Dizes que o teu corpo sonha, Que os teus dedos sonham A tua pele, Os teus lábios.
Dizes que o teu coração sonha.
E os teus olhos. Dizes que os teus olhos sonham tanto, Mas tanto, Mesmo quando estão fechados. Especialmente quando estão fechados.
Como sangue, Dizes tu.
Sorris e explicas Que o teu corpo está repleto de multidões de sonhos Entranhados nas tuas células. Do lado de dentro das células. Na alma de cada uma das células.
Sorris E explicas que são esses sonhos que te dão vida. Como se fossem sangue.
Um fluxo permanente e imparável De sonhos.
Gostava de te fazer uma pergunta:
Se o teu corpo tem em si todos esses sonhos, Porque não os sinto quando me beijas?
Apenas me dás saliva. Não sinto sangue Nem sonhos.
[You say your body dreams, your fingers dream Your skin, Your lips.
You say your heart dreams.
And your eyes. You say your eyes dream so much. But so much, Even when they are closed. Especially when they are closed.
Like blood, You say.
You smile and explain That your body is full of multitudes of dreams Ingrained in your cells. Inside the cells. In the soul of each of the cells.
You smile And explain that those dreams are what give you life. As if they were blood.
A permanent and unstoppable flow Of dreams. I would like to ask you a question:
If your body has all those dreams in it, Why can’t I feel them when you kiss me?
You just give me saliva. I do not feel blood Nor dreams.]
Texto | Text: Paulo Kellerman Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Num mundo de meias vidas e vidas pela metade, ele era o rei e senhor.
Trabalhava pela metade, não fosse ficar demasiado afadigado para o meio dia em que nada fazia. No ginásio havia regateado embolso e por apenas meio preço fazia metade dos exercícios, uma parte dos quais eram realizados em observação criteriosa das moças inteiras que vestiam pela metade e deambulavam pelo sítio.
Sempre que ia às compras despendia meio tempo a analisar folhetos de promoções e comprava metade do que fazia falta, outra metade do que nunca usaria. Com o vestuário agia da mesma forma, i.e., comprava roupa conformada a gente com metade da sua idade, metade do seu peso, metade de si, numa tentativa de se manter meio do que se sabia.
A vida amorosa era mais um terreno fértil de metades injustificáveis. Tinha meias relações que se baseavam em sentimentos pela metade, noites de prazer acervadas a meio para que a intimidade não se completasse, mulheres de quem nunca saberia o nome inteiro uma vez que menos de metade chegava para que o seu intuito de meia companhia se cumprisse. Ah! E nem na cama largava as meias. Sim, nu integral, mas sempre com as meias presentes.
Algures pelo meio desta vida vivida pela metade, com meias inferências de tudo o que poderia ter sido completo, teve uma meia epifania e resolveu partir para visitar meio mundo. Afinal de que valia estar já a meio da vida, finasse ela quando fosse, se não vivesse pelo menos metade do que havia vivido?
Reza a história que o nosso senhor das meias, a meio do ano seguinte a largar a sua meia vida, se completou ao morrer de amores por inteiro de uma dama que não se contentou nunca com metades de coisa nenhuma. E viveram felizes para sempre, no seu reino de plenitude vivida a meias!”
“Tenho tido um sonho. Já dura há dois anos.Um pensamento estranho. Isolamento. No meu sonho, pensamento vou até uma ilha. Vou carregada de peso, em mim. Chego quase por magia. Ou por magia. Num barco pequeno. Sei exatamente para onde tenho de ir. Mas não quero ir. Arriscar. Mentalmente sei exatamente o caminho. Mas nunca ali estive. Abandono o barco a custo. Salto. Água até aos joelhos. Molho as calças. Sinto ainda mais peso. Caminho na areia. Pesadamente. Com pressa mas sem resultado. Há peso nos ombros, como um casaco de peles. Caminho até uma espécie de casa. É só uma cabana. Simples. Há coisas a esvoaçar. São panos brancos. Subo uma rampa de madeira comida pelo sol. Sei que tenho de entrar. Foi algo que prometi. Entro mas não há porta. Há uma cama grande. Tem um tecido branco como colcha ou lençol. Ao lado um banco. Uma espécie de mocho. Em cima duas velas virgens. Um caixa de fósforos velha. Acendo-as. Agora é de noite. Mas era tão de dia. Talvez. Dispo-me. Parece-me passar uma hora. Nada saí do corpo. Penso tomar banho no mar. Mas o medo da falta de pé. Acobardo-me. Tenho medo de arriscar. Deito-me na cama. Em frente há um chuveiro, no meio do nada, ao fundo do quarto. Ou cabana. Levanto-me concentrada. Tomo banho. Água gelada. Choro. Volto à cama. Cheira bem. Não há toalhas. Cola-se o tecido branco ao corpo. Obrigo os olhos a ver-me. Nua. Não quero ver. Fecho os olhos o mais rápido que consigo. Ardem. Acordo. Não sei se dormi. O sol ilumina o quarto. A cabana. As velas quase intactas. Apagaram-se a meio do sonho. Fixo o olhar nelas. Acordo. Queria voltar lá. Não posso, tenho de esperar todo o dia, até dormir. Toda a monotonia de um dia inútil. Já na noite tenho de esperar o sono. Já no sono espero a tristeza. Já triste sonho. Com sorte volto à ilha. À cabana. À conclusão de tudo isto.”
“Dizem que quem ouve vozes dentro da cabeça é doido, mas se calhar os doidos são aqueles que não ouvem vozes, aqueles que acreditam que a sanidade reside na solidão e na individualidade do pensamento.”
“Recordamos tantas primeiras coisas. Mas não a primeira vez que olhámos, que cheirámos, que tocámos; que sorrimos. Como podemos esquecer o primeiro sorriso?”
“Sente-se um estranho. O seu sorriso é o sorriso de um estranho. O seu olhar é o olhar de um estranho. Tudo em si parece pertencer a estranhos. Alguma vez se irá conseguir cruzar com a sua alma?”
os dias as cores os medos a respiração
parados, à espera
à espera dos dias das cores dos medos da respiração
livres
das angústias medidas
das dores mediadas
O Fotografar palavras, esse projeto bonito do Paulo Kellerman e de todos nós, lugar de encontro entre a palavra e a imagem, vai virar exposição… para ser mais específica, serão 4 exposições em 4 anos… e a primeira será logo agora… um orgulho e uma felicidade ver o projeto florescer.
De 29 de fevereiro a 03 de maio de 2020, no m|i|mo – museu da imagem em movimento, Leiria, Portugal