum.
Será que algum pensamento pode Algum dia Conduzir a algum lado?
O meu sonho maior é conseguir dormir E durante o sono sonhar que estou acordado e livre de pensamentos.
Mas o desfile nunca pára. E há momentos, Como ontem, Quando acordei abruptamente e percebi que não conseguiria voltar a dormir, Há momentos Em que fico um pouco desesperado.
Só um pouco. Mas e se um dia ficar muito?
Foi então que telefonei para te dizer: Finalmente entendi Por que motivo algumas pessoas se suicidam.
É quando o pouco se transforma em muito.
Sim, Eram quatro da manhã e estavas a dormir. Mas a pergunta não me saía da cabeça, Precisava de verbalizá-la: E se um dia ficar muito desesperado?
Desligaste o telefone, Voltaste a dormir. O que sonhaste?
E QUANDO ACABAREM AS PERGUNTAS? Edição Sem Editora
O Paulo tem a poesia no olhar, e tem a capacidade de criar inúmeras imagens com as palavras: imagens belas, todas, algumas terríveis em sua beleza. Gosto de como fala das relações humanas (e nos poemas não é diferente); de como o relacionar-se com o outro envolve o relacionar-se consigo mesmo. E do tom melancólico que os poemas carregam, mesmo que de forma muito sutil (junto com a sedução, a paixão, a curiosidade, a leveza). No livro, há uma busca interna profunda, desesperançada até, mas há também a vontade de seguir… porque não se pode abandonar a morte (das coisas, das relações, dos momentos, a nossa), porque isso seria abandonar a vida (com tudo o que ela provoca e permite). Vida e morte, sempre juntas; a angústia disso, a plenitude disso.
Recebi este abraço do Pedro Leal e do Tiago Martins. E respondi com este abraço escrito:
Abraço-te. As nossas pulsações conversam. Alinham-se. Aquietam-se. Sorrimos. Os olhos também sorriem. Porque mais do que tu e eu, este abraço nos faz ‘nós’. Porque existimos inteiros neste espaço que é o abraço. Porque o abraço é como uma casa onde se pode descansar.
“Agora, sente o toque da liberdade: no espírito, no pensamento, no corpo. Nunca lhe ocorrera antes que a liberdade pudesse ser apenas isso: leveza. Mas agora sabe.”
“Eu pronuncio esta palavra como se não fosse de minha língua. É uma palavra que tem textura, é rugosa, fere, menospreza. Vergonha.”
Rafael Azevedo (Ecos no coração da terra, Kotter Editorial, 2021)
Um livro de tirar o fôlego, que provoca imagens, inúmeras imagens. Fragmentos que, aos poucos, nos revelam sua costura e o avesso da costura. Jogos de luz e sombra, fascinantes e hipnóticos. Viciantes e peçonhentos. Um mergulho na alma humana: almas individuais, alma familiar, alma coletiva. Vida e morte; decadência e libertação.