
A casa

I
Tentava escrever
com a minha mão direita,
com a minha mão esquerda, alma corpo inteiro
[a casa, os movimentos da casa, a casa]
o osso aparente
a vértebra em silêncio,
a côdea dura do lume apagado. Tentava escrever o resíduo
a dobra da cal
descosida da sombra, a sépia
como se em silêncio o vestígio da casa
pudesse acontecer
enquanto
escrevia. E escrevia
escrevia a janela, a luz, a pedra, a brisa
o sopro da cinza vaga do livro
[era azul poema, o livro]
a mesa aberta às sobras do norte, a poalha
transparente
o sopro agitado
[nesse lume obediente]
que sabe como arder na manhã áspera
devagar. Escrevia
II
e enquanto tentava escrever
acontecia
a casa.
…………
de | esboço para | a casa
Palavras: Breve Leonardo

“Sou o corpo suspenso
que oscila entre
as preces no bordel
e as ereções no convento”
Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Rosa Boto Caiado


Loucura

“Vou roubar o luar, afinal é de prata quando reflete na água.”
Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Jorge Gomes Pereira
Silêncio


“Tenta não te olhares ao espelho”

(Serviços mínimos de felicidade)
“Uma janela refletida num espelho, uma janela que é um espelho, um espelho que é uma janela.”
Palavras | Paulo Kellerman (Almas desligadas)
Almas desligadas



“Será que, no fundo, quando olhamos para o mundo e procuramos os outros pretendemos apenas fugir de nós? Distrairmo-nos de nós próprios? Serão os outros distracções, seremos nós distracções dos outros?”
Texto: Paulo Kellerman
O autor escreveu o romance Serviços mínimos de felicidade. Escolhi e fotografei 27 excertos. O texto acima é um desses excertos. A partir das fotos, o autor escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do livro.
Palavras fotografadas, fotografias narradas…
“Uma mulher com um saco cheio de mundo, ou de nada, na mão.”
Texto: Paulo Kellerman (Almas desligadas)
Observo-te

“Observo-te à distância. À distância insegura de um toque, de um gesto, à distância insegura de uma inspiração-expiração-inspiração, à distância insegura do olhar que é também carícia.
Observo-te, e penso que sequer suspeitas o que sinto. Talvez imagines que estou aqui sem me envolver, alheia a ti, sensação apenas. Talvez não. Observo-te: contornos, textura, movimento. Observo-te na solidão da tua presença, na tristeza do encontro, na possibilidade de prazer (ou será dor?).
Tocas-me. Com a ponta do cigarro acesa. É parte do teu prazer. Estremeço. Já não sinto dor. Já não sei a diferença entre dor e prazer. Tento concentrar-me em cada pedaço de mim que ganha vida própria ao teu toque. Mas o pensamento é como um compartimento estanque, isolado das sensações, a seguir seus próprios caminhos. É preciso que seja assim. E continuo a pensar. Já não sei a diferença entre dor e prazer. Os dois parecem parte da mesma coisa. Tento convencer-me de que é assim, de que esta é uma forma de amor, a tua forma de amar. Talvez desejes que seja imune à tua sedução, que apenas ceda aos meus próprios desejos (quais?), aproveite o momento, não tenha anseios. Talvez. Imagino que não sou o que queres de mim. Seria isso? Hesito por um instante. Observo-me. Estou à beira da entrega. Acho que o faço por prazer (ou será medo?). Não sabes da minha insegurança, sabes? Se soubesses, o que farias? Agredirias mais? Machucarias com mais requinte? Irias embora, deixando-me em abandono? Talvez não. Serei eu a desconhecer-te? A desconhecer-me? Queria odiar-te e tornar-me inteira no ódio. Mas não tenho forças. Meus fragmentos estão espalhados.
Observo-te à distância, insegura do que ser depois, depois, quando me dissolver em ti e nada mais fizer sentido. Não agora.”
Projeto | Paulo Kellerman
Texto e foto | Ana Gilbert



No caminho te ilumino.”
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Letícia A.

“We all live on the same surface, the same skin. If others are unfathomable, it is because it takes an infinite number of folds to really reach them.”
Texto | Laura U. Marks (Touch: sensuous theory and multisensory media)

Ando em busca da minha humanidade, tão diferente de tudo ou será tão igual?






