A mulher desdobra lentamente a lona e prende-a à parede. Muita gente passa ali àquela hora, mas quase ninguém repara na mulher e na sua lona, onde está escrito “liberdade confunde-se com vulnerabilidade”. Durante algum tempo, as pessoas continuam a passar, a lona continua a ser ignorada. Até que a mulher se começa a despir, até ficar completamente nua. E de repente a lona passa a ser lida; e a fazer sentido.
Clarification
The woman slowly unfolds the canvas and secures it to the wall. A lot of people pass by at that hour, but almost nobody notices the woman and her canvas, where it says “freedom is confused with vulnerability”. For some time, people continue to pass by, the canvas continues to be ignored. Until the woman begins to undress, until she is completely naked. And suddenly the canvas is read; and makes sense.
PORTABLE LINK é um projeto com o escritor Paulo Kellerman, que nasceu da afinidade entre os nossos trabalhos e se constituiu como um diálogo entre palavra e imagem. Criado há mais de um ano na plataforma Ello, o projeto agora passa a existir também no instagram.
Ontem, no m[i]mo – museu da imagem em movimento, aconteceu a apresentação do livro GEOGRAFIAS CORPORAIS, com o Paulo Kellerman. Não poderia ser mais significativo: apresentar este livro na sala onde decorre a exposição do Fotografar Palavras, projeto que deu início a esta parceria e amizade. Obrigada a quem participou!
Meu ensaio fotográfico CLARICEANA está na Revista Tangerine # 10, na companhia de outros trabalhos lindos.
Este ensaio foi inspirado no livro Água Viva, de Clarice Lispector. Nele, autorretratos dialogam com paisagens aquáticas, oníricas em sua fluidez e atemporalidade, onde o dentro e o fora se confundem e se complementam. Juntos, formam paisagens internas, imagens-palavras que convidam à experiência sensorial, ao mergulho em águas profundas, onde luz e sombra se fazem presentes e explicitam tensões. O fascínio exercido por essa zona limítrofe, a superfície da água, demarca a fronteira entre a vigília e o sono, entre as instâncias da psique (consciência e inconsciente). As imagens nos levam a percorrer trilhas fragmentadas e poéticas, marcadas pela alternância entre movimento e quietude. Experienciamos a relação com o espaço que nos circunda. Um espaço que é ao mesmo tempo externo e interno, Cheio e vazio. Um espaço que se descortina estranho e ampliado quando vislumbrado na superfície refletora da água ou do espelho. Múltiplos espelhos, múltiplas imagens: de nós e do mundo que habitamos e que nos habita. Instantes- já da relação “eu-tu”, coagulados como fotografias. Cenas e o seu avesso. A realidade enviesada. O ensaio oferece a experiência pura do fluxo de vida, do instante que é como o silêncio que está no silêncio das coisas e não pode ser ouvido, a não ser com o corpo inteiro; como uma realidade que se cria a partir da escuridão e do sonho. A partir da imaginação. Água, ar, planta, corpo. A alternância entre a sensação de dissolução e a aventura arriscada de fixar a delicadeza do encontro eu-outro, eu-mundo. Clariceana é uma tentativa de capturar o incapturável: a respiração que rege a ordem do mundo, do meu mundo. O ritmo da pulsação. A liberdade de vida e morte. O seu mistério. Efemeridade e eternidade em mim.
observo a lentidão do teu gesto. [o toque suave da renda] a mão pequena [onde cabe o mundo] o corpo desnudo [o desejo a descoberto] observo as articulações que se movem [hipnótico] dedilham memórias que espreitam inocentes [indecentes] feitas de luz [sombra] deixam a pele marcada [cicatrizes inexistentes] pela eternidade [dolorosa] dos encontros imprecisos [improváveis]