O merecimento é um limoeiro

A luz entra, finalmente, pelas janelas, como fagulhas nos olhos de quem quer muito dizer coisas terríveis, amargas, verdadeiras, mas tem medo do fogo. O fogo também tem medo do fogo, como não. Orienta-me aí uma Fénix, exclama-lhe o pensamento, depois de ter dito, um dia, que nada há mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas. Mas enfim, não há Fénix nem leão de Nemeia.

A nuca sabe sempre melhor, sabe mais do que os sapos que lhe nasceram nos olhos, pela manhã, quando se levantou só por milagre. Isto é sobre a luz a entrar pelas janelas mas também podia ser sobre o pecado que é desaparecer sem bandeira e, como se não bastasse, sem música de fundo.

Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)

Elementar

Esta casa mais ou menos habitável
um prego entre paredes
onde existem sombras chinesas que
são ora uma escarpa
ora um amolador

-um beco sem saída.

    O que eu quero dizer é que não há nada
    mais poderoso do que uma mulher que se ergue das cinzas.

    Patrícia Ricardo (Dar à costa ou esmorecer, 2026)